Em 2020, o medicamento ivacaftor foi incorporado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tornando o Brasil o 1º país da América Latina a ter o tratamento com o medicamento modulador do gene CFTR disponível gratuitamente na rede pública.
Mais precisamente, o medicamento foi disponibilizado para tratamento de pacientes acima de 6 anos e 25kg que apresentem uma das seguintes mutações no gene CFTR: G55ID, G1244E, G1349D, G178R, G551S, S1251N, S1255P, S549N ou S549R.
A solicitação de incorporação foi feita com base em evidências dos ensaios clínicos realizados pela Vertex Pharmaceuticals e sustentados pelos achados do grande programa Projeto do sequenciamento do CFTR para Fibrose Cística, coordenado pelo Grupo Brasileiro de Estudos em Fibrose Cística (GBEFC) com apoio do laboratório Mendelics e patrocínio da Vertex Pharmaceuticals.
O projeto, que iniciou em 2017, envolveu mais de 50 centros de referência de tratamento de fibrose cística e realizou mais de 4 mil sequenciamentos genéticos. Para participar, o paciente precisava ser atendido por um médico do centro de referência, que realizava o seu cadastro no Registro Brasileiro de Fibrose Cística (REBRAFC) e, posteriormente, o paciente coletava uma amostra da saliva para o sequenciamento do gene CFTR, realizado pela Mendelics.
Por que o diagnóstico genético de fibrose cística foi tão importante para a incorporação do tratamento no SUS?
Para entender a importância do diagnóstico genético na incorporação desse medicamento no SUS é necessário relembrar o que é e quais as causas da fibrose cística.
Entenda a fibrose cística
A fibrose cística ou mucoviscidose é uma doença rara genética que afeta múltiplos órgãos, principalmente pulmões e pâncreas. É crônica e progressiva, com uma grave redução da expectativa de vida das pessoas acometidas.
Estima-se que mais de 105 mil pessoas no mundo têm diagnóstico de fibrose cística, incluindo mais de 6 mil brasileiros.
A FC é causada por mutações no gene CFTR. Esse gene fornece as instruções para produzir uma proteína localizada na membrana das células que atua como uma “porta” (um canal celular) que controla a entrada e a saída de cloreto (um componente do sal) e água nas células do pulmão, pâncreas e de outros tecidos do organismo.
As mutações presentes no gene CFTR fazem com que essa proteína não seja produzida na forma ou na quantidade correta, assim, ela não exerce a sua função adequadamente.
Como resultado, ocorre um desequilíbrio de sal e fluidos dentro e fora das células, originando um muco espesso e pegajoso, que provoca sintomas característicos da fibrose cística, como tosse persistente, pneumonia, bronquite, insuficiência respiratória e perda de sal pelo suor. Este último sintoma é tão marcante que a doença ficou conhecida como “Doença do Beijo Salgado”.
Para entender mais sobre fibrose cística, leia esse artigo.
Mutações no gene CFTR e fibrose cística
De acordo com o ClinVar, já foram identificadas mais 1.600 mutações no gene CFTR que causam fibrose cística. Algumas delas, como a F508del, são encontradas em milhares de pessoas afetadas, porém outras são extremamente raras e identificadas em poucas pessoas no mundo.
| Como cada mutação causa uma alteração diferente na proteína, os sintomas variam entre os pacientes, que exigem diferentes tratamentos. Por isso, é muito importante identificar qual é a mutação que o paciente com fibrose cística possui. |
Ter o diagnóstico genético – ou genotipagem – é um desafio para muitos pacientes, que podem estar em locais sem acesso a exames genéticos ou com acesso apenas a técnicas limitadas. É comum, por exemplo, que seja pesquisada apenas a presença da mutação F508del, deixando o paciente sem respostas, e sem opções de tratamento, em caso de resultado negativo.
De acordo com relatórios anteriores do REBRAFC, quase metade dos pacientes cadastrados no país (~46%) não conhecem qual mutação genética possuem.
É por isso que esse projeto de sequenciamento foi tão importante, pois através dele, mutações menos comuns foram identificadas na população brasileira.
No relatório apresentado pela Vertex Pharmaceuticals para a CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), apesar da mutação mais frequente (presente em 51,4% dos pacientes) ser a F508del, outras 287 variantes foram identificadas, incluindo as mutações G551D, G1244E, S1251N, S549N ou S549R – alvos do medicamento ivacaftor.
No Projeto do sequenciamento do CFTR para Fibrose Cística, a Mendelics teve papel essencial para o sequenciamento rápido e preciso do DNA dos pacientes que participaram do projeto.
Como o ivacaftor ajuda os pacientes com fibrose cística?
Nos pacientes que possuem mutações que respondem à ação do ivacaftor, a droga atua ajudando as “portas” (canais da célula) a ficarem abertas por mais tempo, permitindo que mais íons cloreto entrem e saiam das células. O movimento dos íons cloreto ajuda a manter o equilíbrio de sal e a água nos pulmões, aliviando os sintomas.
