COVID-19: transmissão de SARS-COV-2 pelo ar

COVID-19: transmissão de SARS-COV-2 pelo ar

A importância da ventilação de ambientes fechados na contenção da COVID-19

Há muito já se sabe que ambientes fechados e mal ventilados favorecem a transmissão de doenças infecciosas, como as influenzas (gripes). Recentemente, um estudo demonstrou que a má ventilação foi o grande fator responsável por um surto de COVID-19 iniciado em um restaurante na cidade de Guangzhou, na China, em janeiro de 2020.

 

O surto

No início de fevereiro de 2020, 10 pessoas de três famílias diferentes testaram positivo para COVID-19 em Guangzhou. Após o rastreio desses casos, as autoridades chinesas descobriram que as três famílias haviam almoçado no mesmo restaurante no Ano Novo Chinês (24 de janeiro). (1)

Uma das famílias (família A) vivia originalmente em Wuhan, o epicentro da pandemia, e estavam em Guangzhou a passeio. O primeiro indivíduo a apresentar sintomas da infecção pertencia a essa família e, muito provavelmente, foi o caso 0 desse surto. (1)

Nenhum dos indivíduos das outras duas famílias presentes no almoço apresentava qualquer sintoma de COVID-19, ou haviam tido contato prévio com casos confirmados da doença, tão pouco com outros habitantes de Wuhan. (1)

Todas as três famílias sentaram-se em mesas adjacentes na área menos ventilada do restaurante, sendo que a família A estava alocada na mesa do meio, entre as duas outras famílias. (1)

 

Transmissão

Os pesquisadores simularam as condições de ventilação no restaurante durante o almoço para verificar se as gotículas expelidas por alguém na mesa da família A poderiam atingir os integrantes das outras duas famílias nas mesas vizinhas. (1)

Para isso, posicionaram um manequim com um aerossol de etano (um gás) na cadeira do suspeito caso 0, e mediram a concentração do gás em outras cadeiras do restaurante (1).

Com isso, conseguiram mapear por onde as gotículas contaminadas poderiam ter se espalhado e qual a importância das diferentes correntes de ar (aparelhos de ar condicionado, portas e exaustores nos banheiros) nesse processo. (1)

Os pesquisadores chegaram à algumas conclusões (1):

  • A região onde se encontravam as mesas dessas famílias, no fundo do restaurante, é a que menos recebe ventilação natural.
  • O aparelho de ar condicionado que ventila no fundo do restaurante ajuda a criar uma corrente de ar que circula somente sobre essas três mesas.
  • As câmeras de vídeo do restaurante mostram que não houve contato direto do caso 0 com o restante das mesas, indicando que a transmissão ocorreu pelo ar

 

surto covid restaurante china

Disposição das mesas e do paciente zero no restaurante. Em vermelho está representada a corrente de ar que circulou pelas três mesas onde ocorreram as infecções.

 

Em resumo, a má circulação do ar no fundo do restaurante criou um ambiente propício para a transmissão aérea do vírus SARS-Cov-2, resultando em nove novas contaminações (1).

Outras simulações também já avaliaram a transmissibilidade do vírus pelo ar em outros locais, como escolas, boates e salas de estar (2), e até em veículos (3). Além disso, esses estudos avaliaram que o uso de máscaras diminuiria em quase 50% o número de novos contágios (2).

Todos esses estudos deixam clara a importância de evitar ambientes fechados e mal ventilados, e sempre usar máscaras com uma boa vedação durante a pandemia.

Recentemente (07/05) a CDC (Center for Disease Control and Prevention), órgão americano de controle e prevenção de doenças, incluiu a transmissão por partículas no ar como um dos principais meios de contágio pelo vírus SARS-Cov-2. (4)

Cuide da sua saúde e da saúde daqueles à sua volta. Evite ambientes fechados. Use máscara e lave as mãos. Teste seus funcionários periodicamente e ajude a conter a epidemia no Brasil.

A Mendelics desenvolveu, em maio de 2020, o primeiro teste em amostra de saliva do Brasil, o #PARECOVID: o teste molecular mais acessível, com qualidade comparável ao RT-PCR, lançado no Brasil até o momento, com capacidade de testagem diária de até 110.000 amostras, e resultados disponibilizados em até 24 horas. (5)

A Mendelics conta com uma equipe dedicada exclusivamente ao suporte de clientes #PARECOVID. Entre em contato conosco pelo telefone (11) 4637-4356 ou acesse nosso site para que possamos auxiliá-lo no retorno seguro da sua empresa ou centro educacional.

