Você conhece o “Efeito Angelina Jolie”?

Você conhece o “Efeito Angelina Jolie”?

Angelina Jolie e o seu impacto nos testes genéticos para câncer de mama

 

Em 2013, a atriz americana Angelina Jolie veio a público em um artigo na New York Times para comunicar que tinha sido submetida a uma dupla mastectomia como medida redutora de risco, após ter descoberto que era portadora de uma alteração no gene BRCA1 que aumenta o risco de câncer de mama e ovário (1).  

A atriz realizou o teste genético, pois tinha um forte histórico familiar: mãe, avó e tias maternas que tinham falecido de câncer de mama ou ovário.  

Na época, a exposição do caso contribuiu para a popularização dos testes genéticos para câncer de mama, um evento que ficou conhecido como “efeito Angelina Jolie”. Estudos mostram que nos meses após o anúncio, houve um grande aumento no número de testes na Europa e nos Estados Unidos (2,3).

Entenda nesse post o caso do Efeito Angelina Jolie.

 

Angelina Jolie herdou uma mutação que aumentava o seu risco de câncer

Toda mulher tem um risco de 12% de ter câncer de mama em algum momento da vida, mas existem fatores de risco que aumentam esse número.

Como discutimos nesse post, a Genética é um fator de risco muito importante.

Entre 5-10% dos casos de câncer são causados por uma alteração genética herdada de um dos pais. Esse tipo de tumor é chamado de câncer hereditário (4). 

A alteração genética que causa câncer hereditário está presente em todas as células do corpo da pessoa, incluindo óvulos e espermatozoides, e existe a chance de 50% da alteração ser transmitidas aos filho(s).  

A avó de Angelina transmitiu uma cópia alterada do BRCA1, um gene importante para o crescimento das células, para as duas filhas: a tia e a mãe de Angelina. E Angelina herdou da sua mãe a alteração.

Pessoas com alterações no BRCA1 têm risco de 46% a 87% de desenvolver câncer de mama em algum momento da vida (4).  

Alterações no BRCA1 também conferem risco para outros tipos de tumores, principalmente câncer de ovário. Por isso, em 2015, a atriz foi submetida a outro procedimento preventivo: cirurgia de remoção dos ovários e das trompas de Falópio (Salpingo-ooforectomia bilateral).

Além do BRCA1, outros genes como o BRCA2, CDH1, PALB2, PTEN e TP53 aumentam o risco de uma pessoa desenvolver o câncer de mama.

 

A escolha de Angelina

Por ter herdado uma cópia defeituosa do BRCA1, a atriz tinha um risco aumentado para câncer de mama e ovário, mas isso não significa que com certeza ela teria a doença ao longo da vida. 

A presença da predisposição genética permite a adoção de uma série de estratégias de prevenção e diminuição dos riscos de desenvolvimento de tumores. 

Angelina optou junto ao seu médico pelas cirurgias profiláticas, mas existem outras opções como exames de rastreamento em idades mais jovens ou realização de ressonância magnética periódica. 

 

Quem deve fazer o teste genético para câncer de mama hereditário?

Embora tenha contribuído para conscientização sobre os testes genéticos, o “efeito Angelina Jolie” também foi alvo de críticas na época, devido às muitas mulheres que se submeteram ao teste sem compreender suas limitações e benefícios. 

Existem critérios clínicos e de histórico familiar que auxiliam o médico a compreender se o teste genético pode beneficiar mulheres com câncer de mama ou mulheres saudáveis que desejam se testar.

Quer conhecer os benefícios do teste genético para mulheres com suspeita câncer de mama? Leia esse post.

Se você tem forte histórico familiar, como a Angelina, ou tem um parente próximo com alteração em gene que aumenta o risco de câncer de mama, converse com seu médico! Ele irá avaliar o seu histórico clínico e familiar para determinar se o teste genético é indicado para você, como também os benefícios, limitações e os impactos do resultado do teste. 

