Raquitismo Hipofosfatêmico: genética, diagnóstico e tratamento

Raquitismo Hipofosfatêmico: genética, diagnóstico e tratamento

Raquitismo hipofosfatêmico: o que é?

O raquitismo hipofosfatêmico é uma doença rara e progressiva causada por uma falha renal que leva a baixos níveis de fosfato no sangue (hipofosfatemia), fazendo com que os ossos se tornem dolorosamente moles e se dobrem facilmente. 

Se não tratada, especialmente durante o desenvolvimento ósseo da criança, leva a alterações irreversíveis nos ossos e nos dentes. No entanto, seguindo o tratamento apropriado, as crianças afetadas pela doença podem ter uma vida longa e saudável.

O que é Raquitismo?

Raquitismo é uma doença óssea da infância caracterizada por um defeito na mineralização óssea que leva a anormalidades da cartilagem da placa de crescimento, observadas predominantemente em ossos longos. Pode ocorrer devido à deficiência de cálcio, fósforo ou vitamina D.

O raquitismo hipofosfatêmico foi descrito pela primeira vez como raquitismo resistente à vitamina D por Fuller Albright porque um paciente não respondeu ao tratamento com vitamina D. Naquela época, a deficiência de vitamina D era a causa mais comum de raquitismo. Já o raquitismo hipofosfatêmico é causado por mutações em genes envolvidos na regulação do fosfato.

 

Raquitismo hipofosfatêmico (XLH) é uma doença rara que torna os ossos moles e dobráveis. Entenda a importância do diagnóstico genético no tratamento.

Entenda mais sobre as doenças esqueléticas hereditárias neste artigo.

 

Quais os sintomas do raquitismo hipofosfatêmico?

Os sintomas aparecem logo nos primeiros anos de vida, ficando mais evidentes após a criança começar a andar, e podem variar em gravidade, mesmo entre membros afetados de uma mesma família. 

Formas graves podem causar dor nos ossos e nas articulações, desenvolvimento de ossos frágeis, curvatura das pernas e outras deformidades ósseas e baixa estatura. Alguns bebês afetados podem apresentar craniossinostose, ou seja, o fechamento precoce das suturas cranianas, podendo afetar o desenvolvimento da criança

Por ser uma doença progressiva, se não for tratada, os sintomas pioram com o tempo.

 

O que causa o raquitismo hipofosfatêmico?

O raquitismo hipofosfatêmico é quase sempre genético e hereditário, ou seja, causado por mutações herdadas dos pais. 

Em casos raros, a doença se desenvolve como resultado de certos tipos de câncer, como tumores de células gigantes do osso, sarcomas, câncer de próstata e câncer de mama.

A doença ocorre devido a um desequilíbrio de fosfato no organismo que, entre suas muitas funções, desempenha um papel crítico na formação e crescimento dos ossos na infância e ajuda a manter a resistência óssea em adultos. 

Normalmente, os níveis de fosfato no organismo são controlados em grande parte pelos rins: quando está em excesso é excretado na urina e quando seus níveis estão baixos é reabsorvido.

No entanto, em pessoas com raquitismo hipofosfatêmico, os rins não realizam a reabsorção de fosfato eficientemente, fazendo com que seja excretado na urina além do necessário. Como resultado, não há fosfato suficiente na corrente sanguínea para os ossos se desenvolvam e sejam mantidos adequadamente.

O raquitismo hipofosfatêmico pode ser causado por mutações em vários genes que, em geral, regulam direta ou indiretamente uma proteína que normalmente inibe a capacidade dos rins de reabsorver fosfato no sangue. 

O gene envolvido determina o tipo do raquitismo hipofosfatêmico e a forma como é herdado:

  • O tipo mais comum é o raquitismo hipofosfatêmico ligado ao cromossomo X, causado por uma mutação no gene PHEX
  • Outros genes que podem ser responsáveis ​​pela condição são: CLCN5, DMP1, ENPP1, FGF23 e SLC34A3 e causam a doença seguindo outros padrões de herança: recessiva ligada ao cromossomo X, autossômica dominante ou autossômica recessiva. 