 


Referências

  1. Y. Li et al., “Probable airborne transmission of SARS-CoV-2 in a poorly ventilated restaurant,” Building and Environment, vol. 196, p. 107788, Jun. 2021.
  2. M. Zafra e J. Salas, “Uma sala de estar, um bar e uma sala de aula: assim o coronavírus é transmitido pelo ar”, EL PAÍS, Oct. 26, 2020. Acesso em 28 de abril de 2021. https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-10-26/uma-sala-de-estar-um-bar-e-uma-sala-de-aula-assim-o-coronavirus-e-transmitido-pelo-ar.html
  3. M. Zafra e J. Salas, “Não respire o ar alheio: como evitar o coronavírus em ambientes fechados”, EL PAÍS, Mar. 30, 2021. Acesso em 28 de abril de 2021. https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-03-30/nao-respire-o-ar-alheio-como-evitar-o-coronavirus-em-ambientes-fechados.html?prm=ep-app-articulo
  4. CDC, “Coronavirus disease 2019 (COVID-19),” Centers for Disease Control and Prevention, Mai. 07, 2021. Acesso em 10 de maio de 2021. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/science/science-briefs/sars-cov-2-transmission.html#
  5. P. Asprino et al., “A scalable saliva-based, extraction-free rt-lamp protocol for sars-cov-2 diagnosis”, [preprint], Out. 2020.
Variantes do SARS-CoV-2: o que você precisa saber

Variantes do SARS-CoV-2: o que você precisa saber

Entenda as novas variantes do SARS-CoV-2

Mutações em vírus acontecem o tempo todo. Às vezes, novas variantes surgem e desaparecem. Outras vezes, novas variantes surgem e persistem. As mutações são uma tentativa do vírus de escapar do sistema imune do hospedeiro. Quanto mais pessoas infectadas, mais variantes aparecem.

Múltiplas variantes do SARS-CoV-2 foram documentadas globalmente durante este um ano de pandemia. Mas o que são variantes e o que elas significam? Por que algumas são mais perigosas que outras? Entenda mais sobre esse assunto nesse post.

 

Mutação, variante e cepa – o que significam?

Embora os termos mutação, variante e cepa estejam sendo frequentemente usados alternadamente pela mídia, ou até por estudos, quando se referem à epidemiologia do SARS-CoV-2, é importante distingui-los.

Mutação refere-se à mudança real na sequência do RNA do vírus: por exemplo, D614G é uma substituição do ácido aspártico (D) por glicina (G) na posição 614 da proteína Spike (S) (1; Figura 1). 

Variante se refere aos genomas que diferem em sua sequência. Este termo é um pouco menos preciso porque 2 variantes podem diferir por 1 ou várias mutações (Quadro 1)

Tecnicamente, uma variante é uma cepa (às vezes, a palavra linhagem também é usada) quando tem um fenótipo (características observáveis) comprovadamente diferente e que possui consequências comportamentais comprovadas, como por exemplo, uma diferença na transmissibilidade, patogenicidade ou na virulência.

Um exemplo prático: mutações na sequência do RNA viral (D614G, por exemplo), alteram estruturas do vírus (proteína S – a espícula viral) originando uma nova linhagem (P.1) mais forte, por exemplo, causando uma doença mais grave.

 

Entenda o Coronavírus – SARS-CoV-2

O SARS-CoV-2, agente etiológico da COVID-19, pertence à família dos Coronavírus, que são um grupo de vírus envelopados que possuem RNA linear de fita simples. O genoma do SARS-CoV-2 tem cerca de 30.000 nucleotídeos e codifica 4 proteínas (Figura 1):

 

  • Proteína Spike (S)
  • Proteína de Membrana (M)
  • Proteína do Envelope (E)
  • Proteína do Nucleocapsídio (N)

Figura 1: Ilustração representando as estruturas do SARS-CoV-2.

 

Múltiplas variantes do SARS-CoV-2 foram documentadas globalmente durante esta pandemia (1, 2). Estima-se que ele acumule cerca de 2 mutações por mês, mas a maioria das novas variantes não tem impacto real na pandemia. 

Porém, um pequeno número de mutações pode fornecer novas características para o vírus que alteram a forma como ele se propaga entre nós, como nosso organismo reage e como pode responder à infecção.

Por isso, desde o início da pandemia existem programas de vigilância genômica com compartilhamento de dados e plataformas colaborativas online que permitem o rastreamento em tempo real da emergência e disseminação dessas novas cepas. (1)

Um exemplo foi a mutação D614G. No início da pandemia, a maioria dos vírus tinha um ácido aspártico (representado pela letra D) na posição 614, contudo, desde março de 2020 têm se observado o aminoácido glicina (G) nessa posição. Essa nova variante se espalhou rapidamente pela Europa e América do Norte e demonstrou ter maior capacidade de promover infecção (1).

