Atrofia Muscular Espinhal: o impacto da genômica em 130 anos de pesquisas

Atrofia Muscular Espinhal: o impacto da genômica em 130 anos de pesquisas

A AME – Atrofia Muscular Espinhal

A atrofia muscular espinhal (AME) é uma doença genética progressiva que afeta aproximadamente um em cada 10.000 nascidos vivos no mundo e é a principal causa genética de óbitos em bebês.

Em pessoas com AME, a falta de uma proteína importante, a SMN, leva à morte de neurônios que transmitem mensagens para os músculos. Como resultado, os sinais cerebrais não chegam à musculatura, que enfraquece e atrofia, resultando em problemas graves que afetam funções básicas do organismo como respirar, andar, falar e se alimentar. 

Os sintomas da AME geralmente se manifestam na infância e vão se agravando rapidamente com o tempo. Caso não haja tratamento, a maioria das crianças não atinge os dois anos de idade. Por isso o diagnóstico e, principalmente, tratamento precoces,  são essenciais para garantir uma melhor qualidade de vida para a criança.

Felizmente, as pesquisas científicas, intensificadas pelo estudo do genoma e as novas tecnologias de manipulação do DNA, permitiram o desenvolvimento e avanço de terapias que impactam o histórico natural da doença e qualidade de vida das pessoas com AME.

Conheça os marcos históricos dessa doença nesse post.

Se você desejar saber mais sobre a AME, incluindo suas diferentes classificações, causas e diagnóstico, leia esse artigo.

 

AME – 130 anos de pesquisas científicas

 

tabela com os prinicpais marcos históricos da doença AME

 

 

Anos 1890s –  A descoberta da AME

A AME foi descrita pela primeira vez por dois cientistas, Johann Hoffman e Guido Werdnig, que observaram vários casos de bebês que desenvolveram fraqueza muscular nos primeiros meses de vida. Eles perceberam que células do neurônio motor nesses bebês pareciam degenerar e também notaram que essa condição parecia ser familiar (hereditária).

Os estudos desses dois cientistas levaram à identificação da AME e por isso, até hoje, a AME infantil (tipo 0 e I) é conhecida como doença de Werdnig-Hoffman.

 

1956 – Descoberta da AME juvenil (no adulto)

Algumas décadas depois, dois outros cientistas, Erik Kugelberg e Lisa Welander, conseguiram diferenciar as formas de início tardio da AME de outras doenças semelhantes, como a distrofia muscular. Por isso, a AME tipo 3 também é chamada doença de Kugelberg-Welander.

 

1995 – Descoberta do gene SMN1

A sequência do gene 1 do neurônio motor de sobrevivência (SMN1) foi descrita pela Dra. Judith Melki e sua equipe, que também demonstraram que esse gene estava deletado ou alterado em pessoas com AME. Além disso, a equipe identificou o gene SMN2, associado às diferentes gravidades da AME. 

Fatos importantes

→ Em 1953, o modelo de dupla-hélice do DNA foi proposto pelos cientistas James D. Watson e Francis Crick. A descoberta rendeu aos pesquisadores o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, e permitiu um avanço no estudo do DNA e genes causadores de doenças, como o SMN1 e SMN2.

A descoberta do gene SMN1 foi fundamental para permitir o diagnóstico genético da AME. Antes disso, o diagnóstico era feito com base nos sinais e sintomas clínicos do paciente. 

→ A descoberta do SMN1 e SMN2 permitiu o estudo e desenvolvimento de tratamentos para AME.

 

2003 – início dos estudos para terapia gênica

Quatro anos após a identificação do SMN2, outro grupo de pesquisadores descreveram as alterações nesse gene que estão associadas a AME.  A partir disso, estudos visando a “correção” do gene se iniciaram.

Esses estudos levaram  a descoberta e o desenvolvimento do primeiro medicamento  que tem como alvo a causa genética subjacente da AME, o Spinraza (Nusinersen), que ajuda o organismo a produzir mais proteínas SMN a partir do SMN2

 

2016 – Aprovação do primeiro medicamento que trata a causa genética da AME

 A comunidade global da AME comemorou a aprovação do primeiro tratamento baseado em terapia gênica, o Nusinersen, pela Food & Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos. 

