Genética na triagem neonatal

Genética na triagem neonatal

Genética na triagem neonatal

Existem mais de 5.500 doenças raras que se manifestam na infância, e 80% delas têm causa genética. Por serem tantas, apesar de raras, essas doenças afetam 1 a cada 20 crianças nascidas vivas, e estima-se que cerca de 13 milhões de brasileiros tenham alguma doença rara.

Juntos, os raros são muitos!

Continue lendo para entender a contribuição da genética para a triagem neonatal e conheça a história do Matheus, que possui Síndrome da Quilomicronemia Familiar (SQF).

 

Testes genéticos complementam a triagem neonatal

Apesar de serem muitas, a boa notícia é que centenas de doenças raras já têm tratamento disponível. E quanto antes a doença for diagnosticada, mais cedo o tratamento pode ser iniciado, minimizando ou evitando as consequências mais graves.

Ainda mais interessante é que várias dessas doenças raras possuem tratamentos simples, como dietas restritivas que, se iniciadas logo nos primeiros meses de vida, conseguem impedir que os sintomas da doença se manifestem, melhorando muito a qualidade de vida da criança.

Infelizmente, as doenças raras podem apresentar sintomas semelhantes aos de doenças mais comuns e, por isso, frequentemente são diagnosticadas incorreta e tardiamente. As crianças raras precisam consultar diversas especialidades médicas, e levam, em média, 3 anos para serem corretamente diagnosticadas.

Como muitas doenças genéticas são progressivas, ou seja, pioram o quadro do paciente ao longo do tempo, esses 3 anos sem tratamento podem ser cruciais.

Por isso, os exames genéticos são um ótimo complemento na triagem neonatal: eles são capazes de identificar centenas dessas doenças em um único exame que pode ser feito logo no primeiro dia de vida.

 

Triagem Neonatal no diagnóstico de doenças raras 

O Teste do Pezinho é a triagem neonatal mais conhecida no Brasil, pois está incorporado no SUS e é oferecido gratuitamente para todas as crianças brasileiras entre o 3º e 5º dia de vida. 

Esse teste atualmente analisa pelo menos 6 doenças (alguns estados analisam mais):

Infográfico mostrando a quantidade de doenças investigadas na triagem neonatal de cada estado brasileiro

No Brasil, o Programa Nacional de Triagem Neonatal estabelece que todos os estados e municípios triem pelo menos as seis doenças inclusas no programa. Porém, alguns estados, como Minas Gerais, Paraná e Paraíba, e municípios, como o Distrito Federal, São Paulo e Porto Alegre, já oferecem triagem neonatal expandida.

Felizmente, o teste será expandido a partir de 2022 e passará a cobrir cerca de 50 doenças. Mas, apesar de ser uma grande evolução, ainda está muito longe de cobrir todas as doenças raras que já possuem tratamento.

Pensando nisso, a Mendelics desenvolveu o Teste da Bochechinha, o primeiro teste de triagem neonatal genético do Brasil e um dos primeiros a serem validados do mundo. O teste investiga mais de 340 doenças raras que se manifestam na infância e já possuem tratamento disponível.

Com uma coleta simples, rápida e indolor, que pode ser feita logo no primeiro dia de vida do bebê, o Teste da Bochechinha permite que o diagnóstico de centenas de doenças raras seja feito precocemente.

A coleta é feita com o auxílio de um cotonete swab no interior da bochecha do bebê. Esse cotonete coleta algumas células que se desprendem na bochecha e contém o DNA que será analisado. Saiba mais sobre a coleta com swab bucal.

É importante frisar que o Teste da Bochechinha não substitui o Teste do Pezinho do SUS, mas o complementa, deixando a triagem neonatal da criança mais completa e informativa.

teste do pezinho versus teste da bochechinha

Conheça o Teste da Bochechinha e ofereça o teste no seu consultório!

 

Conheça a história do Matheus

O Matheus nasceu no mês de julho, saudável. O exame do Teste do Pezinho também não acusou nenhuma doença. Porém, quando completou 40 dias de vida, precisou ser internado e logo depois entrou em coma.