 

As novas variantes do SARS-CoV-2

No Brasil, a epidemia de SARS-CoV-2 foi dominada por duas variantes: B.1.1.28 e B.1.1.33, que também estavam prevalentes na maioria dos outros países (2, 3, 4). 

No final de 2020, duas “variantes de preocupação” (VOC, entenda melhor esse termo abaixo) do SARS-CoV-2 foram descobertas: 

  • Cepa B.1.351, relatada pela primeira vez na África do Sul;
  • Cepa B.1.1.7, detectada no Reino Unido (2, 3). 

Ambas as variantes foram transmitidas rapidamente e se espalharam para outras regiões.  As análises indicam que B.1.1.7 tem maior transmissibilidade e causa quadros mais graves em comparação com linhagens que circulavam anteriormente no Reino Unido (2).

Em janeiro de 2021, pesquisadores brasileiros identificaram subgrupos da B.1.1.28, com mutações comuns àquelas detectadas no Reino Unido e na África do Sul: as variantes foram chamadas de P.1 e P.2.

O subgrupo P.1 foi detectado pela primeira vez em viajantes japoneses retornando do estado do Amazonas. O subgrupo P.2 foi detectado pela primeira vez no Rio de Janeiro. 

Ambas possuem mutações de grande importância na proteína S (no domínio de ligação ao receptor da proteína S), a região do vírus que viabiliza a entrada do vírus nas células humanas, entre elas, as mutações K417T, E484K e N501Y (Quadro 1)

Estudos sugerem que a mutação N501Y pode tornar o SARS-CoV-2 mais contagioso (5) e a mutação E484K parece reduzir a ação de anticorpos de quem teve a doença anteriormente, aumentando a chance de reinfecção e, possivelmente, reduzindo a eficácia de vacinas (Quadro 1) (5, 6).

O surgimento da variante P.1 foi responsável pela segunda onda de infecções em Manaus no final de 2020 e início de 2021, que causou um colapso no sistema público de saúde no estado do Amazonas (3).

 

Conheça as atuais variantes de preocupação

Quadro 1: Lista das variantes de preocupação (VOC) identificadas e confirmadas mundialmente. Fonte: Centro de controle e prevenção de doenças dos Estados Unidos.

#UPDATE – Maio 2021

Em maio, uma nova variante foi declarada como ‘variante de preocupação’. Encontrada primeiramente na India em dezembro de 2020, a VOC B.1.617 já foi detectada em outros 50 países, incluindo, recentemente, o Brasil. A variante indiana também está sendo chamada de “double mutant” (duplo mutante) pois apresenta duas mutações da proteína S: E484Q (similar a E484K) e a L452R, também presente na VOC B.1.429. 

 

Classificação das variantes

O que significa os termos que estão sendo usados, como “variante de preocupação“?

Alguns órgãos do governo americano, incluindo o NIH (National Institutes of Health) e o FDA (US Food and Drug Administration), se uniram para monitorar e caracterizar ativamente as novas variantes, na tentativa de calcular o impacto potencial delas nas medidas de controle da pandemia, como nas vacinas e nos exames de diagnóstico.

Foi estabelecido um esquema de classificação para as variantes do SARS-CoV-2 que incluem definições e atributos que podem ser alterados conforme novas informações surjam. 

OBS: A Organização Mundial da Saúde (OMS) e os sistemas de saúde de outros países também possuem classificações para o vírus que podem diferir da classificação dos EUA, pois a importância das variantes pode variar de acordo com a localização.

 

  • Variante de interesse (Variant of Interest, VOI)

Refere-se àquelas variantes que possuem marcadores genéticos que podem afetar a transmissibilidade do vírus, o seu diagnóstico, tratamentos ou que podem fazer o vírus escapar do sistema imunológico (escapam dos anticorpos gerados contra infecção ou vacinação anterior,além de apresentarem evidências que demonstrem ser a causa de um aumento na proporção de casos ou grupos únicos de surtos.

B.1.526 (New York/EUA), B.1.525 (New York/EUA) P.2 (Brasil)

 

  • Variante de preocupação (Variant of Concern, VOC)

Refere-se àquelas variantes que possuem evidências de aumento da transmissibilidade, doença mais grave (aumento de hospitalizações e/ou óbitos), redução significativa da neutralização por anticorpos gerados por infecção anterior ou vacinação, eficácia reduzida de tratamentos ou vacinas, ou falhas na detecção de diagnóstico.