 


Referências

  1. https://www.nytimes.com/2013/05/14/opinion/my-medical-choice.html
  2. Evans, D.G., Wisely, J., Clancy, T. et al. Longer term effects of the Angelina Jolie effect: increased risk-reducing mastectomy rates in BRCA carriers and other high-risk women. Breast Cancer Res 17, 143 (2015).
  3. https://www.genomicseducation.hee.nhs.uk/blog/genomics-and-the-angelina-jolie-effect/
  4. https://www.cancer.gov/about-cancer/understanding/what-is-cancer
  5. Petrucelli N et al. BRCA1- and BRCA2-Associated Hereditary Breast and Ovarian Cancer. Set/1998. GeneReviews® [Internet] (Ultima atualização Dez/2016). 
Testes genéticos para câncer de mama

Testes genéticos para câncer de mama

Câncer de mama hereditário

 

O câncer de mama é um tumor que se inicia nas mamas devido a mutações em genes importantes para o controle do crescimento celular (1, 2). 

Cerca de 5 a 10% dos casos são causados por uma mutação herdada dos pais, por isso são chamados de câncer hereditário (1, 2). 

Os testes genéticos servem para identificar mutações em genes que aumentam o risco de desenvolver a doença, como o BRCA1 e BRCA2. Com o avanço das inovações da Genética no Brasil e no mundo os testes genéticos para câncer de mama tem se tornado cada vez mais acessíveis. 

Entenda neste artigo como os testes genéticos se tornam um novo aliado para prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. 

Quais as principais causas do câncer de mama hereditário?

Mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 causam a síndrome de câncer de mama e ovário hereditário, a causa mais frequente de câncer de mama hereditário. Pessoas com mutações nesses genes têm risco de 46%-87% de ter a doença em algum momento da vida. 

Outras síndromes de câncer hereditário associadas a risco de câncer de mama são:  

  • Síndromes de Peutz-Jeghers (gene STK11
  • Síndrome de Li-Fraumeni (gene TP53)
  • Síndrome de Câncer Gástrico Difuso Hereditário (gene CDH1)
  • Síndrome de Cowden (gene PTEN). 

Mutações em outros genes como o CHEK2, ATM, PALB2  também podem elevar o risco para câncer de mama.

Quer conhecer os fatores de risco para o câncer de mama não hereditário? Leia esse artigo.

 

O que são testes genéticos para câncer hereditário?

Os testes genéticos analisam o DNA para identificar alterações genéticas que aumentam o risco para câncer de mama hereditário. 

Essas alterações podem ser identificadas em vários genes diferentes (BRCA1, BRCA2, STK11, TP53, CDH1, PTEN, PALB2, entre outros). Por isso, exames de Painéis de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) são hoje o tipo de teste genético mais usado para auxiliar pacientes com câncer de mama. 

Um Painel genético é um exame que, utilizando o NGS, analisa simultaneamente dois ou mais genes.  Um exemplo, e o Painel de Câncer de Mama e Ovários Hereditários da Mendelics que analisa 37 genes. 

Por outro lado, caso o médico suspeite de uma síndrome de câncer hereditário específica (Exemplo: Li-Fraumeni), ele pode solicitar o sequenciamento do único gene responsável pela síndrome. 

Exames de MLPA também podem ser solicitados para complementar o exame de NGS, principalmente quando esse último teve resultado negativo ou inconclusivo.  

Quem deve realizar o exame?

A recomendação de realização de teste genético para câncer de mama é baseada em critérios de histórico familiar (1º, 2º e 3º graus) e/ou critérios clínicos, baseados principalmente nas diretrizes do National Comprehensive Cancer Network (NCCN) (3).

Conheça alguns de vários indícios que podem sugerir a necessidade de uma avaliação com um médico geneticista e a realização de teste genético.

  • Idade do aparecimento do tumor (≤ 45 anos), 
  • Presença de tumor bilateral ou mais de um tumor primário na mama, 
  • Tumor de mama triplo negativo em mulheres de <60 anos (Receptores de estrogênio, progesterona e HER2 negativos), 
  • Forte histórico familiar de câncer de mama  (familiares de 1º, 2º e 3º graus diagnosticados)
  • Histórico familiar de outros tipos de tumores (Exemplo: câncer de ovário) na família, 
  • Familiar do sexo masculino com câncer de mama. 

