Triagem neonatal genética

Triagem neonatal genética

Qual a importância da triagem neonatal?

A triagem neonatal é uma ação preventiva para identificar doenças tratáveis e com manifestação ainda na infância. Quando identificadas precocemente e tratadas, essas doenças podem não interferir no desenvolvimento do recém-nascido ou ter seu impacto reduzido com uma melhora significativa na qualidade de vida da criança. 

Os tratamentos das doenças são muito variáveis e incluem desde dieta restritiva, evitar situações de risco, mudanças no estilo de vida e até tratamentos mais complexos que envolvem acompanhamento multidisciplinar (médicos geneticistas e médicos de outras especialidades, psicoterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas e psicologistas) com uso de medicações específicas

Todos os recém-nascidos no Brasil têm o direito de realizar gratuitamente, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o teste de triagem neonatal conhecido como Teste do Pezinho básico que rastreia seis doenças tratáveis. Existem também versões expandidas ou ampliadas do teste (Tabela 1 – final do texto), na rede particular.

A grande maioria das doenças incluídas na triagem neonatal tem origem genética, exceto as  doenças infecciosas e algumas formas de hipotireoidismo congênito. 

Centenas de doenças genéticas com tratamento disponíveis não são incluídas em testes de triagem neonatal atualmente devido a limitações das técnicas utilizadas. Somente testes que analisam diretamente o DNA poderiam identificá-las. 

Por isso, nos últimos anos, o uso de testes genéticos na triagem neonatal tem aumentado, uma abordagem inovadora que permite expandir o número de doenças triadas em recém-nascidos.

Nesse artigo, discutiremos os principais testes neonatais e suas diferenças, as inovações trazidas pela triagem neonatal genética e apresentaremos o Teste da Bochechinha, que identifica mais de 340 doenças genéticas em recém-nascidos.

Principais testes neonatais convencionais

Teste do Pezinho

O Teste do Pezinho básico, que faz parte de Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), investiga pelo menos seis doenças (alguns estados analisam mais): fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, anemia falciforme, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase). Felizmente, o teste será expandido a partir de 2022 e passará a cobrir cerca de 50 doenças.

O Teste do Pezinho básico é obrigatório para todos os recém-nascidos, deve ser realizado entre o 3º e 5º dia de vida e é gratuito na rede pública de saúde. 

Um resultado positivo no Teste do Pezinho para uma determinada doença não significa que a criança com certeza irá desenvolvê-la. Diante de um resultado positivo, o médico que acompanha o recém-nascido solicitará exames complementares para confirmar o diagnóstico.

Teste do Pezinho ampliado

Existem várias outras versões do Teste do Pezinho oferecidos por laboratórios e hospitais da rede privada, que são chamados de “ampliados” ou “expandidos” e diferem entre si quanto às técnicas utilizadas e entre o número e o grupo de doenças analisadas. 

Assim como o Teste do Pezinho básico, as versões expandidas ou ampliadas do teste rastreiam doenças graves que afetam crianças e que têm tratamento disponível. As versões expandidas podem analisar até 60 doenças, incluindo muitos erros inatos do metabolismo e em geral, são realizadas por meio de uma técnica chamada de espectrometria de massas em tandem (MS/MS)

Resultados alterados precisam também ser confirmados por exames complementares, como, por exemplo, exames genéticos

As versões ampliadas também podem incluir testes de sorologia para detecção de doenças infecciosas, como toxoplasmose congênita, citomegalovírus,  sífilis congênita, doença de Chagas e HIV. 

Teste SCID e AGAMA

O Teste do Pezinho não investiga as Imunodeficiências Congênitas (SCID) e Agamaglobulinemia (AGAMA), conhecidas popularmente como erros inatos da imunidade, um grupo muito importante de doenças neonatais. 

Se as imunodeficiências não forem tratadas, a criança estará sujeita a infecções graves que levam à morte no primeiro ano de vida. Por isso, é fundamental que as doenças sejam identificadas o mais cedo possível. As imunodeficiências congênitas são triadas em recém-nascidos em um teste oferecido pela rede privada, geralmente chamado deSCID e AGAMA”.  