 

Raquitismo Hipofosfatêmico ligado ao cromossomo X

O raquitismo hipofosfatêmico ligado ao cromossomo X (XLH) afeta cerca de 1 a cada 25.000 nascidos vivos e se desenvolve logo nos primeiros anos de vida. Devido aos sintomas serem parecidos, os pacientes costumam ser erroneamente diagnosticados com deficiência de vitamina D, o que atrasa o seu diagnóstico e, consequentemente, o início do tratamento.

O raquitismo hipofosfatêmico ligado ao cromossomo X resulta de mutações no gene PHEX, e é herdado seguindo o padrão dominante ligado ao X (hipofosfatemia ligada ao X), logo: tanto nas mulheres (que têm dois cromossomos X) quanto nos homens (que possuem apenas um cromossomo X), uma cópia alterada do gene é suficiente para causar a doença.

Mulheres afetadas têm 50% de chance de transmitir o gene PHEX mutado para seus filhos, independentemente do sexo. Já os homens afetados vão transmitir o gene mutado para todas as filhas e para nenhum dos seus filhos homens, pois os meninos só recebem o cromossomo Y de seus pais.

Dia 23 de junho é o Dia de Conscientização de Raquitismo Hipofosfatêmico ligado ao X. Conhecida como #XLHDay, a campanha tem como objetivo conscientizar a população sobre a doença e a importância do diagnóstico precoce.

Raquitismo hipofosfatêmico (XLH) é uma doença rara que torna os ossos moles e dobráveis. Entenda a importância do diagnóstico genético no tratamento.

 

 

Qual é o tratamento do raquitismo hipofosfatêmico?

O tratamento do raquitismo hipofosfatêmico depende da causa subjacente e pode ser clínico, medicamentoso e cirúrgico.

No Brasil, desde 2022, o tratamento de pacientes com raquitismo hipofosfatêmico é amparado pelo protocolo clínico e diretrizes terapêuticas (PCDT) e provido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O tratamento convencional para pacientes com XLH era realizado com fosfato e vitamina D, que não tratam diretamente a causa dessa doença. Agora, são elegíveis para receber o tratamento com o medicamento referência, o burosumabe: um anticorpo monoclonal que age nas proteínas associadas à doença, aumentando a reabsorção de fosfato do rim e reduzindo os danos causados pela XLH.

 

Raquitismo Hipofosfatêmico: como é feito o diagnóstico?

Sinais e sintomas clínicos, radiografias ósseas com achados sugestivos e testes bioquímicos alterados indicam uma suspeita da doença, que deve ser confirmada por testes genéticos, através da identificação de mutações no gene PHEX, principalmente.

A Mendelics oferece exames para confirmação do diagnóstico de Raquitismo Hipofosfatêmico, incluindo o Painel de Doenças Tratáveis e o Painel de Doenças Esqueléticas

O raquitismo hipofosfatêmico também é uma das mais de 340 doenças analisadas no Teste da Bochechinha, um teste de triagem neonatal genética desenvolvido pela Mendelics, que pode ser feito logo no primeiro dia de vida do bebê, permitindo que, caso haja uma alteração genética, a criança inicie o tratamento o mais cedo possível.

Converse com o seu médico e entre em contato com nossa equipe para mais informações.

 


Referências

 

Toda doença genética é herdada?

Toda doença genética é herdada?

Doenças genéticas

As doenças genéticas são causadas por uma ou mais alterações permanentes no DNA. Essas alterações podem ser passadas de geração em geração (mutações germinativas), com diferentes padrões de herança, ou surgir espontaneamente durante a vida (mutações somáticas).

Existem centenas de milhares de doenças genéticas e cerca de 10.000 delas são monogênicas, isto é, causadas por alterações em um único gene. 

Mais da metade das doenças monogênicas se manifestam na infância e são, em sua grande maioria, hereditárias, ou seja, transmitidas de pais para filhos.