Converse com seu médico para saber se você tem indicação para o exame. 

 

Para que servem os testes genéticos para câncer hereditário?

1) Diagnóstico

O resultado do exame pode indicar se a causa do câncer é hereditária. Quanto mais cedo o diagnóstico, maior a chance de cura. 

 

2) Procedimentos redutores de risco:

Pessoas diagnosticadas com câncer de mama e que possuem alterações clinicamente relevantes no BRCA1 e BRCA2 têm risco aumentado de desenvolver tumor de mama bilateral e de câncer de ovário (1, 2). 

Assim, pacientes portadores de alterações, podem ser submetidos, a critério médico, a mastectomia profilática bilateral (cirurgia de retirada de ambas as mamas) e a salpingo-ooforectomia redutora de risco (SORR, remoção do ovário e das trompas de Falópio). 

Além do BRCA1 e BRCA2, pacientes portadores de alterações em outros genes também podem ser beneficiados com procedimentos redutores de risco.

 

3) Tratamento personalizado

Recentemente, resultados de testes genéticos passaram a ser utilizados também na escolha do melhor tratamento. 

Portadoras de mutações no BRCA1 e BRCA2, que atendam determinados critérios clínicos, podem se beneficiar de uma nova classe de medicações: os inibidores de PARP.  Trata-se de medicações capazes de ‘atacar’ apenas as células do tumor (deficientes em BRCA1 ou BRCA2) e não as células saudáveis, por isso são considerados uma terapia alvo (7, 8, 9). 

O primeiro inibidor de PARP foi aprovado pela FDA em 2017 (7, 8). No Brasil, o medicamento olaparibe (Lynparza) está aprovado para uso pela ANVISA para o tratamento de câncer de mama metastático em portadoras de mutações no BRCA1/2 (9). 

 

4) Avaliação de risco em mulheres assintomáticas 

Pessoas saudáveis com forte histórico familiar da doença ou com um familiar que possui mutação que causa câncer de mama podem, nos testes genéticos, saber se herdaram a predisposição.

A presença da predisposição genética permite a adoção de uma série de estratégias de prevenção e diminuição dos riscos de desenvolvimento de tumores (4, 5) (Exemplo: exames de rastreamento em idades mais jovens, realização de ressonância magnética periódica, prevenção por quimioterapia com tamoxifeno e cirurgias profiláticas)

Mas é importante lembrar que ter a mutação não significa que a pessoa terá a doença, mas sim que ela tem risco aumentado em comparação a outras pessoas. Por isso, mulheres assintomáticas precisam conversar com seus médicos para compreender os impactos e benefícios do resultado do teste genético. 

5) A importância do aconselhamento Genético 

Na maioria dos tumores hereditários, a chance da alteração genética que predispõe ao câncer ser transmitida aos filhos é de 50%, por isso a importância do aconselhamento genético pré e pós exame para o paciente e seus familiares. 

Na consulta, o médico geneticista explica para o paciente também a respeito de outros possíveis riscos associados às mutações genéticas identificadas no exame, como, por exemplo, predisposição a outros tipos de tumores. 

 

Posso realizar um exame para câncer de mama hereditário pelo meu convênio?

A partir de 2014 a cobertura para exames genéticos para diagnóstico de doenças raras e cânceres hereditários passou a ser obrigatória. 

As diretrizes de cobertura para convênio para câncer de mama hereditário estão descritas no Rol De Procedimentos e Eventos Em Saúde 2018 da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) (4). 

Nesse #outubrorosa lembre-se que os exames genéticos são um novo aliado para prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. 

Dúvidas? Deixe sua pergunta nos comentários abaixo.  

Importante: Esse post tem caráter educativo. Recomendamos fortemente que o paciente seja acompanhado por um médico que orientará qual a melhor maneira de se proceder. 