Assim como nos Testes do Pezinho, resultados alterados precisam também ser confirmados por exames complementares, como, por exemplo, exames genéticos.

Triagem neonatal genética

O que é a triagem neonatal genética?

Os testes genéticos analisam o DNA, onde toda a informação genética é armazenada e transmitida para nossos descendentes. 

Os genes são a parte do DNA que contém a informação para a produção de proteínas. As proteínas são responsáveis pelas características e funcionalidades do nosso corpo. Logo, uma alteração em um gene pode prejudicar a correta produção ou o funcionamento de uma proteína e isso pode causar uma doença genética. 

A triagem genética é uma abordagem que analisa diretamente o DNA em busca de alterações genéticas que elevem o risco do recém-nascido de desenvolver doença(s) tratáveis no futuro.

A triagem genética expandiu o número de doenças que podem ser triadas na fase neonatal. 

Centenas de doenças genéticas consideradas tratáveis não são triadas pelo Teste do Pezinho devido às limitações das técnicas usadas nesse tipo de teste, mas são identificadas por meio de análises genéticas. Esse é o caso, por exemplo, da epilepsia responsiva à piridoxina (epilepsia piridoxina-dependente), atrofia muscular espinhal (AME), distrofia muscular de Duchenne, Síndrome de Brown-Vialetto-Van Laere, intolerância hereditária à frutose, entre outras doenças. 

O resultado do exame genético também é importante para o planejamento familiar, já que os pais do paciente e outros familiares podem ser portadores da mesma alteração genética que causou a doença, havendo assim risco de repetição da doença na família. É importante conversar com um médico.

Sequenciamento de Nova Geração na triagem neonatal

O Sequenciamento de Nova Geração (NGS) é a técnica mais eficaz no diagnóstico de doenças genéticas e a que oferece o melhor custo-benefício.  

Entenda a técnica de NGS, responsável pelos grandes avanços da Genética na Medicina nos últimos anos. 

O NGS pode sequenciar desde o genoma inteiro de um indivíduo, todos os 20.000 genes (chamado de sequenciamento do exoma completo) e, até mesmo, apenas um único gene. Para a triagem neonatal, os painéis de NGS têm sido a melhor abordagem. Um Painel é um exame genético que, utilizando o NGS, avalia simultaneamente variações em dois ou mais genes.  

Os Painéis de NGS se tornaram populares dentro da rotina do diagnóstico genético, pois permitem que grupos de genes associados a uma ou mais doenças sejam analisados em conjunto.

Os Painéis de NGS para a triagem neonatal incluem genes reconhecidamente associados a doenças tratáveis de manifestação precoce.

Vários estudos científicos de 2012 a 2019 demonstraram a eficiência da aplicação do NGS na triagem de doenças neonatais. Os resultados dos estudos confirmaram os resultados de exames de triagem neonatal que utilizam outras técnicas, como os bioquímicos e de espectrometria de massas, e conseguiram esclarecer os resultados falsos-positivos e inconclusivos dos testes convencionais (veja as referências no fim do texto).

Teste da Bochechinha

A Mendelics desenvolveu o primeiro teste de triagem neonatal genético no Brasil: o Teste da Bochechinha. O teste identifica se o recém-nascido tem risco de desenvolver mais de 340 doenças tratáveis que se manifestam na infância, antes mesmo de qualquer sinal ou sintoma. Assim é possível realizar precocemente procedimentos médicos de controle e tratamento. Quanto mais cedo a doença for detectada, mais eficiente é o tratamento. 

O Teste da Bochechinha analisa mais de 300 genes através da técnica de NGS e identifica centenas de doenças que só podem ser investigadas por testes que analisam o DNA do recém-nascido, complementando os testes de triagem neonatal convencionais

As doenças e genes do teste foram definidos pela equipe médica da Mendelics com base em extensa revisão da literatura médica, de bancos de dados genéticos e de doenças genéticas e de casos clínicos do laboratório. 