→ B.1.1.7 (Reino Unido), P.1 (Japão e Brasil), B.1.351 (África do Sul), B.1.427 (Califória/EUA),  B.1.429 (Califória/EUA)

 

Possíveis atributos de uma variante de preocupação:

  • Atributos de uma variante de interesse (VOI)
  • Evidência de impacto em diagnósticos, tratamentos e vacinas
  • Interferência generalizada com alvos de teste de diagnóstico
  • Evidência de resistência substancialmente aumentada a uma ou mais classes de terapias
  • Evidência de redução significativa da neutralização por anticorpos gerados porinfecção anterior ou vacinação
  • Evidência de redução da proteção induzida pela vacina contra doenças graves
  • Evidência de maior transmissibilidade
  • Evidência de aumento da gravidade da doença

 

  • Variante de alta consequência (Variant of High Consequence)

Uma variante de consequência alta apresenta evidências claras de que reduz significativamente a eficácia das medidas de prevenção e controle, como testes de diagnóstico e vacinas.

Atualmente não há variantes do SARS-CoV-2 que aumentem para o nível de consequência alta.

 

O exame de diagnóstico molecular de COVID-19 da Mendelics

Teste de RT-LAMP #PARECOVID

Os exames que detectam o material genético do vírus são a principal ferramenta para diagnóstico de infecções.

Em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, a Mendelics desenvolveu um teste chamado #PARECOVID, baseado em amostras de saliva, que amplifica (copia) o material genético do vírus pela técnica de RT-LAMP.

O teste utiliza no seu procedimento alvos (primers) do genoma viral localizados da proteína N, em regiões diferentes das regiões mutadas nas cepas do Reino Unido, África do Sul e nas linhagens brasileiras P.1 e P.2.

Portanto, o teste #PARECOVID é capaz de identificar com igual precisão as novas linhagens de importância clínica recentemente relatadas.

 


Referências

  1. Lauring AS, Hodcroft EB. Genetic Variants of SARS-CoV-2—What Do They Mean? JAMA. 2021;325(6):529–531. doi:10.1001/jama.2020.27124
  2. The United States Centers for Disease Control and Prevention
  3. Faria NR, Mellan TA, Whittaker C, et al. Genomics and epidemiology of the P.1 SARS-CoV-2 lineage in Manaus, Brazil [published online ahead of print, 2021 Apr 14]. Science. 2021;eabh2644. doi:10.1126/science.abh2644
  4. A potential SARS-CoV-2 variant of interest (VOI) harboring mutation E484K in the Spike protein was identified within lineage B.1.1.33 circulating in Brazil
  5. The N501Y spike substitution enhances SARS-CoV-2 transmission. Yang LiuJianying LiuKenneth S. Plante, et al.
  6. Jangra S, Ye C, Rathnasinghe R, et al. SARS-CoV-2 spike E484K mutation reduces antibody neutralisation [published online ahead of print, 2021 Apr 7]. Lancet Microbe. 2021;10.1016/S2666-5247(21)00068-9. doi:10.1016/S2666-5247(21)00068-9
Um ano de pandemia da COVID-19: O que aprendemos?

Um ano de pandemia da COVID-19: O que aprendemos?

Tópicos

1. Um ano de pandemia 
2. Um breve histórico da doença 
3. O que aprendemos?
   - Isolamento social
   - Uso de Máscaras
   - Vacinação
   - Novas variantes
   - Testagem em massa
   - Porcentagem de testes positivos para COVID-19 
   - Novas variantes x sensibilidade dos testes
4. Esperança

 

Um ano de pandemia 

Há um ano, em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarava que a COVID-19 era uma pandemia. Na mesma semana, o Brasil registrou a primeira morte pela doença e, após um ano, superamos a marca de mais de 3 mil mortes diárias (1).

Muitos estudos sobre o novo coronavírus foram realizados desde então e mais de 100 vacinas começaram a ser desenvolvidas, sendo algumas já aprovadas e em uso em diversos países.

Simultaneamente ao desenvolvimento das vacinas, novas variantes do Sars-Cov-2 surgiram, desafiando ainda mais o controle da pandemia e o nosso entendimento sobre a doença.

Hoje, o Brasil é o segundo país do mundo com mais casos e com mais mortes registradas, atrás apenas dos Estados Unidos (2). A esperança mundial está depositada sobre as vacinas, com a expectativa para um retorno ao ‘novo normal’.