 


Referências

  1. https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-mama
  2. https://www.breastcancer.org/risk/factors/family_history
  3. https://www.nccn.org/patients/guidelines/content/PDF/stage_0_breast-patient.pdf
  4. http://www.ans.gov.br/images/stories/Plano_de_saude_e_Operadoras/Area_do_consumidor/rol/b_rol_2018_110.pdf
  5. Kotsopoulos J. BRCA Mutations and Breast Cancer Prevention. Cancers (Basel). 2018; 10: 524.
  6. Garcia C et al. Risk management options elected by women after testing positive for a BRCA mutation. Gynecol Oncol.;132:428-33, 2014.)
  7. Pilié PG1, Gay CM2, Byers LA2, O’Connor MJ3, Yap TA4,5,6,7.PARP Inhibitors: Extending Benefit Beyond BRCA-Mutant Cancers. Clin Cancer Res. 2019 Jul 1;25(13):3759-3771. 
  8. https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2020/208558s014lbl.pdf
  9. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2018/aprovado-registro-de-lynparza-comprimidos

 

Outubro Rosa e câncer de mama

Outubro Rosa e câncer de mama

Outubro Rosa: conheça a sua história

Outubro Rosa é uma campanha realizada anualmente no mês de outubro onde diversas instituições compartilham informações sobre o câncer de mama com o objetivo de promover a conscientização sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento. Durante todo o mês de outubro, além das atividades educativas, diversos locais e monumentos públicos no mundo inteiro são iluminados pela cor rosa.

O Outubro Rosa teve início da década de 1990 nos Estados Unidos durante um evento chamado “For The Cure” (Corrida pela cura), que ocorreu em Nova Iorque, que tinha objetivo de arrecadar fundos para pesquisas da Fundação Susan G. Komen Breast Cancer Foundation. Na corrida, foram distribuídos laços cor de rosa para os participantes (1).

Nos Estados Unidos, várias outras instituições começaram a realizar eventos para conscientização da prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama anualmente, onde enfeitavam a cidade e locais públicos com laços rosa, e sempre no mês de outubro, o que levou a popularização do ‘Outubro Rosa’ posteriormente no mundo todo (1).

No Brasil, em 2002, ocorreu a primeira ação do movimento com a iluminação em rosa do monumento Mausoléu do Soldado Constitucionalista, situado em São Paulo-SP (1). Desde então, todos os anos, diversas ações ocorrem em todo o Brasil. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) participa do movimento desde 2010 promovendo eventos técnicos, debates e apresentações sobre o tema (2).

 

O Câncer de mama: por que é preciso conscientizar?

O câncer de mama é o câncer mais comum em mulheres (sem considerar os casos de câncer de pele não melanoma) no Brasil (3). 

Estima-se que 1 em cada 8 mulheres no mundo terão câncer de mama em algum momento de suas vidas.

Em 2018, 59.700 mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama (3) e estima-se 66.280 novos casos de câncer de mama em 2021, no Brasil (4).

Além disso, apesar de ser uma doença vista mais comumente em mulheres, 1% dos casos de câncer de mama ocorrem em homens (3).

A detecção do câncer nos estágios iniciais é fundamental para garantir um melhor resultado no tratamento. Quanto mais precocemente um tumor é detectado e o tratamento é iniciado, maior a probabilidade de cura (5). 

Por isso, é muito importante conhecer as causas e os riscos associados ao câncer de mama, estar atento (a) aos sinais e ter acompanhamento de um médico.

O câncer de mama não tem uma causa única. Diferentes fatores, genéticos e ambientais, contribuem para aumentar o risco de desenvolvê-lo. 

A idade é um importante fator de risco, mulheres a partir dos 50 anos estão mais propensas a desenvolver o câncer de mama. Outros fatores ambientais, relacionados a estilo de vida, como sedentarismo e consumo de álcool, também estão associados ao aumento do risco.

Contudo, a predisposição genética é um dos fatores de risco mais bem estabelecidos. Cerca de 5 a 10% dos casos de câncer de mama são causados por alterações genéticas que foram herdadas dos pais (5, 6). Mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 aumentam de 46% a 87% o risco de uma pessoa desenvolver a doença em algum momento da vida (5, 6).