Como é feita a análise dos resultados do Teste da Bochechinha?

Quando se realiza um sequenciamento de DNA por NGS, milhares de alterações genéticas são encontradas, porém, nem todas causam doenças. Por isso, é muito importante que a análise dos resultados alterados seja feita por médicos geneticistas experientes em genômica e com apoio de tecnologias inovadoras (Entenda sobre como os testes genéticos são realizados nesse artigo). 

Após a etapa de sequenciamento, a equipe de geneticistas da Mendelics analisam os resultados para identificar se há alterações no DNA do recém-nascido que aumentam o risco de desenvolver uma doença.

A equipe de geneticistas conta com a ajuda do Abracadabra®, uma plataforma de análise genética, que usa inteligência artificial para tornar as análises genéticas mais precisas e eficientes. 

Após a etapa de análise, os médicos geneticistas elaboram os laudos dos testes, que são disponibilizados através do sistema online do laboratório. 

Quando o teste pode ser realizado?

O Teste da Bochechinha pode ser feito desde o primeiro dia de vida até 1 ano de idade. Por ser um teste de triagem neonatal, é recomendado que seja feito logo após o nascimento ou nos primeiros meses de vida. 

Quais são as doenças analisadas?

O Teste da Bochechinha identifica as doenças do Testes do Pezinho básico e das versões ampliadas/expandidas e os erros inatos da imunidade, além de centenas de outras doenças que não são investigadas nos testes de triagem neonatal convencional. 

Entre os grupos de doenças analisadas estão incluídas: 

  • Doenças Endócrinas
  • Doenças Esqueléticas
  • Deficiências do Metabolismo de Vitaminas e Minerais
  • Doenças Hematológicas
  • Doenças Hepáticas e Gastrointestinais
  • Doenças Imunológicas
  • Doenças Neurológicas
  • Doenças Pulmonares
  • Doenças Renais
  • Erros Inatos do Metabolismo
  • Neoplasias
  • Surdez

A lista completa de doenças pode ser acessada aqui.

O Teste da Bochechinha precisa de pedido médico?

Não é necessário pedido médico, pois trata-se de uma triagem. Porém, recomendamos que o resultado seja acompanhado por um pediatra ou um médico de outra especialidade para avaliar qual o melhor procedimento a ser seguido.

Como é realizada a coleta ?

A coleta do Teste da Bochechinha também é diferente dos outros testes de triagem neonatal. Ao invés do furo no calcanhar do recém-nascido que caracteriza a coleta do Teste do Pezinho, a coleta é feita com o auxílio de um cotonete (swab) que é passado na parte interna da bochecha do recém-nascido. 

A coleta é rápida e indolor e pode ser feita por um profissional da saúde ou pelos próprios pais assim que o bebê nasce.

O Teste da Bochechinha substitui o Teste do Pezinho?

O Teste da Bochechinha não substitui, mas complementa o Teste do Pezinho. 

O Teste da Bochechinha é uma triagem neonatal de doenças genéticas, portanto, doenças infecciosas e algumas formas de hipotireoidismo congênito, não são identificadas. O Teste do Pezinho é um dos exames obrigatórios que todos os recém-nascidos devem realizar logo após o nascimento. Recomendamos que ambos os testes sejam realizados. 

Quer saber mais sobre a Mendelics? Conheça a história do laboratório que revolucionou a forma como fazemos diagnóstico genético no Brasil nesse artigo.

Confira as principais diferenças entre os testes do Pezinho básico e ampliado/expandido e o Teste da Bochechinha:

teste do pezinho versus teste da bochechinha

 