A boa notícia é que a maioria dessas doenças só se manifesta se a mutação genética for herdada tanto do pai quanto da mãe.

Nesse artigo vamos explicar a diferença entre doença genética e doença hereditária, além dos diferentes padrões de herança.

 

Doenças genéticas não monogênicas

Além das doenças genéticas monogênicas, existem outras tantas doenças genéticas, como a doença de Alzheimer, hipertensão, e câncer, por exemplo, que são causadas por alterações em mais de um gene (poligênicas).

Várias doenças poligênicas podem ser herdadas, como a doença de Alzheimer e a hipertensão, e alguns casos de câncer hereditário (cerca de 10%).

Saiba mais sobre câncer hereditário nesse artigo.

No entanto, o câncer também é um bom exemplo de doença genética não hereditária. Pelo menos 90% dos casos de câncer são esporádicos, ou seja, são causados por mutações somáticas em vários genes e acumuladas ao longo da vida, que não foram herdadas.

Esse acúmulo de mutações pode acontecer por diversos fatores, que podem ser evitados:

  • Exposição excessiva à radiação UV, como a solar
  • Hábito de fumar
  • Exposição excessiva à fumaças (cigarro, poluição)
  • Exposição excessiva à outros compostos cancerígenos (pesticidas, carnes curadas, fontes de radiação

 

 

Doenças genéticas hereditárias

As doenças genéticas hereditárias são aquelas causadas por alterações do DNA que são herdadas de pelo menos um dos pais.

Os seres humanos têm 46 cromossomos, sendo que metade, 23 cromossomos, são herdados da mãe, e a outra metade é herdada do pai. Desses 46 cromossomos, 44 são chamados autossômicos e são encontrados sempre em pares (uma cópia da mãe e uma do pai). Já os outros dois cromossomos são os sexuais, X e Y, sendo que mulheres possuem dois cromossomos X, e os homens um X e um Y.

Pensando nisso, podemos classificar essas doenças de acordo com o padrão de herança, ou seja, a forma como elas precisam ser herdadas para se manifestarem.

 

Padrão de herança autossômico recessivo

As doenças de padrão de herança autossômico recessivo são causadas por um par de alterações genéticas, herdadas tanto do pai quanto da mãe. Esse padrão de herança é o mais comum entre as doenças genéticas raras, compreendendo cerca de 45% delas.

Para doenças com esse padrão de herança podemos ter indivíduos com as duas cópias da alteração causadora, e que serão afetados pela doença, e indivíduos com uma única cópia, os chamados portadores, que, geralmente, não desenvolvem os sintomas mas podem passar a alteração para os filhos, mantendo o risco da doença na família.

  • Se somente o pai ou a mãe é portador, existe 50% de chance do filho receber a alteração e também se tornar portador da doença.
  • Se ambos os pais são portadores, existe 50% de chances da criança ser portadora, 25% de chance de ser afetada pela doença, e 25% de chance de não herdar nenhuma alteração.
Heredograma representando o padrão de herança autossômico recessivo

Figura 1 – Padrão de herança autossômico recessivo

 

Padrão de herança autossômico dominante

Nas doenças de padrão de herança autossômico dominante uma única cópia da alteração, herdada do pai ou da mãe, pode ser suficiente para a manifestação dos sintomas. Esse padrão de herança é menos comum e compreende cerca de 32% das doenças genéticas raras.

É importante notar que existem doenças com esse padrão em que, mesmo herdando uma cópia da alteração, alguns indivíduos não manifestam os sintomas. Isso pode acontecer por diversos motivos, como efeitos ambientais relacionados ao estilo de vida ou mecanismos biológicos que compensam ou anulam o efeito da mutação no organismo. Quando isso acontece, dizemos que a alteração causadora da doença tem penetrância incompleta, ou seja, não afeta todas as pessoas que possuem a mutação.

Representamos abaixo a probabilidade de herança da alteração genética, que pode não corresponder à probabilidade de desenvolver os sintomas.

