A hipercolesterolemia familiar é uma condição hereditária pertencente ao grupo das dislipidemias que causa o aumento significativo do nível de colesterol LDL no sangue, um fator de risco importante para o desenvolvimento de doenças cardíacas.
As dislipidemias são doenças que provocam o desbalanço dos níveis de lipídios, como colesterol e/ou triglicerídeos, e de lipoproteínas circulantes no sangue. Além da hipercolesterolemia familiar, a Síndrome da Quilomicronemia Familial também é um exemplo de doença deste grupo.
Com uma prevalência relativamente alta de um de seus tipos, a hipercolesterolemia familiar pode levar a sérios problemas cardiovasculares, sendo uma causa genética comum de doença coronariana precoce.
Entenda as causas, os sintomas, o tratamento e importância dos testes genéticos para a hipercolesterolemia familiar, doença considerada um problema de saúde pública.
O que causa a Hipercolesterolemia Familiar?
A hipercolesterolemia familiar monogênica é causada por variantes em diferentes genes que resultam no acúmulo de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) associadas ao colesterol no sangue.
As lipoproteínas de baixa densidade são responsáveis pelo transporte do colesterol (e de parte dos triglicerídeos) pelo plasma sanguíneo. Assim, o acúmulo dessas lipoproteínas leva ao aumento das concentrações plasmáticas de colesterol (também chamado de colesterol LDL ou LDL- c).
| Qual a importância do colesterol e dos triglicerídeos? O colesterol é uma molécula essencial para o funcionamento das células dos animais, constituindo parte importante da membrana celular e servindo como precursor de hormônios e dos ácidos biliares. Os triglicerídeos são os lipídios mais comuns no corpo e representam uma importante fonte de energia. Tanto o colesterol quanto os triglicerídeos podem ser conseguidos pela dieta ou pela produção interna, feita pelo fígado. No sangue são transportados por lipoproteínas, que diferem quanto ao tamanho e função. |
Na maior parte dos casos, a hipercolesterolemia familiar é causada por alterações no gene LDLR. Esse gene contém as instruções para a formação do receptor celular do colesterol LDL, localizado principalmente na membrana dos hepatócitos. Esse receptor se liga ao colesterol, levando-o para dentro da célula e, assim, removendo-o da circulação sanguínea. Depois, ele é reciclado e volta à membrana celular, para se ligar novamente a outras moléculas de colesterol.
Mutações que levam a alterações no receptor celular ou em outras moléculas que participam do processo de ligação e remoção do colesterol LDL provocam o aumento dos níveis plasmáticos desse lipídio.
| Gene | Herança | Consequência |
| LDLR | AD | Defeito no receptor celular do colesterol LDL. |
| APOB | AD | Diminuição da afinidade da apolipoproteína B100 pelo receptor do colesterol LDL. |
| PCSK9 | AD | Aumento da degradação do receptor celular de colesterol LDL. |
| LDLRAP1 | AR | Defeito em uma proteína adaptadora, que auxilia a ligação do colesterol LDL ao seu receptor celular. |
Formas heterozigótica e homozigótica da Hipercolesterolemia Familiar
A prevalência da hipercolesterolemia familiar na forma heterozigótica (quando o indivíduo herda apenas um alelo mutado) é estimada em cerca de 1 caso para cada 200-300 pessoas, sendo considerada uma das doenças monogênicas hereditárias mais comuns.
Já a forma homozigótica (quando o indivíduo herda dois alelos alterados) é mais rara (podendo chegar a 1 caso a cada 1 milhão de indivíduos) e geralmente mais grave, além de manifestar os sintomas cardíacos mais cedo.
Estima-se que, no Brasil, a prevalência geral da hipercolesterolemia familiar seja em torno de 1 caso a cada 263 indivíduos.
A hipercolesterolemia também pode ser causada pela ação combinada de variantes presentes em vários genes (forma poligênica) e por fatores ambientais e de estilo de vida, como alimentação inadequada, tabagismo e sedentarismo.
Quais são os sinais e sintomas da Hipercolesterolemia Familiar?
A elevada e persistente concentração plasmática de colesterol LDL leva à deposição de placas de gordura ao longo dos vasos sanguíneos, como nas artérias, no que é chamado de aterosclerose.
A aterosclerose pode resultar em diversos problemas, como a obstrução do fluxo sanguíneo no coração, causando o aumento significativo do risco de desenvolvimento precoce da doença arterial coronariana.
A doença arterial coronariana consiste na obstrução das artérias coronárias, vasos sanguíneos de grosso calibre que irrigam o músculo cardíaco.
| Indivíduos heterozigotos para hipercolesterolemia familiar que não realizam tratamento podem desenvolver doença cardíaca antes mesmo dos 30 anos de idade. Já indivíduos homozigotos nessa mesma condição podem desenvolver doença cardíaca ainda na primeira década, impactando significativamente a expectativa de vida. |
Além do desenvolvimento precoce da doença arterial coronariana e seus eventos secundários relacionados (como infarto agudo do miocárdio e angina), outros sinais clínicos característicos da hipercolesterolemia familiar incluem:
- Xantomas tendinosos (ou tendíneos): placas espessas formadas pelo depósito de gordura (colesterol) no tecido conjuntivo dos tendões dos calcanhares, joelhos, cotovelos e dedos. Também podem estar presentes os xantomas tuberosos amarelo-alaranjados (mais elevados, nas mãos, por exemplo) e xantomas planos em outras partes do corpo.
- Xantelasmas: placas de gordura que afetam as pálpebras dos pacientes.