Um caso famoso que ilustra a importância de conhecer os riscos e ter acompanhamento médico foi o da atriz Angelina Jolie, que tinha um forte histórico familiar (mãe, avó e tias maternas tiveram câncer de mama e ovário) e após um teste genético descobriu que era portadora de uma alteração genética no gene BRCA1 que aumenta o risco de câncer de mama e ovário. Desde então, iniciou-se o “Efeito Jolie” (7).

Hoje, o diagnóstico e as opções de tratamento estão sendo aprimoradas em função do conhecimento sobre a influência genética nos tumores. Caso seja indicado, exames genéticos podem ser aliados no diagnóstico precoce e na avaliação de predisposição genética em pessoas saudáveis com forte histórico familiar da doença.

Caso se interesse em saber mais sobre a genética do câncer, clique para ler o artigo.

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Referências
  1. INCA: Outubro rosa. http://www.inca.gov.br/assuntos/outubro-rosa
  2. Outubro Rosa. http://www.outubrorosa.org.br/historia.htm
  3. INCA: câncer de mama. http://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-mama
  4. INCA: estimativa de incidência do câncer de mama 2020. http://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//estimativa-2020-incidencia-de-cancer-no-brasil.pdf
  5. https://www.cancer.org/cancer/breast-cancer/understanding-a-breast-cancer-diagnosis/breast-cancer-survival-rates.html
  6. Hulka, B. S., & Moorman, P. G. (2008). Reprint of Breast cancer: hormones and other risk factors. Maturitas, 61(1-2), 203–213.
  7. Evans, D.G., Wisely, J., Clancy, T. et al. Longer term effects of the Angelina Jolie effect: increased risk-reducing mastectomy rates in BRCA carriers and other high-risk women. Breast Cancer Res 17, 143 (2015).
Testes genéticos para o Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Testes genéticos para o Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Conheça o Transtorno do Espectro Autista

 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), conhecido como autismo, é uma doença complexa que afeta o neurodesenvolvimento ainda na infância. Suas causas são múltiplas e na maioria dos casos ainda não estão totalmente explicadas, mas sabe-se que fatores genéticos possuem forte contribuição na sua etiologia. 

Várias alterações genéticas já foram associadas à etiologia do autismo e, apesar do diagnóstico ser essencialmente clínico, a elucidação da etiologia do autismo traz uma série de benefícios para o paciente e sua família

Nas últimas duas décadas, com o avanço das técnicas de genética, como o Sequenciamento de Nova Geração (NGS) e o microarray de DNA, tem aumentado consideravelmente a proporção de casos de TEA que tenha a causa esclarecida. 

Mas ainda há muitas dúvidas em relação aos testes genéticos que podem contribuir na identificação da etiologia do TEA. Nesse artigo iremos apresentar os testes genéticos indicados para auxiliar o diagnóstico do autismo. 

 

O que é o TEA?

O TEA é um grupo de transtornos do neurodesenvolvimento de início precoce que são caracterizados por comprometimento nas habilidades sociais e comunicativas, e comportamentos repetitivos e estereotipados (1, 2). 

A manifestação clínica dos pacientes com TEA é extremamente variável, com indivíduos podendo apresentar os mesmos sintomas em diferentes graus. Por exemplo, alguns pacientes são averbais enquanto outros possuem apenas dificuldades de fala pontuais. Além disso, indivíduos com TEA também podem apresentar outros sintomas, como hiperatividade, problemas gastrointestinais, transtornos de sono e até epilepsia (1).

Estima-se que 1% da população possua TEA (1, 3).

 

Quais são as causas do TEA?

As causas do TEA são múltiplas. 

Na maioria dos casos de TEA não é possível definir uma etiologia clara. A relação da influência dos fatores genéticos e ambientais sobre o risco do TEA ainda está em discussão, contudo todos os estudos epidemiológicos e genéticos apontam para uma forte contribuição genéticaDiferentes alterações em diferentes genes atuam juntos seguindo um modelo poligênico ou somados a fatores ambientais, seguindo o modelo multifatorial (2). 

Alterações genéticas raras e comuns que são fatores de risco para TEA são alvo de vários estudos. Pesquisas sobre a influência de fatores ambientais, como infecções maternas ou o uso de medicamentos durante a gravidez também ainda estão sendo realizadas (2, 4). 

