Ômicron: O que sabemos sobre a nova variante do SARS-COV-2?

Ômicron: O que sabemos sobre a nova variante do SARS-COV-2?

No final de novembro, as infecções do novo coronavírus aumentaram abruptamente na África do Sul, coincidindo com a detecção da variante Ômicron (B.1.1.529). 

A primeira infecção confirmada foi de uma amostra coletada no dia 9 de novembro de 2021. Após observarem o aumento dos casos relacionados à nova variante, pesquisadores da África do Sul a reportaram à Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 24 de novembro e, em seguida, ela já foi relatada em outros países, sugerindo uma alta transmissibilidade (1,2).

A avaliação do Grupo de Aconselhamento Técnico sobre a evolução do vírus SARS-CoV-2 (The Technical Advisory Group on SARS-CoV-2 Virus Evolution), da OMS, nomeou a nova variante de Ômicron e a qualificou como uma variante de preocupação no dia 26 de novembro de 2021 (1). 

Assim, a variante Ômicron passa a integrar o mesmo grupo que as variantes Alfa, Beta, Gama e Delta.

Desde a sua notificação, a variante Ômicron já foi detectada em todos os continentes e, até o dia 16 de dezembro, em pelo menos 89 países (2,3), incluindo o Brasil (os primeiros casos foram reportados em São Paulo na última semana de novembro).

 

 Veja a seguir o que sabemos sobre a Ômicron até o momento:

 

Principais mutações 

O SARS-CoV-2, agente etiológico da COVID-19, tem cerca de 30.000 nucleotídeos e codifica 4 proteínas: Envelope, Membrana, Nucleocapsídeo (que envolve o RNA viral) e Spike (Figura 1). 

A proteína Spike é usada pelo coronavírus para entrar nas células humanas através do domínio de ligação ao receptor e também é o alvo dos anticorpos produzidos pelo sistema imunológico depois da contaminação pelo SARS-CoV-2 ou vacinação (4). 

Mutações que afetam a conformação da proteína Spike estão presentes em todas as variantes de preocupação. A Ômicron possui entre 26 e 32 mutações na região codificadora da proteína Spike, muitas das quais estão localizadas dentro do domínio de ligação ao receptor,  três deleções e uma inserção, além de mutações em outras regiões do genoma viral (2, 5). Algumas dessas mutações são preocupantes pois podem estar associadas ao escape da resposta imune humoral (anticorpos) e maior transmissibilidade do vírus (3).

Variante ômicron

Figura 1. Estrutura do SARS-CoV-2 e alterações na proteína Skipe da variante Ômicron.

 

 

É mais transmissível?

Evidências recentes mostram que a variante Ômicron apresenta uma transmissibilidade maior do que a variante Delta. A nova variante tem se espalhado significativamente mais rápido, dobrando o número de casos entre 1,5 a 3 dias (3). 

A OMS também informou que em países com altos níveis de imunidade populacional (ou seja, países em que a maior parte da população está imunizada), a Ômicron também está se espalhando rapidamente. Ainda é incerto até que ponto a rápida taxa de crescimento pode ser atribuída à evasão imunológica, aumento da transmissibilidade intrínseca ou uma combinação de ambos fatores. 

Conforme as informações disponíveis até o momento, é provável que as infecções pela variante Ômicron ultrapassem as da Delta nas regiões em que está ocorrendo a transmissão comunitária (aquela em que não é possível rastrear a origem da infecção, indicando que o vírus circula entre as pessoas) (3).

 

É mais grave? 

Ainda é muito cedo para tirarmos conclusões, mas dados preliminares da África do Sul e Inglaterra apontam que a Ômicron está associada ao aumento do risco de reinfecção pelo SARS-CoV-2 (5, 6), e pode levar a quadros menos severos do que a Delta (7). Contudo, devido ao aumento significativo da transmissão, já é evidente que as hospitalizações na África do Sul e na Inglaterra estão aumentando, sendo possível que haja uma sobrecarga dos sistemas de saúde e um aumento no número de mortes (3).

A OMS afirma que todas as variantes da COVID-19 podem causar formas graves da doença ou morte, particularmente em pessoas mais vulneráveis. Portanto, a prevenção é sempre fundamental (8).

 

As vacinas protegem?

A OMS está avaliando de perto o impacto da variante Ômicron sobre as vacinas para Covid-19. Os resultados dos estudos de eficácia da vacina foram obtidos na África do Sul e na Inglaterra. 