  • Nesse caso, se somente o pai ou a mãe possui uma cópia da alteração que causa a doença, existe 50% de chance do filho receber a alteração.
  • Se ambos os pais possuírem uma cópia alterada cada um, existe 75% de chances da criança herdar pelo menos uma das cópias alteradas que podem causar a doença, e 25% de chance de não herdar nenhuma alteração.
Heredograma representando o padrão de herança autossômico dominante

Figura 2 – Padrão de herança autossômico dominante

 

Padrão de herança ligado ao X

As doenças de padrão de herança ligado ao X são causadas por alterações genéticas no cromossomo X e portanto, podem ter efeitos diferentes em homens e mulheres. Doenças ligadas à cromossomos sexuais (X e Y) são ainda menos comuns e compreendem somente cerca de 10% das doenças genéticas raras.

 

Padrão de herança recessiva ligada ao X

Como homens só possuem um cromossomo X, uma cópia do gene alterado é suficiente para causar a doença. Já no caso das mulheres, como possuem dois cromossomos X, é necessário herdar a alteração genética de ambos os pais para desenvolver a doença, e se portar uma única cópia, será somente portadora da alteração.

Para doenças com esse padrão de herança, as chances de ter filhos portadores ou afetados varia dependendo de quem possui a mutação, o pai ou a mãe. 

  • Se somente o pai possuir a alteração que causa a doença, existe 50% de chance de ter uma filha portadora e nenhuma chance de ter um filho com a doença.
  • Se a mãe for portadora da mutação, existe 50% de chance de filhas mulheres serem portadoras e 50% dos filhos homens desenvolverem a doença.
  • Se ambos os pais forem portadores, existe 50% de chances dos filhos homens serem afetados pela doença, 50% de chances das filhas mulheres serem afetadas e 50% de serem portadoras.
Heredograma representando o padrão de herança recessivo ligado ao X

Figura 3 – Padrão de herança recessivo ligado ao cromossomo X

 

Padrão de herança dominante ligada ao X

Diferentemente do padrão de herança recessivo, aqui uma cópia alterada pode ser suficiente para afetar tanto homens quanto mulheres. É importante lembrar que esse padrão de herança também pode ter penetrância incompleta, principalmente em mulheres, podendo não manifestar os sintomas em todas as pessoas com a mutação.

Nesse caso, as chances de ter filhos afetados também varia dependendo de quem possui a mutação, o pai ou a mãe. 

  • Se somente o pai possuir a alteração que causa a doença, somente filhas herdarão.
  • Se somente a mãe possuir uma cópia da mutação, existe 50% de chance dos filhos herdarem, independente do sexo.
  • Se somente a mãe for afetada pela doença, possuindo duas cópias da mutação, os filhos herdarão a mutação, independente do sexo.
Heredograma representando o padrão de herança dominante ligado ao cromossomo X

Figura 4 – Padrão de herança dominante ligado ao cromossomo X

 

Padrão de herança ligado ao Y

As doenças de padrão de herança ligado ao Y são causadas por alterações genéticas no cromossomo Y e, portanto, só podem ser transmitidas de pai para filho. Como discutido no tópico anterior, doenças ligadas à cromossomos sexuais (X e Y) são ainda menos comuns e compreendem somente cerca de 10% das doenças genéticas raras.

Heredograma representando o padrão de herança ligado ao Y

Figura 5 – Padrão de herança ligado ao cromossomo Y

 

Toda doença genética é herdada?

Resumindo, existem muitas doenças genéticas, porém nem todas são hereditárias. Muitas doenças são multifatoriais, ou seja, dependem de outros fatores que vão além da genética, como estilo de vida. Além disso, muitas doenças genéticas são poligênicas (causadas por mais de um gene) e, portanto, seu padrão de herança é muito mais complexo. 

As doenças genéticas hereditárias monogênicas seguem os padrões descritos aqui, mas representam um grupo de doenças raras, que afetam cerca de 5% da população.