No futuro saberemos quais os fatores genéticos e ambientais responsáveis pela maioria dos casos de autismo. Porém, hoje, 20 a 40% dos casos de TEA, a depender do estudo, tem uma causa genética conhecida e que pode ser identificada em testes genéticos. Eles serão discutidos no tópico a seguir. 

 

Quais são as principais causas genéticas conhecidas de TEA?

Variações no número de cópias (Copy Number Variations, CNVs) são identificadas 10-30% dos pacientes com TEA. As CNVs abrangem as microdeleções e microduplicações maiores do que 1kb (1.000 pares de bases), e podem incluir um ou mais genes. Devido à importância das CNVs como causa de TEA, exames de microarray são hoje sugeridos em todos os protocolos de investigação, como será discutido abaixo. 

Alterações cromossômicas, como grandes deleções, duplicações e rearranjos equilibrados são responsáveis por 3% dos casos de TEA. Por isso, o cariótipo, exame capaz de identificar alterações cromossômicas, está sendo substituído pelo microarray que apresenta taxa diagnóstica superior.

Em alguns casos, apenas uma alteração em um único gene é capaz de causar o TEA em um indivíduo, seguindo, portanto, um modelo monogênico (2). Nessa categoria estão incluídas as alterações no gene MECP2 que causam síndrome de Rett (4% dos casos de TEA em meninas), a expansão no gene FMR1 que causa X-frágil (1-5% dos casos de TEA) e as alterações no gene PTEN, responsável por até 5% dos casos de TEA associados a macrocrania. 

Embora mais raros, alterações em genes que causam doenças metabólicas também podem causar TEA.  

 

Diagnóstico do TEA

Não existe um marcador molecular ou bioquímico do TEA, sendo o diagnóstico essencialmente clínico e comportamental, feito no consultório médico (4).

Contudo, o esclarecimento da etiologia do TEA através do diagnóstico genético traz vários benefícios para o paciente e sua família (4).

Os testes genéticos são importantes ferramentas para compreender a causa do TEA e podem ser indicados a depender de fatores individuais como sinais clínicos característicos de alguma síndrome (dismorfismos craniofaciais, deficiência intelectual, entre outros), histórico familiar de TEA ou outras doenças psiquiátricas, entre outros. Leia mais abaixo.

O diagnóstico genético estabelecido promove um aconselhamento genético mais adequado para a família, o esclarecimento dos riscos de outros (futuros) membros da família também terem TEA, possíveis outros sintomas associados, possibilidade de fertilização in vitro com seleção de embriões, além de contribuir para eliminar exames desnecessários, entre outros (4). 

 

Testes genéticos para autismo

Existem diversas diretrizes internacionais com recomendações sobre o protocolo de investigação etiológica do TEA. Um dos primeiros a ser estabelecido foi o do Colégio Americano de Genética Médica (ACMG), em 2013 (4).

De maneira geral, as diferentes diretrizes recomendam que, primeiramente, seja feita uma avaliação clínica/morfológica cuidadosa do paciente junto a avaliação da história familiar para determinar se o paciente possui características físicas (dismorfismos) indicativas de alguma síndrome. Caso haja suspeita de síndrome, sugere-se que seja realizado o teste genético/molecular mais adequado (4). 

Além disso, os protocolos recomendam que a busca por CNVs seja feita em todos os casos de TEA através do microarray genômico (por SNP-array ou  CGH-array) (4). Alguns protocolos consideram a realização do cariótipo (2, 4). 

No Brasil, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) no rol de procedimentos e eventos em saúde de 2018 determina que o microarray genômico seja realizado apenas após um resultado normal no cariótipo e no teste para síndrome do X-frágil (6). Consulte seu plano de saúde.

Para a maioria dos casos de TEA, não há sinais clínicos que indiquem uma alteração genética específica. No entanto, o TEA pode ser parte dos sintomas de uma série de doenças monogênicas  ou, mais raramente, metabólicas. Dentre elas, três destacam-se por serem mais prevalentes em indivíduos com TEA: a síndrome do X-frágil, a síndrome de Rett, e a síndrome de Cowden (4). 