Na África do Sul, a Discovery Health (uma seguradora de saúde privada) publicou um comunicado à imprensa a respeito das descobertas preliminares da eficácia da vacina contra infecção e hospitalização. A vacina da Pfizer demonstrou uma eficácia de 33% contra a infecção e 70% contra a hospitalização (7).

Na Inglaterra, os dados preliminares indicaram que (em comparação com Delta) a Ômicron reduz significativamente a eficácia das vacinas Pfizer e AstraZeneca contra a doença (até 34%). Contudo, a dose de reforço da vacina Pfizer é capaz de recuperar a eficiência (para cerca de 70%)(9). 

A Moderna, outra fabricante da vacina contra o SARS-CoV-2, demonstrou que a dose de reforço de 50mg (metade da dose que foi dada nas duas primeiras doses) da sua vacina eleva o nível de anticorpos no sangue em 37 vezes, e com a dose total (100 mg) o aumento chega a 83 vezes (10).

Assim, segundo os resultados que temos até o momento, espera-se que as doses de reforço da vacina mantenham a proteção contra a variante Ômicron (11).

 

Como diagnosticar?

Os exames que detectam o material genético do vírus são a principal ferramenta para diagnóstico de infecções pelo SARS-CoV-2.

Os testes RT-LAMP e RT-PCR (12,13), amplamente utilizados para o diagnóstico de COVID-19, continuam detectando as infecções causadas pela Ômicron e outras variantes (14).  

O RT-LAMP (amplificação isotérmica mediada  por  loop  com  transcriptase  reversa), é uma técnica molecular já extensamente utilizada para o diagnóstico de várias doenças infecciosas como Dengue, Chikungunya, Hepatite A e Zika (15, 16). A técnica é extremamente robusta para detecção de RNA viral e se tornou uma forte aliada na detecção do novo coronavírus (14).

 

O exame de diagnóstico molecular de COVID-19 da Mendelics

O #PARECOVID tem capacidade de testagem diária de 110 mil amostras, e os resultados são disponibilizados em até 24 horas após a amostra chegar ao laboratório. 

O #PARECOVID, que utiliza amostras de saliva, identifica regiões do material genético do SARS-Cov-2 diferentes das regiões que sofreram mutações nas variantes, inclusive da ômicron.  

Desta forma, o teste #PARECOVID é capaz de identificar com igual precisão as novas linhagens de importância clínica recentemente relatadas, contribuindo para o rastreamento do vírus e a prevenção da transmissão na população.

 


Referências

  1. Classification of Omicron (B.1.1.529): SARS-CoV-2 Variant of Concern. http://www.who.int. Published November 26, 2021. 
  2. Weekly epidemiological update on COVID-19 – Published December 14, 2021. 
  3. Enhancing Readiness for Omicron (B.1.1.529): Technical Brief and Priority Actions for Member States. http://www.who.int. Published December 17, 2021.
  4. Huang Y, Yang C, Xu X, Xu W, Liu S. Structural and functional properties of SARS-CoV-2 spike protein: potential antivirus drug development for COVID-19. Acta Pharmacologica Sinica. 2020;41(9):1141-1149. doi:10.1038/s41401-020-0485-4
  5. Pulliam J, Schalkwyk C, Govender N,et al. Increased risk of SARS-CoV-2 reinfection associated with emergence of the Omicron variant in South Africa. medRxiv 2021.11.11.
  6. Ferguson N, Ghani A, Cori A et al. Growth, population distribution and immune escape of the Omicron in England. Imperial College London (16-12-2021).
  7. Discovery Health, South Africa’s largest private health insurance administrator, releases at-scale, real-world analysis of Omicron outbreak based on 211 000 COVID-19 test results in South Africa. Published December 12, 2021. 
  8. Update on Omicron. www.who.int. Published November 28, 2021. https://www.who.int/news/item/28-11-2021-update-on-omicron
  9. Andrews N, Stowe J, Kirsebom F, et al. Effectiveness of COVID-19 vaccines against the Omicron (B.1.1.529) variant of concern. medRxiv 2021.12.14.
  10. Moderna Announces Preliminary Booster Data and Updates Strategy to Address Omicron Variant. investors.modernatx.com. 
  11. Cong Z, J Evans J, Qu P, et al. Neutralization and Stability of SARS-CoV-2 Omicron Variant. bioRxiv 2021.12.16.472934
  12. Watson J, Whiting PF, Brush JE. Interpreting a covid-19 test result. BMJ. 2020;369:m1808, 2020.
  13. Lamb LE, Bartolone SN, Ward E, Chancellor MB. Rapid detection of novel coronavirus/Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2) by reverse transcription-loop-mediated isothermal amplification. PLoS One. 2020;15(6):e0234682.
  14. Tamanaha E, Zhang Y, Tanner N.Profiling RT-LAMP tolerance of sequence variation for SARS-CoV-2 RNA detection. bioRxiv 2021.10.25.465706
  15. Wang X, Yin F, Bi Y, et al. Rapid and sensitive detection of Zika virus by reverse transcription loop-mediated isothermal amplification. J Virol Methods. 2016;238:86‐93.4
  16. #PARECOVID. 
A Pandemia Acabou – Bem-vindo à Endemia de COVID-19

A Pandemia Acabou – Bem-vindo à Endemia de COVID-19

A pandemia da COVID-19 acabou?