É importante ressaltar que o medicamento ivacaftor é direcionado apenas a pacientes com fibrose cística que possuem mutações específicas. É preciso conhecer previamente as mutações do paciente para poder solicitar e realizar o tratamento. Em caso de dúvidas, consulte um médico e o relatório técnico da CONITEC.
| Atualizações nos tratamentos para Fibrose Cística |
Consulta Pública para incorporação de novo medicamento modulador de CFTR: Tezacaftor-ivacaftor Em fevereiro de 2022, a Conitec abriu uma Consulta Pública para incorporação do Tezacaftor-ivacaftor (Symdeko®) no SUS para tratamento de pacientes com FC com 12 anos de idade ou mais que tenham duas cópias da mutação F508del (homozigotos), ou que tenham uma cópia da mutação F508del e pelo menos uma das seguintes mutações no gene CFTR (heterozigotos compostos): P67L, D110H, R117C, L206W, R352Q, A455E, D579G, 711+3A→G, S945L, S977F, R1070W, D1152H, 2789+5G→A, 3272-26A→G, e 3849+10kbC→T. Tezacaftor-ivacaftor têm mecanismos de ação complementares: como descrito anteriormente, o ivacaftor aumenta a probabilidade de abertura do canal na superfície da célula para melhorar o transporte de cloreto; já o tezacaftor ajuda a célula a produzir mais “portas” e levá-las para a superfície celular. Logo, o tezacaftor ajuda a célula a produzir mais canais de íons cloreto enquanto o ivacaftor ajuda esses canais a funcionarem mais eficientemente. Esse efeito combinado do tezacaftor e do ivacaftor aumenta a quantidade e função da proteína CFTR na superfície celular, resultando no aumento do transporte de cloreto e, consequentemente, na melhora dos sintomas do paciente. |
Mendelics e o diagnóstico genético de fibrose cística
A Mendelics busca oferecer exames genéticos complexos a preços acessíveis, democratizar o acesso ao diagnóstico genético e divulgar a importância desses exames entre os médicos, operadoras de saúde e pacientes.
Assim, pensando nos pacientes com fibrose cística, bem como em seus familiares e nos profissionais de saúde que têm contato com pacientes raros, a Mendelics oferece diversos exames genéticos para a triagem e diagnóstico de fibrose cística.
Triagem de fibrose cística em bebês saudáveis
A fibrose cística é uma das mais de 540 doenças investigadas no Teste da Bochechinha, o teste de triagem neonatal genética que complementa o Teste do Pezinho básico oferecido pelo SUS. Através da moderna técnica de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) analisamos o DNA do bebê em busca de alterações no CFTR e em centenas de outros genes.
Bebês com alto risco de desenvolver fibrose cística, identificadas no Teste da Bochechinha, podem iniciar precocemente o acompanhamento médico e tratamento da doença. Quanto mais cedo o diagnóstico e o início do tratamento, maior a qualidade de vida do paciente.
Diagnóstico de fibrose cística em pessoas com sintomas
Quando a criança (ou pessoa de qualquer idade) tem sintomas de fibrose cística ou o recém-nascido teve o resultado do teste do pezinho positivo para fibrose cística, recomenda-se realizar um exame genético de diagnóstico para confirmar a suspeita.
A Mendelics oferece exames para o diagnóstico de fibrose cística, incluindo o Exame de Sequenciamento do Gene CFTR e o Painel de Doenças Tratáveis .
Se tiver dúvidas sobre nossos exames, entre em contato com a nossa equipe pelo telefone (11) 5096-6001, pelo e-mail contato@mendelics.com.br ou através do nosso site.
Texto elaborado por: Ágatha Cristina em 02 de setembro de 2021
Texto atualizado por: Nathália Taniguti em 26 de agosto de 2024
Revisão
A fibrose cística ou mucoviscidose é uma doença rara genética que afeta múltiplos órgãos, principalmente pulmões e pâncreas. É crônica e progressiva, com uma grave redução da expectativa de vida das pessoas acometidas.
Como cada mutação causa uma alteração diferente na proteína, os sintomas variam entre os pacientes, que exigem diferentes tratamentos. Por isso, é muito importante identificar qual é a mutação que o paciente com fibrose cística possui.
Referências
- Relatório do CONITEC
- Relatório REBRAFC 2018
- Bula ivacaftor (KALYDECO®)
- da Silva Filho LVRF, et al. Extensive CFTR sequencing through NGS in Brazilian individuals with cystic fibrosis: unravelling regional discrepancies in the country. J Cyst Fibros. 2021
- Fibrose Cística (PCDT). *Portaria atualizada em 09/05/2024. Acesso em 26/08/2024.













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