- Arcos córneos (ou corneais) nos olhos: coloração esbranquiçada formada pelo acúmulo de lipídios ao redor da córnea.

As manifestações fenotípicas da hipercolesterolemia familiar não se apresentam da mesma forma em todos os pacientes e podem variar de acordo com a idade, o nível do colesterol LDL no plasma sanguíneo e a presença de comorbidades, como diabetes e tabagismo.
Pacientes heterozigotos costumam ser assintomáticos na infância e adolescência.
Devido às graves complicações cardiovasculares que pode causar, bem como o elevado índice de mortalidade quando não tratada, a hipercolesterolemia é considerada um problema de saúde pública.
Como é o tratamento para a Hipercolesterolemia Familiar?
O tratamento para a hipercolesterolemia familiar tem como objetivo reduzir o nível de LDL-c no sangue, através da combinação de mudança dos hábitos alimentares, de estilo de vida e também pela intervenção medicamentosa.
É importante que o paciente adote uma dieta saudável com redução no consumo de gorduras saturadas e suspensão da ingestão de gorduras trans. Além disso, é importante a suspensão do tabagismo e a prática regular de atividades físicas.
Junto a essas mudanças de hábitos alimentares e de estilo de vida, podem ser prescritos medicamentos para reduzir o colesterol, com base na idade, risco associado às doenças cardiovasculares e níveis de colesterol sanguíneo.
Todo tratamento deve ser prescrito e acompanhado por um médico.
Com o tratamento e acompanhamento médico adequado, o paciente com hipercolesterolemia familiar tem um prognóstico positivo, podendo ter uma boa qualidade de vida.
Como é o diagnóstico da Hipercolesterolemia Familiar?
O diagnóstico da hipercolesterolemia familiar segue diretrizes estabelecidas pelos colegiados médicos e leva em conta os aspectos clínicos, exames laboratoriais e o histórico pessoal do paciente, assim como histórico familiar de doença arterial coronariana precoce, por exemplo.
Infelizmente, os sintomas da doença podem ser confundidos com os de outras condições, além de que não se manifestam necessariamente da mesma forma em todos os pacientes, o que pode tornar o diagnóstico, baseado apenas nos critérios clínicos, demorado.
Estima-se que, dentre a população portadora de hipercolesterolemia familiar, menos de 10% têm diagnóstico conhecido. O diagnóstico precoce é fundamental, pois possibilita o início do tratamento e a mudança da história natural da doença.
Diagnóstico genético da Hipercolesterolemia Familiar
O diagnóstico molecular pelo sequenciamento e avaliação dos genes relacionados à hipercolesterolemia familiar é uma ferramenta importante pois:
- Ajuda a estabelecer um diagnóstico definitivo, nos casos em que apenas critérios clínicos não são suficientes, reduzindo o tempo de investigação da doença e permitindo o início do acompanhamento médico.
- Auxilia na conduta terapêutica, ao diferenciar indivíduos homozigotos de heterozigotos.
- Permite o aconselhamento genético dos familiares, levando ao rastreamento familiar em cascata, identificando pessoas da mesma família que possam ter as mesmas alterações genéticas.
Apenas um médico pode avaliar os benefícios da realização de um teste de diagnóstico genético.
Para auxiliar no diagnóstico da hipercolesterolemia familiar, a Mendelics desenvolveu o Painel de Dislipidemias, que faz o sequenciamento completo (éxons e regiões intrônicas flanqueadoras) e avaliação do número de cópias (CNV) por Sequenciamento de Nova Geração (NGS) de 4 genes relacionados à hipercolesterolemia familiar.
Todo exame de diagnóstico genético precisa de pedido médico para ser realizado.
Se tiver dúvidas sobre nossos exames entre em contato conosco pelo site, pelo e-mail contato@mendelics.com.br ou pelo telefone (11) 5096-6001.
Revisão
A hipercolesterolemia familiar é uma condição hereditária pertencente ao grupo das dislipidemias que causa o aumento significativo do nível de colesterol LDL no sangue, um fator de risco importante para o desenvolvimento de doenças cardíacas.
O colesterol é uma molécula essencial para o funcionamento das células dos animais, constituindo parte importante da membrana celular e servindo como precursor de hormônios e dos ácidos biliares.
O diagnóstico genético da hipercolesterolemia familiar ajuda a estabelecer um diagnóstico definitivo, nos casos em que apenas critérios clínicos não são suficientes, reduzindo o tempo de investigação da doença; auxilia na conduta terapêutica e permite o aconselhamento genético dos familiares.
Referências bibliográficas
- Patni N, Ahmad Z, Wilson DP. Genetics and Dyslipidemia. PubMed
- Cox RA, García-Palmieri MR. Cholesterol, Triglycerides, and Associated Lipoproteins. NIH.
- García-Giustiniani D, Stein R. Genetics of Dyslipidemia. Arquivos Brasileiros de Cardiologia.
- Izar MC de O, Giraldez VZR, Bertolami A, et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar – 2021. Arquivos Brasileiros de Cardiologia.
- American Heart Association. What is Familial Hypercholesterolemia? Acessado em 09/11/2023.
- Alves RJ, Takao Suehiro Junior A, Brailowsky Pellegrino L. Hipercolesterolemia familiar homozigótica e heterozigótica grave: epidemiologia, diagnóstico e tratamento. Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. 2021
- Afonso, T. K. A. Estudos da atividade do receptor da LDL em pacientes com Hipercolesterolemia Familial. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2018













Deixe um comentário