→ Depois de 100 anos da descoberta da doença, este foi um marco histórico, possibilitado pelo empenho dos pesquisadores, investimentos e apoio da sociedade. Até então a expectativa de vida de pessoas com AME era muito baixa, até poucos meses de vida. Com o novo tratamento é possível observar saltos no desenvolvimento de muitos bebês em tratamento, como sentar e andar sem apoio e não necessitar de ventilação.

 

2017 – Tratamento para AME no Brasil

Pacientes brasileiros puderam comemorar a aprovação e Registro do Nusinersen pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

 

2019 – Tratamento no SUS

O Ministério da Saúde inseriu o Nusinersen para AME tipo I no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), disponibilizando o tratamento pelo SUS. 

Crianças com os tipos II e III podem obter o tratamento na modalidade compartilhamento de risco, onde o governo paga pelo medicamento somente se houver melhora da saúde do paciente.

 

2020 – Novas terapias no Brasil 

A ANVISA aprovou o registro de dois outros medicamentos com base em terapia gênica, que corrigem a falta do SMN1 e do SMN2. Ambos ainda não estão disponíveis no SUS.

 

2021 – Inclusão da AME no Teste do Pezinho e data comemorativa

O Governo Federal aprovou o Projeto de Lei (PL 5.043/2020) de ampliação do Teste do Pezinho do SUS. De seis doenças, agora a triagem será para 53 doenças, incluindo AME. 

A triagem neonatal da AME representa um enorme avanço para o tratamento da doença, que é progressiva e por isso necessita de um diagnóstico o mais cedo possível. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais cedo o tratamento pode ser iniciado, evitando o avanço e agravamento dos sintomas.

Além disso, o Governo Federal também sancionou  a Lei 14.062, que institui o 8 de agosto como Dia Nacional da Pessoa com Atrofia Muscular Espinhal

 

Triagem Neonatal Genética

Apesar da implementação da AME na triagem neonatal do SUS só acontecer a partir de 2022, a doença, já há algum tempo, faz parte do Teste da Bochechinha, o teste de triagem neonatal genética desenvolvido pela Mendelics que complementa o Teste do Pezinho.

Utilizando a tecnologia de Sequenciamento de Nova Geração (NGS), o Teste da Bochechinha analisa os genes associados a AME e a outras mais de 320 doenças genéticas graves e tratáveis.

Porém, por ser um teste de triagem, o Teste da Bochechinha só é indicado para crianças sem sintomas. Quando a criança (ou pessoa de qualquer idade) tem algum sintoma de AME, recomenda-se realizar um exame genético de diagnóstico para confirmar a suspeita médica. 

A Mendelics oferece exames genéticos para diagnóstico da AME, incluindo o MLPA, Painel de Doenças Tratáveis e o Exame de Sequenciamento dos genes SMN1 e SMN2.  

Se quiser saber mais sobre a AME e sobre os exames de diagnóstico genético deixe sua pergunta nos comentários abaixo ou entre em contato com a nossa equipe pelo telefone (11) 5096-6001 ou através do nosso site.

 


Referências

  1. Prior TW, Leach ME, Finanger E. Spinal Muscular Atrophy. 2000 Feb 24 [Updated 2019 Nov 14]. In: Adam MP, Ardinger HH, Pagon RA, et al., editors. GeneReviews® [Internet]. Seattle (WA): University of Washington, Seattle; 1993-2020. 
  2. Talbot K, Tizzano EF. The clinical landscape for SMA in a new therapeutic era. Gene Ther. 2017;24(9):529-533. doi:10.1038/gt.2017.52
  3. The discovery of SMA
  4. PCDT Atrofia-Muscular-Espinhal-5q-Tipo-I
  5. Ministério da Saúde Atrofia Muscular-Espinhal-AME
  6. INAME – Tratamentos da AME