 

Um breve histórico da doença

Ilustração Blog Mendelics – Timeline Covid-19

 

O que aprendemos?

A importância da testagem em massa, vacinação, uso de máscara e isolamento social

 

Isolamento social

A importância e eficácia do isolamento social no país pode ser facilmente demonstrada com a experiência de Araraquara (SP) e no Estado do Amazonas, onde houve um aumento de casos repentino, que em poucos dias causou lotação dos hospitais e a taxa de ocupação dos leitos de UTI chegou a 100%, falta de insumos, como oxigênio, e recorde de mortes. 

A prefeitura de Araraquara e o governo do Amazonas decretaram um lockdown rigoroso e após uma semana de confinamento da população geral, tanto a taxa de transmissão quanto a média móvel de casos reduziram (11).

No mundo, países como a Nova Zelândia, Austrália e Coreia do Sul adotaram o lockdown desde o início e conseguiram controlar a dispersão do vírus (2).

 

Uso de Máscaras

No primeiro semestre de 2020 ainda não estava claro a real importância do uso de máscaras. A efetividade do uso das máscaras no controle da COVID-19 foi se mostrando à medida que também compreendemos (e foi comprovado cientificamente) que pessoas assintomáticas e pré-sintomáticas são fortes disseminadores do vírus (5, 7). 

A OMS e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos publicaram no último mês (fevereiro de 2021) uma série de recomendações sobre o uso de máscaras, que incluem evidências científicas e vídeos explicativos (5, 12).

 

Vacinação

Em menos de 12 meses após o início da pandemia de COVID-19, vários centros de pesquisa enfrentaram o desafio e desenvolveram vacinas (8).

Agora, o desafio é disponibilizar essas vacinas para pessoas em todo o mundo. 

No Brasil, a vacinação começou logo após a aprovação do uso emergencial da Anvisa (10) e até o momento, cerca de 9% da população recebeu ao menos 1 dose (13). Por enquanto, duas vacinas foram aprovadas para uso emergencial e estão sendo aplicadas: a CoronaVac da Sinovac com o Instituto Butantan e a vacina desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) (10).

Recentemente, a Anvisa aprovou o pedido de registro da vacina da Pfizer/BioNTech. (10) 

Saiba mais sobre as vacinas aqui.

 

Novas variantes

Mutações em vírus acontecem o tempo todo. Quanto mais pessoas infectadas, mais variantes aparecem. O SARS-CoV-2 acumula cerca de 2 mutações por mês, mas a maioria das novas linhagens não tem impacto real na pandemia (14). 

Porém, no final de 2020, novas linhagens foram encontradas no Reino Unido (B.1.1.7) e na África do Sul (B.1.351) e mostraram ter um impacto significativo (14).

No Brasil, a linhagem SARS-CoV-2 B.1.1.28 está circulando desde fevereiro de 2020 sem grande relevância epidemiológica. Em janeiro de 2021, pesquisadores brasileiros identificaram subgrupos da B.1.1.28 com mutações na proteína S comum àquelas detectadas no Reino Unido e na África do Sul (15, 16).

Atualmente, há pelo menos três variantes que surgiram no Brasil e chamam a atenção: O subgrupo P.1, detectado pela primeira vez em viajantes japoneses retornando do Amazonas; o subgrupo P.2, detectado pela primeira vez no Rio de Janeiro; e a recentemente identificada, N9: todas possuem potenciais mutações na proteína S, a espícula viral que viabiliza a entrada do vírus na célula (15, 16). 

O surgimento de novas variantes classificadas como ‘variantes de preocupação (VOC: Variant of Concern) – variantes que demonstram ser mais  transmissíveis, causarem a COVID-19 mais grave e reduzirem a ação do sistema imune pós-infecção e/ou vacinação, colocaram o Brasil no foco mundial de controle da pandemia (14-17). 

 

Testagem em massa

Ainda no início em 2020, a testagem em massa se mostrava como um possível caminho para o retorno seguro de escolas e empresas. Alguns estudos demonstraram que testes realizados frequentemente em curtos intervalos de tempo e com rapidez na entrega dos resultados ajudariam a identificar assintomáticos e pré-sintomáticos, sendo uma estratégia para reduzir a transmissão da doença e impedir o surgimento de novos surtos (18, 19). 

Com a missão de democratizar o acesso a testes para COVID-19 para todos que necessitam, em junho de 2020, a Mendelics lançou um teste molecular de desenvolvimento próprio chamado #PARECOVID. Através da técnica de RT-LAMP, o teste mostra se a pessoa está infectada pela identificação do RNA do vírus SARS-CoV-2 na saliva (6, 9). 