Com cerca de 3 mil casos por dia e média móvel de 200 óbitos (1) no país, a sensação dos brasileiros, ao final de um ano em que apenas nos 4 primeiros meses já havia superado o número de mortes de 2020 (1), é que finalmente a pandemia está acabando.

 Média móvel de óbitos é o número médio de óbitos diários dos últimos sete dias.

Contudo, enquanto o número de casos no Brasil e em outros países cai, em outras regiões, principalmente na Europa, volta a subir e é sinal de que uma quarta onda está acontecendo (2). Por esse motivo houve o retorno de medidas restritivas, como isolamento social e quarentena obrigatória em alguns países.

Quando ou se a pandemia vai acabar são questões constantes na mente da população. 

 

O fim da pandemia não é o fim da COVID-19

No início da pandemia, cientistas e organizações de saúde divulgaram que a imunidade de rebanho não seria alcançada naturalmente, sem a morte de milhares de pessoas, e por isso, a esperança do fim da pandemia estava depositada nas vacinas.

No final de 2021, menos da metade da população mundial (cerca de 40%) está totalmente vacinada (1). Contudo, muitos países já vacinaram mais de 90% da sua população.

Com a ampla vacinação foi comprovado que, de fato, as vacinas controlam os casos graves, hospitalizações e ajudam a reduzir a transmissão do vírus.

A Comissão Europeia, instituição que acompanha os dados da pandemia e a vacinação nos países da Europa, publicou dados demonstrando que os países com maior taxa de vacinação da população têm menor número de mortes (Figura 1) (2). 

número de mortes e vacinados em cada país da Europa

Figura 1: De acordo com a Comissão Europeia, pessoas totalmente vacinadas têm menos probabilidade de morrer por COVID-19 do que aquelas que não foram vacinadas.

 

O descompasso entre o número de casos, mortes e vacinação ao redor do mundo demonstram uma tendência do que está por vir – e que já era esperada por cientistas, epidemiologistas e organizações de saúde: a COVID-19 fará uma transição de pandemia para endemia

Espera-se que a combinação de alta taxa de vacinação e a imunidade natural entre as pessoas infectadas com o coronavírus torne a doença endêmica.

Entenda sobre as vacinas contra a COVID-19.

 


Surto, Endemia, Epidemia e Pandemia 

Quando uma doença surge inesperadamente em determinada região, diz-se que houve um surto. Surtos podem surgir em um bairro, cidade, estado ou em uma escola, por exemplo. Se vários alunos de uma escola começam a ter diarreia, por exemplo, pode ser que haja um surto de rotavírus transmitido pela alimentação ou água do local. 

Seguindo o mesmo exemplo, quando alunos de escolas de outros bairros ou cidades também estão com diarreia, isto é, outros locais começam a ter casos de contaminação por rotavírus, está ocorrendo uma epidemia. Entre 2015 e 2016 o Brasil viveu uma grande epidemia de Zika Vírus. 

Quando uma epidemia alcança níveis mundiais, atingindo vários continentes, considera-se que é uma pandemia. O prefixo Pan é grego e significa algo em sua totalidade, completo, e demos significa povo. Logo, pandemia refere-se a  “todo o povo”.

A endemia é quando esse surto é consistente e restrito a uma determinada região: a transmissão e número de casos de uma doença podem ser constantes ou aumentar sazonalmente em determinada região, mas a doença não deve se espalhar por outros locais. Dengue, Leishmaniose, Esquistossomose, Doença de Chagas e Hanseníase são conhecidas doenças endêmicas em algumas regiões do Brasil.


 

A endemia de COVID-19

O que vem a seguir?

As diferentes taxas de transmissão, casos e mortes pela COVID-19 ao redor do mundo mostra que a transição para endemia será diferente em cada local, sendo impulsionada, principalmente, pela imunidade de rebanho na população gerada pela infecção natural e, claro, pela taxa de vacinação, que é variável entre cidades e países.

A expectativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que no final de 2022 70% da população mundial esteja vacinada (3) e, com isso, a situação epidemiológica da doença será diferente. 

O risco mundial no momento é a baixa taxa de vacinação em alguns países, que podem levar  ao surgimento de uma nova variante resistente às vacinas e a imunidade adquirida por infecção anterior.

Acredita-se que a COVID-19 continue sendo um dos principais contribuintes para doenças e mortes nos próximos anos, assim como outras doenças endêmicas, como a malária. Pode ser que surtos surjam em locais onde a cobertura vacinal é baixa, assim como acontece com o sarampo, ou que se comporte como uma doença respiratória sazonal, como a gripe. Países com invernos mais rigorosos, por exemplo, esperam ter alta dos casos nesse período, e baixa no verão.

Especialistas imaginam que essa transição entre pandemia e endemia seja gradual, pois o SARS-CoV-2 é um vírus mais persistente. Além disso, o vírus provavelmente continuará sofrendo mutações e exigindo doses de reforço das vacinas.

O impacto da COVID-19 sazonal/endêmica será um desafio para os sistemas de saúde locais (e não mundiais). No entanto, a expectativa é que não sejam mais necessárias medidas rigorosas como quarentena ou isolamento.

 


Referências

  1. Coronavírus (COVID-19) – Google Notícias. Google Notícias. 2020. Acesso em: Nov. 23, 2021. 
  2. Mundo está entrando em quarta onda de covid-19, diz diretora da OMS – Saúde – Estadão. Estadão. Nov. 23, 2021. Acesso em: Nov. 24, 2021.
  3. European Commission no Instagram: “The conclusion is clear. Fully vaccinated people are less likely to die with Covid19 than those who are not vaccinated.” Instagram.com. Acesso em: Nov. 24, 2021. 
  4. ‌Strategy to Achieve Global Covid-19 Vaccination by Mid-2022. WHO.
Um ano de pandemia da COVID-19: O que aprendemos?

Um ano de pandemia da COVID-19: O que aprendemos?

Tópicos

 

Um ano de pandemia

Há um ano, em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarava que a COVID-19 era uma pandemia. Na mesma semana, o Brasil registrou a primeira morte pela doença e, após um ano, superamos a marca de mais de 3 mil mortes diárias (1).

Muitos estudos sobre o novo coronavírus foram realizados desde então e mais de 100 vacinas começaram a ser desenvolvidas, sendo algumas já aprovadas e em uso em diversos países.

Simultaneamente ao desenvolvimento das vacinas, novas variantes do Sars-Cov-2 surgiram, desafiando ainda mais o controle da pandemia e o nosso entendimento sobre a doença.

Hoje, o Brasil é o segundo país do mundo com mais casos e com mais mortes registradas, atrás apenas dos Estados Unidos (2). A esperança mundial está depositada sobre as vacinas, com a expectativa para um retorno ao ‘novo normal’.

Ilustração Blog Mendelics – Timeline Covid-19

O que aprendemos?

A importância da testagem em massa, vacinação, uso de máscara e isolamento social

 

Isolamento social

A importância e eficácia do isolamento social no país pode ser facilmente demonstrada com a experiência de Araraquara (SP) e no Estado do Amazonas, onde houve um aumento de casos repentino, que em poucos dias causou lotação dos hospitais e a taxa de ocupação dos leitos de UTI chegou a 100%, falta de insumos, como oxigênio, e recorde de mortes. 

A prefeitura de Araraquara e o governo do Amazonas decretaram um lockdown rigoroso e após uma semana de confinamento da população geral, tanto a taxa de transmissão quanto a média móvel de casos reduziram (11).

No mundo, países como a Nova Zelândia, Austrália e Coreia do Sul adotaram o lockdown desde o início e conseguiram controlar a dispersão do vírus (2).

 

Uso de Máscaras

No primeiro semestre de 2020 ainda não estava claro a real importância do uso de máscaras. A efetividade do uso das máscaras no controle da COVID-19 foi se mostrando à medida que também compreendemos (e foi comprovado cientificamente) que pessoas assintomáticas e pré-sintomáticas são fortes disseminadores do vírus (5, 7). 

A OMS e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos publicaram no último mês (fevereiro de 2021) uma série de recomendações sobre o uso de máscaras, que incluem evidências científicas e vídeos explicativos (5, 12).

 

Vacinação

Em menos de 12 meses após o início da pandemia de COVID-19, vários centros de pesquisa enfrentaram o desafio e desenvolveram vacinas (8).

Agora, o desafio é disponibilizar essas vacinas para pessoas em todo o mundo. 