Portanto, além do microarray genômico, em geral, recomenda-se que: 

  • Pacientes do sexo masculino façam o teste da síndrome do X-frágil (gene FMR1).
  • Pacientes do sexo feminino façam sequenciamento do gene MECP2. 
  • Pacientes com  macrocrania (perímetro cefálico maior do que > 2.5 desvios padrão acima da média para a idade) realizem o sequenciamento do gene PTEN.

Alguns protocolos consideram realizar o teste da síndrome do X-frágil em pacientes do sexo feminino que apresentarem alguns sinais clínicos suspeitos e/ histórico familiar, e o sequenciamento do gene MECP2 em pacientes do sexo masculino com sinais clínicos suspeitos (4, 5).

Mais recentemente, com a popularização do NGS, o sequenciamento do genoma completo, do exoma, e os painéis de genes se tornaram mais acessíveis e começaram a ser utilizados para o diagnóstico de casos de TEA sem diagnóstico conclusivo mesmo após a realização dos outros exames (4,5). 

É importante lembrar que somente um médico pode avaliar os benefícios do exame genético para o paciente e definir qual exame é mais adequado. Por isso, converse com seu médico! 

 

 Testes genéticos para autismo e a Mendelics

Para auxiliar os médicos, os pacientes e seus familiares em busca do diagnóstico genético do TEA, a Mendelics desenvolveu o Painel de Autismo. Utilizando a tecnologia de NGS, o Painel de Autismo analisa 42 genes associados ao TEA, incluindo o MECP2 e o PTEN.

Além disso, a Mendelics oferece os outros exames genéticos recomendados pelos protocolos internacionais: o cariótipo, SNP-array, o teste da síndrome do X-frágil (gene FMR1).

Para saber mais entre em contato com a nossa equipe pelo telefone (11) 5096-6001 ou através do nosso site. 

Dúvidas? Deixe sua pergunta nos comentários abaixo.  

Importante: Esse post tem caráter educativo. Recomendamos fortemente que o paciente seja acompanhado por um médico que orientará qual a melhor maneira de se proceder. Converse com seu médico.

 


Referências

1 American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 5th ed. Arlington, VA: American Psychiatric Association; 2013.

2- Bourgeron, T. From the genetic architecture to synaptic plasticity in autism spectrum disorder. Nat Rev Neurosci 16, 551–563 (2015). https://doi.org/10.1038/nrn3992

3- Christensen DL, Baio J, Van Naarden Braun K, Bilder D, Charles J, Constantino JN, Daniels J, Durkin MS, Fitzgerald RT, Kurzius-Spencer M, Lee LC, Pettygrove S, Robinson C, Schulz E, Wells C, Wingate MS, Zahorodny W, Yeargin-Allsopp M; Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Prevalence and characteristics of autism spectrum disorder among children aged 8 years–Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network, 11 Sites, United States, 2012. MMWR Surveill Summ. 2016;65(3):1-23. Erratum in: MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2016;65(15):404

4-Schaefer GB, Mendelsohn NJ; Professional Practice and Guidelines Committee. Clinical genetics evaluation in identifying the etiology of autism spectrum disorders: 2013 guideline revisions. Genet Med. 2013;15(5):399-407. Erratum in: Genet Med. 2013;15(8):669

5- Rol ANS 2018 <http://www.ans.gov.br/images/stories/Plano_de_saude_e_Operadoras/Area_do_consumidor/rol/b_rol_2018_110.pdf>

Triagem genética vs. diagnóstico genético: qual a diferença?

Triagem genética vs. diagnóstico genético: qual a diferença?

Conheça os princípios de um teste de triagem genética e um exame de diagnóstico genético

 

Com o aumento da acessibilidade dos testes genéticos, uma dúvida se tornou comum: qual a diferença entre exames genéticos de diagnóstico com testes de triagem genética. 

Existem importantes diferenças entre esses dois tipos de exames. O momento ideal de se realizar cada um deles e para quem são mais apropriados, são exemplos de questões a serem consideradas na escolha. 