O #PARECOVID é o teste molecular mais acessível, com qualidade comparável ao RT-PCR, lançado no Brasil até o momento, com capacidade de testagem diária de até 110.000 amostras, e resultados disponibilizados em até 24 horas (6). 

Um recente estudo comparativo publicado na revista científica Lancet Public Health (20) demonstrou que programas de testagem de SARS-CoV-2 mais frequentes e rápidos em comunidades, juntamente ao isolamento de indivíduos positivos, é essencial para mitigar a pandemia de COVID-19.

 

Tabela de porcentagem de testes positivos para COVID-19 semana a semana desde o início da testagem 

Em meados de agosto de 2020, o Brasil iniciou o processo de afrouxamento das medidas de isolamento social, iniciadas em março, quando o número de casos da COVID-19 passou a aumentar exponencialmente

Em outubro, a porcentagem de testes positivos tinha reduzido drasticamente, chegando a uma marca de 1%. Em novembro, após alguns feriados nacionais, essa porcentagem voltou a subir.

Em março de 2021, chegamos ao pior cenário da pandemia: mais de 84 mil casos e quase 4 mil mortes por dia. A taxa de resultados positivos semanal no laboratório chegou ao pico de 5%, refletindo a situação de todo o Estado de São Paulo, que chegou ao colapso nos hospitais. Com isso, o governo decretou medidas mais restritivas em todo o estado de São Paulo e, na última semana, começamos a ver uma queda nos números.

covid semana

Fonte: Dados próprios da Mendelics com base nos testes de #PARECOVID realizados frequentemente em empresas no Brasil, com maior concentração no Estado de São Paulo.

 

Novas variantes x sensibilidade dos testes

Recentemente, o FDA (Food and Drugs Administration) publicou um documento intitulado “Genetic Variants of SARS-CoV-2 May Lead to False Negative Results with Molecular Tests for Detection of SARS-CoV-2 – Letter to Clinical Laboratory Staff and Health Care Providers” (21) onde alerta sobre a capacidade das variantes novas escaparem da detecção dos testes de RT-PCR. No documento, o FDA lista três kits de testes de RT-PCR de grandes fabricantes que demonstraram este risco, dois destes muito usados por grandes laboratórios no Brasil. 

Para contornar esse problema, a Mendelics realizou um estudo aprofundado dos alvos moleculares utilizados na detecção do coronavírus e confirmou que as 3 variantes mais perigosas (B.1.1.7, B.1.351 e P.1 – Inglaterra, África do Sul e Manaus) são detectadas pelo teste #PARECOVID, sem prejuízos à especificidade/sensibilidade do teste.

 

Esperança

Após um ano de pandemia, entendemos que métodos de testagem escaláveis e econômicos, como o #PARECOVID, são uma ferramenta essencial para controlar a disseminação de SARS-CoV-2, aliado aos cuidados básicos de higiene, uso de máscaras e distanciamento social estamos atuando no controle da disseminação do vírus e impedindo novos surtos da COVID-19. 

A esperança para esse novo ano de enfrentamento da pandemia está aliado à vacinação da população.

Proteja a sua saúde e a da sua família.

 