No Brasil, a vacinação começou logo após a aprovação do uso emergencial da Anvisa (10) e até o momento, cerca de 9% da população recebeu ao menos 1 dose (13). Por enquanto, duas vacinas foram aprovadas para uso emergencial e estão sendo aplicadas: a CoronaVac da Sinovac com o Instituto Butantan e a vacina desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) (10).

Recentemente, a Anvisa aprovou o pedido de registro da vacina da Pfizer/BioNTech. (10) 

Saiba mais sobre as vacinas aqui.

 

Novas variantes

Mutações em vírus acontecem o tempo todo. Quanto mais pessoas infectadas, mais variantes aparecem. O SARS-CoV-2 acumula cerca de 2 mutações por mês, mas a maioria das novas variantes não tem impacto real na pandemia (14). 

Porém, no final de 2020, novas variantes foram encontradas no Reino Unido (B.1.1.7) e na África do Sul (B.1.351) e mostraram ter um impacto significativo (14).

No Brasil, a variante SARS-CoV-2 B.1.1.28 está circulando desde fevereiro de 2020 sem grande relevância epidemiológica. Em janeiro de 2021, pesquisadores brasileiros identificaram subgrupos da B.1.1.28 com mutações na proteína S comum àquelas detectadas no Reino Unido e na África do Sul (15, 16).

Atualmente, há pelo menos três variantes que surgiram no Brasil e chamam a atenção: O subgrupo P.1, detectado pela primeira vez em viajantes japoneses retornando do Amazonas; o subgrupo P.2, detectado pela primeira vez no Rio de Janeiro; e a recentemente identificada, N9: todas possuem potenciais mutações na proteína S, a espícula viral que viabiliza a entrada do vírus na célula (15, 16). 

O surgimento de novas variantes classificadas como ‘variantes de preocupação (VOC: Variant of Concern) – variantes que demonstram ser mais transmissíveis, causarem a COVID-19 mais grave e reduzirem a ação do sistema imune pós-infecção e/ou vacinação, colocaram o Brasil no foco mundial de controle da pandemia (14-17). 

Conheça as ariantes de preocupação (VOC) do SARS-CoV-2.

 

Testagem em massa

Ainda no início em 2020, a testagem em massa se mostrava como um possível caminho para o retorno seguro de escolas e empresas. Alguns estudos demonstraram que testes realizados frequentemente em curtos intervalos de tempo e com rapidez na entrega dos resultados ajudariam a identificar assintomáticos e pré-sintomáticos, sendo uma estratégia para reduzir a transmissão da doença e impedir o surgimento de novos surtos (18, 19). 

Com a missão de democratizar o acesso a testes para COVID-19 para todos que necessitam, em junho de 2020, a Mendelics lançou um teste molecular de desenvolvimento próprio chamado #PARECOVID. Através da técnica de RT-LAMP, o teste mostra se a pessoa está infectada pela identificação do RNA do vírus SARS-CoV-2 na saliva (6, 9). 

O #PARECOVID é o teste molecular mais acessível, com qualidade comparável ao RT-PCR, lançado no Brasil até o momento, com capacidade de testagem diária de até 110.000 amostras, e resultados disponibilizados em até 24 horas (6). 

Um recente estudo comparativo publicado na revista científica Lancet Public Health (20) demonstrou que programas de testagem de SARS-CoV-2 mais frequentes e rápidos em comunidades, juntamente ao isolamento de indivíduos positivos, é essencial para mitigar a pandemia de COVID-19.

 

Porcentagem de testes positivos para COVID-19

Em meados de agosto de 2020, o Brasil iniciou o processo de afrouxamento das medidas de isolamento social, iniciadas em março, quando o número de casos da COVID-19 passou a aumentar exponencialmente

Em outubro, a porcentagem de testes positivos tinha reduzido drasticamente, chegando a uma marca de 1%. Em novembro, após alguns feriados nacionais, essa porcentagem voltou a subir.

Em março de 2021, chegamos ao pior cenário da pandemia: mais de 84 mil casos e quase 4 mil mortes por dia. A taxa de resultados positivos semanal no laboratório chegou ao pico de 5%, refletindo a situação de todo o Estado de São Paulo, que chegou ao colapso nos hospitais. Com isso, o governo decretou medidas mais restritivas em todo o estado de São Paulo e, na última semana, começamos a ver uma queda nos números.

covid semana

Fonte: Dados próprios da Mendelics com base nos testes de #PARECOVID realizados frequentemente em empresas no Brasil, com maior concentração no Estado de São Paulo.