Referências

  • Koboldt DC et al. The next-generation sequencing revolution and its impact on genomics. Cell. 2013;155: 27–38
  • Bhattacharjee, Arindam et al. 2015. “Development of DNA Confirmatory and High-Risk Diagnostic Testing for Newborns Using Targeted next-Generation DNA Sequencing.” Genetics in Medicine: Official Journal of the American College of Medical Genetics 17 (5): 337–47.
  • Bodian, Dale Let al. 2016. “Utility of Whole-Genome Sequencing for Detection of Newborn Screening Disorders in a Population Cohort of 1,696 Neonates.” Genetics in Medicine: Official Journal of the American College of Medical Genetics 18 (3): 221–30.
  • Navarrete, Rosa et al. 2019. “Value of Genetic Analysis for Confirming Inborn Errors of Metabolism Detected through the Spanish Neonatal Screening Program.” European Journal of Human Genetics: EJHG 27 (4): 556–62.
  • Yang, Yuqi et al. 2019.  “Application of Next-Generation Sequencing Following Tandem Mass Spectrometry to Expand Newborn Screening for Inborn Errors of Metabolism: A Multicenter Study.” Frontiers in Genetics 10 (February): 86.
  • Qian J et al.Applying targeted next generation sequencing to dried blood spot specimens from suspicious cases identified by tandem mass spectrometry-based newborn screening. J Pediatr Endocrinol Metab. 2017; 30:979-988.
  • Lee et al.Implementation of a Targeted Next-Generation Sequencing Panel for Constitutional Newborn Screening in High-Risk Neonates. Yonsei Med J.60:1061-1066, 2019.
Conheça o Pré-natal Não Invasivo (NIPT)

Conheça o Pré-natal Não Invasivo (NIPT)

O que é o teste Pré-Natal Não Invasivo (NIPT)?

O Pré-Natal Não Invasivo, conhecido como ‘NIPT’ (Non-Invasive Prenatal Testing) é uma triagem pré-natal que analisa o DNA do bebê a partir de uma amostra do sangue da mãe. O teste não representa risco para a gravidez ou para a mãe.

A realização do NIPT é possível porque durante a gravidez uma mistura de fragmentos de DNA da mãe e do bebê fluem livremente pela corrente sanguínea e não dentro das células. Esses fragmentos são chamados de DNA livre de células (cfDNA, do inglês cell-free DNA) (Figura 1). 

O NIPT  pode ser realizado logo após a décima semana gestacional.

Imagem ilustrativa de como o DNA fetal pode ser encontrado na corrente sanguínea da mãe gestante.

Figura 1: ilustração representando o DNA livre de célula que sai da placenta e alcança a corrente sanguínea da mãe, permitindo a realização do NIPT. As imagens desse texto são ilustrativas. A coleta do teste NIPT é feita em tubo streck.

Para que serve o NIPT?

O NIPT identifica no bebê doenças causadas por alterações no número total de cromossomos 13, 18, 21, X e Y.  Esse grupo de doenças são chamadas de aneuploidiasO NIPT também identifica o sexo do bebê.

As aneuplodias mais conhecidas são: a síndrome de Down (trissomia do cromossomo 21), a síndrome de Patau (trissomia do 13), a síndrome de Edwards (trissomia do 18), a síndrome de Klinefelter  (47, XXY) e a síndrome de Turner (monossomia do 21). 

Por se tratar de um teste de triagem (Figura 2) um resultado positivo no NIPT precisa ser confirmado por exames complementares que confirmarão ou excluirão o diagnóstico. O sexo do bebê deve também ser confirmado no ultrassom após doze semanas de gestação. 

Figura 2: Fluxograma do NIPT. As imagens do tubo são ilustrativas. A coleta do teste NIPT é feita em tubo streck.

 

Um resultado negativo no NIPT significa que há baixo risco da criança nascer com as síndromes investigadas no teste. Mas esse resultado não exclui o risco de outras doenças genéticas ou defeitos congênitos. O NIPT pode ser realizado sem pedido médico, porém é recomendado que os resultados sejam sempre acompanhados por um médico que, diante de um resultado alterado, decidirá qual o melhor procedimento a ser seguido. 

Quem deve fazer o NIPT?

Mulheres acima de 35 anos têm maior risco de terem gestações associadas a aneuploidias, e, por esse motivo, o NIPT pode ser indicado principalmente para esse grupo, mas o teste pode ser realizado por mulheres de qualquer idade.  Converse com seu médico.

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Referências