Referências

  1. OMS declara pandemia de coronavirus 
  2. Coronavirus World Map
  3. COVID-19 no Brasil
  4. Sequenciamento do vírus no Brasil em 48h
  5. OMS indica o uso de máscaras
  6. Asprino et al. A Scalable Saliva-based, Extraction-free RT-LAMP Protocol for SARS-Cov-2 Diagnosis, https://doi.org/10.1101/2020.10.27.20220541
  7. Seyed M. et al.The implications of silent transmission for the control of COVID-19 outbreaks. Proceedings of the National Academy of Sciences Jul 2020, 117 (30) 17513-17515. 
  8. Vaccine Tracker 
  9. https://blog.mendelics.com.br/abertura-de-protocolo-do-parecovid-rt-lamp/
  10. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas
  11. https://www.gazetadopovo.com.br/republica/lockdown-medidas-restritivas-casos-covid-19-resultados-amazonas-araraquara/
  12. Guidance for Wearing Masks 
  13. https://especiais.g1.globo.com/bemestar/vacina/2021/mapa-brasil-vacina-covid/
  14. SARS-CoV-2 Variant Classifications and Definitions 
  15. Felipe Naveca, Valdinete Nascimento, Victor Souza et al. COVID-19 epidemic in the Brazilian state of Amazonas was driven by long-term persistence of endemic SARS-CoV-2 lineages and the recent emergence of the new Variant of Concern P.1, 25 February 2021, PREPRINT (Version 1) available at Research Square [https://doi.org/10.21203/rs.3.rs-275494/v1]
  16. Faria NR, et al. Genomics and epidemiology of a novel SARS-CoV-2 lineage in Manaus, Brazil. medRxiv [Preprint]. 2021 Mar 3:2021.02.26.21252554. doi: 10.1101/2021.02.26.21252554. 
  17. https://saude.abril.com.br/medicina/brasil-um-possivel-celeiro-de-novas-variantes-do-coronavirus/
  18.  Paltiel AD, Zheng A, Walensky RP. Assessment of SARS-CoV-2 Screening Strategies to Permit the Safe Reopening of College Campuses in the United States. JAMA Netw Open. 2020;3(7):e2016818.
  19. Larremore DB, Wilder B, Lester E, et al. Test sensitivity is secondary to frequency and turnaround time for COVID-19 surveillance. Preprint. medRxiv. 2020;2020.06.22.20136309
  20. Du Z, Pandey A, et al. Comparative cost-effectiveness of SARS-CoV-2 testing strategies in the USA: a modelling study. Lancet Public Health. 2021 Mar;6(3):e184-e191. doi: 10.1016/S2468-2667(21)00002-5.
  21. Genetic Variants of SARS-CoV-2 May Lead to False Negative Results with Molecular Tests for Detection of SARS-CoV-2 – Letter to Clinical Laboratory Staff and Health Care Providers 
A importância da saliva para a COVID-19

A importância da saliva para a COVID-19

Carga viral na saliva e COVID-19

De acordo com novos estudos, testes de SARS-CoV-2 na saliva são mais sensíveis e baratos dos que os testes em amostras de nasofaringe e, além disso, também podem indicar como a doença de um paciente com coronavírus irá se desenvolver. 

Teste para COVID-19

Desde o início da pandemia do SARS-CoV-2, estudos científicos demonstraram que a testar continuamente a população era a melhor forma de garantir o retorno seguro das atividades. A testagem em massa identifica assintomáticos e pré-sintomáticos e é a melhor estratégia para reduzir a transmissão da COVID-19 e impedir novos surtos.

A maioria dos testes diagnósticos de COVID-19, como o RT-PCR, são feitos a partir da coleta de swab nasofaríngeo, no qual um cotonete é introduzido na garganta ou no nariz do paciente. 

Esse tipo de coleta causa desconforto nos pacientes e aumenta o risco de contaminação dos profissionais de saúde.

No início de 2020 houve uma enorme demanda mundial de testagem, o que causou a escassez do kit de coleta de swab em todo o mercado. A falta de insumos para os testes de RT-PCR por swab nasofaríngeo também contribuíram para a limitação da capacidade de testagem no Brasil.

Concomitantemente, se tornou crescente o desenvolvimento de testes de detecção do SARS-CoV-2 pela saliva. A Mendelics desenvolveu, em maio de 2020, o primeiro teste em amostra de saliva do Brasil, o #PARECOVID

O teste na saliva é mais sensível e custa menos 

A escolha da saliva foi embasada por artigos que demonstraram que a saliva é tão eficaz e sensível quanto amostras nasofaríngeas para identificar o SARS-CoV-2. 

Muitos estudos já apontaram os benefícios do teste na saliva. Recentemente, em janeiro de 2021, uma revisão sistemática e meta-análise realizada por pesquisadores da universidade de McGill, no Canadá, concluiu que testes com saliva são tão eficazes quanto com swab nasal. O grupo incluiu na pesquisa 37 estudos que incluíam ≥5 amostras pareadas de swab nasofaríngeo e saliva (1). 

Além disso, os pesquisadores analisaram os custos associados aos dois tipos de coleta (swabs, meios de transporte, recipientes e equipamentos de proteção individual). O resultado demonstrou que, além do teste na saliva ser mais sensível, também custa menos do que o teste que utiliza swab nasofaríngeo (1).

 

A saliva pode indicar gravidade da COVID-19

Desde o início da pandemia de COVID-19, um dos maiores desafios para médicos, cientistas e especialistas da área é compreender a grande variabilidade de sintomas associados à infecção por SARS-CoV-2, e identificar uma correlação clínica que explique os casos graves e a mortalidade.

Nesse ínterim, variantes genéticas em genes do sistema de grupos sanguíneos ABO e em genes associados à resposta imune inata e aos processos inflamatórios foram associadas aos casos mais graves de COVID-19. 