 

Novas variantes x sensibilidade dos testes

Recentemente, o FDA (Food and Drugs Administration) publicou um documento intitulado “Genetic Variants of SARS-CoV-2 May Lead to False Negative Results with Molecular Tests for Detection of SARS-CoV-2 – Letter to Clinical Laboratory Staff and Health Care Providers” (21) onde alerta sobre a capacidade das variantes novas escaparem da detecção dos testes de RT-PCR. No documento, o FDA lista três kits de testes de RT-PCR de grandes fabricantes que demonstraram este risco, dois destes muito usados por grandes laboratórios no Brasil. 

Para contornar esse problema, a Mendelics realizou um estudo aprofundado dos alvos moleculares utilizados na detecção do coronavírus e confirmou que as 3 variantes mais perigosas (B.1.1.7, B.1.351 e P.1 – Inglaterra, África do Sul e Manaus) são detectadas pelo teste #PARECOVID, sem prejuízos à especificidade/sensibilidade do teste.

 

Esperança

Após um ano de pandemia, entendemos que métodos de testagem escaláveis e econômicos, como o #PARECOVID, são uma ferramenta essencial para controlar a disseminação de SARS-CoV-2, aliado aos cuidados básicos de higiene, uso de máscaras e distanciamento social estamos atuando no controle da disseminação do vírus e impedindo novos surtos da COVID-19. 

A esperança para esse novo ano de enfrentamento da pandemia está aliado à vacinação da população.

Vacine-se. Use máscaras. Proteja a sua saúde e a da sua família.

Com essas medidas a estimativa é de que saiamos de um cenério pendêmico para um endêmico. Com menos casos e surtos isolados.

 


Referências

  1. OMS declara pandemia de coronavirus 
  2. Coronavirus World Map
  3. COVID-19 no Brasil
  4. Sequenciamento do vírus no Brasil em 48h
  5. OMS indica o uso de máscaras
  6. Asprino et al. A Scalable Saliva-based, Extraction-free RT-LAMP Protocol for SARS-Cov-2 Diagnosis, https://doi.org/10.1101/2020.10.27.20220541
  7. Seyed M. et al.The implications of silent transmission for the control of COVID-19 outbreaks. Proceedings of the National Academy of Sciences Jul 2020, 117 (30) 17513-17515. 
  8. Vaccine Tracker 
  9. https://blog.mendelics.com.br/abertura-de-protocolo-do-parecovid-rt-lamp/
  10. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas
  11. https://www.gazetadopovo.com.br/republica/lockdown-medidas-restritivas-casos-covid-19-resultados-amazonas-araraquara/
  12. Guidance for Wearing Masks 
  13. https://especiais.g1.globo.com/bemestar/vacina/2021/mapa-brasil-vacina-covid/
  14. SARS-CoV-2 Variant Classifications and Definitions 
  15. Felipe Naveca, Valdinete Nascimento, Victor Souza et al. COVID-19 epidemic in the Brazilian state of Amazonas was driven by long-term persistence of endemic SARS-CoV-2 lineages and the recent emergence of the new Variant of Concern P.1, 25 February 2021, PREPRINT (Version 1) available at Research Square [https://doi.org/10.21203/rs.3.rs-275494/v1]
  16. Faria NR, et al. Genomics and epidemiology of a novel SARS-CoV-2 lineage in Manaus, Brazil. medRxiv [Preprint]. 2021 Mar 3:2021.02.26.21252554. doi: 10.1101/2021.02.26.21252554. 
  17. https://saude.abril.com.br/medicina/brasil-um-possivel-celeiro-de-novas-variantes-do-coronavirus/
  18.  Paltiel AD, Zheng A, Walensky RP. Assessment of SARS-CoV-2 Screening Strategies to Permit the Safe Reopening of College Campuses in the United States. JAMA Netw Open. 2020;3(7):e2016818.
  19. Larremore DB, Wilder B, Lester E, et al. Test sensitivity is secondary to frequency and turnaround time for COVID-19 surveillance. Preprint. medRxiv. 2020;2020.06.22.20136309
  20. Du Z, Pandey A, et al. Comparative cost-effectiveness of SARS-CoV-2 testing strategies in the USA: a modelling study. Lancet Public Health. 2021 Mar;6(3):e184-e191. doi: 10.1016/S2468-2667(21)00002-5.
  21. Genetic Variants of SARS-CoV-2 May Lead to False Negative Results with Molecular Tests for Detection of SARS-CoV-2 – Letter to Clinical Laboratory Staff and Health Care Providers 
Vacinas para COVID-19 testadas no Brasil

Vacinas para COVID-19 testadas no Brasil

Vacinas para COVID-19

Até o momento, Janeiro de 2021, pesquisadores de todo o mundo estão trabalhando no desenvolvendo de mais de 200 vacinas contra o coronavírus, dessas, pelo menos 85 estão sendo testadas em animais em ensaios pré-clínicos, 65 já estão na fase de ensaios clínicos em humanos (1, 2), 8 foram aprovadas para uso emergencial e 2 foram aprovadas depois que os órgãos regulatórios analisaram os resultados de todos os ensaios.