Os médicos fizeram exames de ultrassonografia, tomografia e ressonância e encontraram resultados normais. Mas os exames de sangue indicaram que algo não estava bem logo na coleta. O sangue parecia coagular com muita facilidade e os equipamentos não conseguiam fazer a leitura da amostra, acusando haver contaminação com gorduras (triglicerídeos).

Com essa informação, os médicos começaram a suspeitar que Matheus poderia ter uma síndrome muito rara e grave que leva a altos níveis de colesterol. Felizmente, conseguiram fazer o exame de sangue e a alteração encontrada foi na dosagem de triglicérides, que estava acima de 7.000, descartando a suspeita inicial.

Sabendo que Matheus não conseguia processar corretamente as gorduras, mesmo sem saber a causa, começaram a tratá-lo para eliminar esse excesso por sondas e transfusão de sangue. Durante esse período, Maria Luisa, mãe de Matheus, foi apresentada ao Teste da Bochechinha e resolveu fazer o exame.

Após algumas semanas, os níveis de triglicérides baixaram, Matheus saiu do coma e seus pais puderam levá-lo de volta para casa. O desafio agora era a alimentação que precisava evitar o consumo de alimentos que aumentam os níveis de triglicérides, mas ainda sem saber qual a doença.

Em outubro veio o resultado do Teste da Bochechinha indicando que Matheus possuía  alterações genéticas causadoras da Síndrome da Quilomicronemia Familiar (SQF). Depois de meses sem respostas, a família finalmente soube com o que estava lidando e passou a entender melhor como tratar a doença.

A SQF é um Erro Inato do Metabolismo que impede que o organismo metabolize gorduras (triglicerídeos) corretamente. Com isso, a gordura passa a se acumular nos órgãos e afetar a suas funções, deixando o paciente debilitado.

Essa doença é causada por mutações no gene LPL, responsável por codificar a enzima lipoproteína lipase que atua no metabolismo de gorduras no organismo. A gravidade da doença varia conforme a mutação que o paciente possui. Matheus tem três mutações diferentes nesse gene, sendo duas delas já conhecidas na literatura médica por causar SQF.

Pacientes com SQF precisam seguir uma dieta balanceada com consumo muito reduzido de gorduras e açúcares.

Saiba mais sobre a Síndrome da Quilomicronemia Familiar (SQF).

O Teste da Bochechinha permitiu que Maria Luisa e sua família entendessem a doença do Matheus e pudessem tratá-la corretamente, para que ele se desenvolvesse saudável e forte. Matheus completou dois anos de idade em julho de 2021 e segue se desenvolvendo saudável, sempre com uma dieta balanceada e acompanhamento com nutricionistas.

Apesar de Matheus ter feito o teste após o aparecimento da doença, o Teste da Bochechinha é um teste de triagem neonatal, recomendado para investigar doenças raras em bebês assintomáticos, antes que os sintomas se manifestem. O teste, quando feito logo nos primeiros dias de vida, permite que a doença seja diagnosticada e tratada antes da sua primeira manifestação, muitas vezes até evitando o aparecimento dos sintomas.

A equipe do Teste da Bochechinha fica muito feliz em poder compartilhar a história do Matheus e agradece à família por ajudar na conscientização sobre a importância da triagem neonatal.

O presente relato foi voluntário, não remunerado, e houve consentimento formal da família. A finalidade é exclusivamente para conscientização sobre a doença e a importância da triagem neonatal genética. Reforçamos que cada pessoa é única, assim como a sua saúde, por isso todo o tipo de cuidado deve ser discutido com um profissional de confiança.


Referências

Você conhece a Síndrome da Quilomicronemia Familial (SQF)? 

Você conhece a Síndrome da Quilomicronemia Familial (SQF)? 

Conheça a Síndrome da Quilomicronemia Familial (SQF)

A Síndrome da Quilomicronemia Familial (SQF) é uma doença genética rara e grave caracterizada pelo acúmulo de quilomícrons (quilomicronemia) no organismo.