Outros estudos analisaram a carga viral em amostras corporais, como: nasofaringe, expectoração, saliva, plasma, urina e fezes de modo a identificar uma correlação com o desfecho clínico em cada caso. Alguns desses estudos, observaram associação entre a carga viral nasofaríngea e aspectos específicos da COVID-19. 

Na tentativa de identificar um fator clínico capaz de distinguir casos leves e graves da COVID-19, cientistas da Universidade de Yale e colaboradores buscaram possíveis associações entre a carga viral na saliva e parâmetros importantes da doença (4).

Na pesquisa científica descrita no artigo publicado na medRxiv em janeiro “Saliva viral load is a dynamic unifying correlate of COVID-19 severity and mortality”, os pesquisadores analisaram a carga viral de amostras de saliva e da nasofaringe ao longo do tempo e as correlacionaram com dados demográficos do paciente e com alguns aspectos biológicos (2). 

 

A carga viral na saliva é uma importante medida clínica

Foram incluídos no estudo, 172 pessoas com COVID-19 classificadas conforme gravidade dos sintomas, incluindo um grupo de pessoas não-hospitalizadas (109), com a doença moderada  (81), grave (42) e fatal (23 pessoas morreram durante o estudo). Como grupo controle foram incluídos 108 profissionais da saúde não infectados.

Os resultados do estudo demonstraram que a carga viral da nasofaringe não é equivalente à saliva em processos de doença na COVID-19 e que a carga viral medida pela saliva está associada a forma de apresentação da COVID-19, sua gravidade e sua mortalidade ao longo do tempo.

Os cientistas observaram que a carga viral da saliva estava significativamente maior em pacientes com fatores de risco para COVID-19, como hipertensão e doença pulmonar crônica, e que se correlacionava com níveis crescentes de gravidade da doença demonstrando ser um bom preditor de morbidade ao longo do tempo.

Ao analisar aspectos biológicos mais específicos, como fatores imunológicos e celulares, os cientistas observaram preditores de alta e baixa carga viral na saliva, que estão associados com aumento da gravidade da doença ou com melhores desfechos. 

Esses preditores são, por exemplo, marcadores de inflamação já bem conhecidos, como as interleucinas (IL-6, IL-18, IL-10 e CXCL10). No estudo, essas interleucinas se mostraram positivamente associadas a carga viral na saliva. Isto é, quanto mais vírus na saliva, mais inflamação. 

Outros preditores observados foram as plaquetas, linfócitos e alguns subconjuntos de células T, que diminuem progressivamente à medida que a carga viral aumenta, demonstrando um papel fundamental na resposta humoral contra a replicação do vírus.

O artigo também descreveu uma correlação negativa entre carga viral e anticorpos IgG. Pacientes com COVID-19 fatal exibiram cargas virais mais elevadas, que se correlacionaram com a diminuição da quantidade de um subgrupo de células T e produção mais baixa de níveis de alguns tipos de anticorpos IgG (anti-proteína Spike (S) e anti-domínio de ligação ao receptor (RBD)).

De modo geral, o artigo revela um importante papel da carga viral da saliva como uma medida clínica de gravidade da doença e mortalidade da COVID-19 e, também, ressalta a importância do monitoramento da carga viral desde o início dos sintomas da COVID-19.

 


Referências

  1.  Bastos ML, Perlman-Arrow S, Menzies D, Campbell JR. The Sensitivity and Costs of Testing for SARS-CoV-2 Infection With Saliva Versus Nasopharyngeal Swabs : A Systematic Review and Meta-analysis. Ann Intern Med. 2021 Jan 12. doi: 10.7326/M20-6569. Epub ahead of print. PMID: 33428446.
  2. Silva J, Lucas C, Sundaram M, Israelow B, Wong P, Klein J, Tokuyama M, Lu P, Venkataraman A, Liu F, Mao T, Oh JE, Park A, Casanovas-Massana A, Vogels CBF, Muenker CM, Zell J, Fournier JB, Campbell M, Chiorazzi M, Ruiz Fuentes E, Petrone M, Kalinich CC, Ott IM, Watkins A, Moore AJ, Nakahata MI, Grubaugh ND, Farhadian S, Dela Cruz C, Ko A, Schulz WL, Ring AM, Ma S, Omer S, Wyllie AL, Iwasaki A. Saliva viral load is a dynamic unifying correlate of COVID-19 severity and mortality. medRxiv [Preprint]. 2021 Jan 10:2021.01.04.21249236. doi: 10.1101/2021.01.04.21249236. PMID: 33442706; PMCID: PMC7805468.