Normalmente, vacinas exigem anos de pesquisa e testes antes de chegar à clínica, contudo na pandemia do COVID-19, cientistas, governos e indústrias uniram esforços para produzir vacinas seguras e eficazes em apenas poucos meses. 

Quer ler sobre genética e casos graves de COVID? Leia esse post em nosso blog.

 

Tipos de Vacinas desenvolvidas

Antes de saber sobre as vacinas testadas no Brasil, conheça os tipos de vacinas que estão sendo testadas para COVID-19 no mundo.

O objetivo de qualquer vacina é conseguir provocar ou induzir a resposta imune do indivíduo de modo que quando for de fato exposto ao vírus, seu sistema imune seja capaz de bloqueá-lo ou matá-lo.

As vacinas para COVID-19 em teste podem ser de 4 tipos (com 2 subtipos cada uma) (3): 

1. Vacina de vírus: o vírus é modificado para que se torne menos capaz de causar a doença.

  • Inativado
  • Enfraquecido

 

2. Vacina de Vetor Viral: um vírus é geneticamente modificado para produzir proteínas do  SARS-CoV-2. Alguns são capazes de se replicar dentro das células e outros não.

  • Replicante
  • Não replicante

 

3. Vacina de Ácido Nucleico: o  material genético do vírus é inserido nas células humanas, que produzem cópias de alguma proteína viral (exemplo: proteína spike).

  • DNA
  • RNA

 

4. Vacina à base de proteínas: proteínas do SARS-CoV-2 são injetadas diretamente no organismo. Também podem ser usados fragmentos de proteínas similares a estrutura do vírus.

  • Subunidade proteica
  • Partículas semelhantes a vírus

 

Vacinas em teste no Brasil

O processo de desenvolvimento de uma vacina inclui uma série de fases, desde o seu início no laboratório até a sua utilização na imunização da população. A primeira etapa são os ensaios pré-clínicos, onde são realizados testes em animais, e depois se inicia a etapa de ensaios clínicos em humanos, que possui várias fases.

Das 64 vacinas em ensaios clínicos em humanos no mundo, 20 estão na Fase III, que testa a eficácia da vacina em larga escala. Quatro delas estão sendo testadas no Brasil (4, 5, 6).

 

CoronaVac da Sinovac Biotech: vacina de vírus inativado.

  • Nome: CoronaVac
  • Dose: 2 doses, 21 dias de intervalo
  • Tipo: injeção muscular
  • Armazenagem: geladeira, 2 a 8 ºC

Em junho deste ano, a empresa Sinovac Biotech anunciou que os ensaios clínicos da Fase I e II em 743 voluntários obtiveram sucesso, a vacina produziu resposta imune, não sendo identificados efeitos adversos graves. 

Em julho, a empresa iniciou um estudo de Fase III no Brasil, em colaboração com o Instituto Butantan para testar 9 mil voluntários brasileiros.

Em janeiro de 2021, os resultados dos estudos de Fase III foram liberados e o governo do estado de São Paulo e o Instituto Butantan enviaram o pedido de autorização para o uso emergencial à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

A previsão é de que a vacinação inicie dia 25 de janeiro no Estado de São Paulo. 

 

ChAdOx1 nCoV-19 da AstraZeneca e da Universidade de Oxford: vacina de vetor viral não-replicante (adenovírus de chimpanzé).

  • Nome: AZD1222
  • Dose: 2 doses, 4 semanas de intervalo
  • Tipo: injeção muscular
  •   Armazenamento: geladeira, 2 a 8º C

 

Em 8 de dezembro, pesquisadores da Universidade de Oxford e da AstraZeneca publicaram um artigo científico com resultados de segurança e eficácia do ensaio clínico de Fase 3 da vacina, realizado no Brasil, África do Sul e Inglaterra (7).

Em 11 de dezembro a AstraZeneca anunciou que vai colaborar com os pesquisadores da vacina Sputnik V, da Rússia, que também é feita a partir de adenovírus. No dia 29 de dezembro a Anvisa recebeu o pedido para início dos estudos da Fase III da vacina  Sputnik V (8). O objetivo é testar se as duas vacinas juntas aumentam a proteção contra o vírus.