A SQF atinge entre 1 e 2 pessoas a cada 1 milhão e pode se manifestar em vários momentos da vida, desde a infância até a idade adulta.

Seu principal sintoma é o aumento em até 10x nos níveis de triglicerídeos (hipertrigliceridemia), que leva a vários sinais e sintomas que incluem problemas cognitivos, como depressão, perda de memória, dificuldade de concentração; dores abdominais generalizadas, alterações gastrointestinais, como vômito e diarreia, pancreatite aguda potencialmente fatal e outras complicações a longo prazo. 

A doença também é chamada de FCS (em inglês, Familial Chylomicronemia Syndrome), deficiência de lipoproteína lipase (LPL), hiperlipoproteinemia tipo I de Fredrickson e hiperlipidemia familial.

 

Qual é a causa da SQF?

A SQF é uma doença genética, autossômica recessiva, causada, em 80% dos casos, por alterações (mutações) no gene que codifica a lipoproteína lipase (LPL). 

A LPL é uma enzima que atua no metabolismo dos quilomícrons, partículas responsáveis pelo transporte de gordura e colesterol (triglicerídeos) consumidos na dieta.

Pessoas com SQF possuem ausência ou deficiência da LPL, ocasionando acúmulo de quilomícrons no sangue e, consequentemente, a um aumento de até 10x nos níveis de triglicerídeos (hipertrigliceridemia grave), que, por sua vez, possui várias complicações associadas.

Outros genes, como o APOC2, APOA5, LMF1 ou GPIHBP1, já foram associados a deficiência de LPL.

 

Como é feito o diagnóstico da SQF?

Devido à sua raridade e ao fato da hipertrigliceridemia poder ser atribuída a outras doenças e condições, como consumo de álcool, diabetes ou certos medicamentos, a SQF é uma doença difícil de diagnosticar precocemente.

Em geral, um paciente com SQF passa por consultas com 5 profissionais diferentes até ser diagnosticado corretamente.

 

Sinais de suspeita clínica da SQF:

  • Histórico de episódios frequentes de pancreatite aguda;
  • Dor abdominal recorrente;
  • Triglicerídeos em jejum acima de 880 mg/dL (valor desejável é <150 mg/dL) sem resposta a medicamentos e sem causas secundárias;
  • Início precoce dos sintomas (infância, adolescência ou início da idade adulta).

Para confirmação da suspeita clínica é necessário exame genético para detectar variantes patogênicas em homozigose (ou heterozigose composta) no gene LPL ou outros genes associados a síndrome.

Nesse caso, o sequenciamento do gene LPL ou Painéis de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) para pancreatites são indicados.

A SQF é uma das 340 doenças investigadas no Teste da Bochechinha, um teste de triagem neonatal genética. Com esse teste, que pode ser realizado assim que a criança nasce, a doença pode ser identificada antes do paciente desenvolver qualquer sintoma da doença.

A SQF não é avaliada em outros testes de triagem neonatal, como o Teste do Pezinho básico do SUS e nem nas versões ampliadas e expandidas oferecidas pela rede privada.

 

Qual é o tratamento da SQF?

Ainda não existem medicamentos aprovados pela ANVISA e disponíveis para o tratamento da SQF no Brasil.

O controle da doença é feito com base em uma dieta restrita, com limite de ingestão de gorduras, para controlar a hipertrigliceridemia e os seus sintomas associados, e garantir a qualidade de vida do paciente. 

 

Programa de suporte ao diagnóstico da SQF

Para auxiliar no diagnóstico precoce da SQF, a PTC Therapeutics em parceria com a Mendelics oferece um programa de suporte ao diagnóstico de pacientes com suspeita de SQF. O Programa oferece um exame de Painel de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) que inclui 26 genes relacionados a hipertrigliceridemias e pancreatite. 

Consulte seu médico. Para saber mais sobre o Programa de Suporte ao Diagnóstico de SQF escreva para contato@mendelics.com.br.


BR-FCS-0293 – Fev 2021
Material destinado a profissionais de saúde habilitados a prescrever ou dispensar medicamentos.

Referências