Vamos esclarecer essas e outras dúvidas nesse artigo. Continue lendo!

 

TRIAGEM GENÉTICA

O teste genético de triagem identifica pessoas aparentemente saudáveis (assintomáticas) que têm risco aumentado de desenvolver uma doença genética.  

Como o nome já diz, o teste faz uma triagem à procura de alterações genéticas que conferem um risco aumentado da pessoa desenvolver uma doença no futuro. A pessoa testada não deve apresentar sintomas e não é necessário um pedido médico para fazer o teste. 

Testes de triagem genética podem ser realizado antes do nascimento (Exemplo: o Teste Pré-natal Não Invasivo, NIPT); logo após o nascimento (Exemplo: o Teste da Bochechinha); ou em qualquer momento da vida de uma pessoa (Teste Triagem de Portador). 

Um resultado positivo para uma doença tratável em um teste de triagem possibilita procedimentos de controle e tratamento antes do início dos sintomas. Por exemplo, caso seja detectada alterações genéticas que aumentem o risco de desenvolver uma das mais 310 doenças investigadas no Teste da Bochechinha, o médico pode iniciar o tratamento do bebê antes do início dos sintomas.

Por exemplo, bebês com alto risco de desenvolver retinoblastoma, identificadas no Bochechinha, podem passar por consultas oftalmológicas mais frequentes, aumentando a chance de identificar o tumor o mais rápido possível e já iniciar o tratamento.

Atenção, em alguns casos, pode ser necessário realizar um exame complementar de diagnóstico para confirmar o resultado do teste de triagem. Por exemplo, mulheres grávidas que apresentarem o NIPT positivo precisam realizar exames complementares confirmatórios, para confirmar se o bebê possui a síndrome ou doença genética sugerida pelo NIPT.

Embora o teste de triagem não necessite obrigatoriamente de um pedido médico, é sempre fortemente recomendado que após um resultado positivo o paciente seja acompanhado por um médico que orientará qual a melhor maneira de proceder.

 

DIAGNÓSTICO GENÉTICO

O exame de diagnóstico genético é solicitado por um médico quando há suspeita de que os sinais e sintomas do paciente possuem causa genética. Em casos de doenças familiares já diagnosticadas, exames de diagnóstico genético também podem ser solicitados para parentes biológicos.

Para realizar um exame de diagnóstico genético é necessário um pedido médico. É recomendado que no pedido médico venha a suspeita clínica e o nome do exame e/ou técnica que ele gostaria que fosse realizado. 

Solicitações de exames genéticos complexos, como o Sequenciamento Completo do Exoma, devem ser acompanhados também de descrição detalhada do quadro clínico do paciente para que o laboratório responsável possa direcionar a análise para genes de maior relevância clínica.

Exames de diagnóstico devem ser solicitados para pacientes com algum sinal ou sintoma, mas há exceções. Um exame de diagnóstico pode servir como exame confirmatório de testes de triagem com resultado positivo, como o Teste do Pezinho para recém-nascido assintomático.

Um resultado positivo confere um diagnóstico genético. Diante desse resultado o médico confirma a suspeita clínica (síndrome ou doença genética já conhecida) ou esclarece um quadro de causa desconhecida (exemplo: deficiência intelectual). 

Resultados de exames de diagnóstico também tem se tornado também cada vez mais importantes para definição de tratamentos, principalmente para doenças raras e câncer hereditário

Os resultados do exame devem sempre ser compartilhados com o médico solicitante, que será responsável pela interpretação dos resultados e pela escolha da melhor conduta a ser tomada.

Leia nosso post sobre dúvidas frequentes sobre exames de diagnóstico genético.

Agora que você já sabe quais as principais diferenças entre triagem genética e exame de diagnóstico genético, aproveite para ler os posts abaixo que explicam mais sobre os principais exames de triagem e diagnóstico oferecidos pela Mendelics:

Teste de Triagem: NIPT, Teste da Bochechinha

Exame de diagnóstico: Painel de Doenças Tratáveis, Exoma, SNP-array, MLPA.

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