No dia 04 de janeiro de 2021, o Reino Unido começou a vacinação da população com a primeira dose da vacina. No dia 8 de janeiro foi realizado o pedido de autorização para o uso emergencial à Anvisa. 

 

BNT162 da BioNTech em colaboração com Pfizer e a Fosun Pharma: vacina de mRNA.

  • Nome: Comirnaty (tozinameran ou BNT162b2)
  • Dose: 2 doses, 3 semanas de intervalo
  • Tipo: injeção muscular
  • Armazenamento: freezer a –70 ° C

 

Em Maio, os estudos de Fase I e II foram completados com sucesso: os voluntários produziram anticorpos contra o SARS-CoV-2, bem como as células T específicas ao vírus. Em 27 de julho, as empresas anunciaram o início do estudo de Fase II e III com 30.000 voluntários nos Estados Unidos e em outros países, incluindo Argentina, Brasil e Alemanha.

Em 9 de novembro, Pfizer e BioNTech apresentaram os dados preliminares com a vacina demonstrando mais de 90% de eficácia. Em 2 de dezembro o Reino Unido deu autorização de uso de emergência da vacina e iniciou a vacinação da população inglesa dia 8 de dezembro. 

Em 11 de dezembro, a FDA (Food and Drug Administration) autorizou o uso de emergência da vacina nos Estados Unidos e iniciou a vacinação no dia 14. Vários países já concederam autorização de emergência para o uso da Comirnaty, incluindo Argentina, Chile, Costa Rica, Equador, Kuwait, México, Panamá e Cingapura.

A União Europeia aprovou a vacina em 21 de dezembro. Outros países como o Bahrein, Canadá, Arábia Saudita e Suíça deram a aprovação total. 

No Brasil, os resultados dos estudos de Fase III ainda não foram liberados e o pedido de registro da vacina na Anvisa também não foi realizado. 

 

Ad26.COV2.S da Jansen-Cilag (Johnson-Johnson): vacina de vetor recombinante, não replicante, de adenovírus tipo 26 (Ad26).

  • Nome: Ad26.COV2.S
  • Dose: 1 dose
  • Tipo: injeção muscular
  • Armazenagem: geladeira, 2 a 8º C

 

Em julho, a Johnson & Johnson lançou os estudos de Fase I e II nos EUA e na Bélgica. Os ensaios clínicos de Fase III começaram em setembro – inicialmente de apenas 1 dose. Em novembro, a empresa anunciou que vai realizar a segunda etapa da Fase III para testar a eficácia de duas doses da vacina. Espera-se que os resultados sejam apresentados em janeiro de 2021.

Para o estudo no Brasil, o projeto prevê a inclusão de sete mil voluntários, nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Norte. 

No Brasil, os resultados dos estudos de Fase III ainda não foram liberados, bem como o pedido de registro da vacina na Anvisa. 

 

#UPDATE Maio 2021

Quatro vacinas receberam autorização da Anvisa para uso no Brasil: a CoronaVac, e as vacinas das empresas AstraZeneca, Pfizer e Janssen; contudo, somente as três primeiras estão sendo utilizadas no Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, até o momento.

A importação de outras duas vacinas estão sendo analisadas pela Anvisa: Convidecia (Ad5-nCoV) da empresa CanSinoBio (China) e Covaxin (BBV152 A, B, C) da empresa indiana Bharat Biotech.

Em abril a Anvisa rejeitou o pedido de importação da vacina Sputinik V (Gam-Covid-Vac) do Gamaleya Research Institute alegando ter identificado adenovírus ativos na vacina.

No momento (26 de maio de 2021) pouco mais de 20% da população brasileira já recebeu a primeira dose de vacinas contra a COVID-19. E 10% a segunda dose.

Saiba poque é importante continuar se testando após se vacinar para a COVID-19.

 


Referências

  1. https://www.nytimes.com/interactive/2020/science/coronavirus-vaccine-tracker.html
  2. https://www.who.int/publications/m/item/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines
  3. https://www.nature.com/articles/d41586-020-01221-y
  4. https://saude.abril.com.br/medicina/como-funcionam-as-vacinas-mais-avancadas-contra-o-coronavirus/
  5. https://www.saopaulo.sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/06/Apresentacao-CoronavirusVacina_Dr-Dimas_10_06.pdf
  6. Portal ANVISA – Vacinas
  7. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32661-1/fulltext
  8. Acompanhamento análise Vacinas –  ANVISA