 

Doenças raras e a Mendelics

Doenças raras podem ser muito difíceis de identificar, levando anos para serem corretamente diagnosticadas. Como o diagnóstico precoce é essencial para um melhor tratamento, testes diagnósticos genéticos são os mais indicados. A Mendelics oferece o Painel de Doenças Tratáveis, que identifica mais de 340 doenças genéticas que possuem tratamento, além de vários outros exames capazes de diagnosticar doenças genéticas.

Além dos exames diagnósticos, já existem testes genéticos capazes de identificar alterações genéticas que causam doenças recessivas em portadores, como o Painel de Triagem de Portador de Mutações de Doenças Recessivas, oferecido pela Mendelics. Esses testes possibilitam que futuros pais saibam qual o risco de terem filhos afetados por uma doença genética rara e possam fazer um planejamento familiar mais compreensivo.

Saiba mais sobre como funciona a Triagem de Portador nesse artigo.

Consulte seu médico sobre testes genéticos e planejamento familiar e entre em contato com a Medelics.

Conheça a Mendelics

Se tiver dúvidas, deixe sua pergunta nos comentários!

 


Referências

https://www.cell.com/iscience/pdf/S2589-0042(20)30308-4.pdf

Você sabe o que são Erros Inatos do Metabolismo?

Você sabe o que são Erros Inatos do Metabolismo?

Conheça mais sobre os Erros Inatos do Metabolismo

Os Erros Inatos do Metabolismo são doenças genéticas, hereditárias, que causam o mau funcionamento de alguma via metabólica. Com isso, o paciente apresenta níveis alterados de algumas substâncias importantes para o bom funcionamento do organismo.

Um diagnóstico precoce é essencial para essas doenças, pois o tratamento precisa ser iniciado o mais cedo possível para evitar as consequências mais graves dessas doenças. Mas como existem centenas de erros inatos, o diagnóstico pode ser bastante desafiador. 

Estima-se que cerca de 2 a cada 1.000 recém-nascidos são afetados por doenças causadas por esses erros.

 

Quais as causas dos Erros Inatos do Metabolismo?

Essas doenças são condições hereditárias causadas por alterações em um único gene, que leva ao mau funcionamento de alguma via metabólica do organismo. Cada via é responsável pelo processamento de nutrientes e produção de compostos específicos, e envolve diversas proteínas.

Essas proteínas são codificadas por seus respectivos genes. Por isso, existem diversos Erros Inatos do Metabolismo, causados por alterações em diversos genes que codificam alguma proteína envolvida nesses processos metabólicos.

A fenilcetonúria, por exemplo, é causada por alterações no gene PAH, que codifica a proteína fenilalanina hidroxilase (PAH). Essa enzima é responsável por metabolizar o aminoácido fenilalanina, que se acumula no organismo dos pacientes com essa doença, podendo levar ao atraso de desenvolvimento neuropsicomotor e deficiência intelectual permanente.

Os Erros Inatos do Metabolismo podem ser classificados em grandes categorias dependendo do tipo de via metabólica afetada:

Quadro informativo listando os tipos de erros inatos do metabolismo e exemplos de doenças em cada grupo

 

Como essas doenças são herdadas?

Grande parte dos Erros Inatos têm padrão de herança autossômico recessivo. Isso significa que é preciso herdar cópias alteradas do gene causador da doença tanto da mãe quanto do pai.

Nesse tipo de herança, quando a pessoa possui somente uma cópia alterada (do pai ou da mãe), ela não desenvolve sintomas, mas é portadora, e tem um risco aumentado de ter filhos com doença.

 

Como é feito o diagnóstico?

Existem centenas de Erros Inatos do Metabolismo, e isso dificulta o diagnóstico.

Essas doenças se manifestam logo na infância e muitas vezes são diagnosticadas somente após meses ou anos do aparecimento dos sintomas. O que não é ideal.

Como elas afetam vias importantes no organismo, o diagnóstico precoce é essencial para que o tratamento possa ser iniciado o mais cedo possível, minimizando consequências mais graves da doença.

O Teste do Pezinho, um teste de triagem neonatal obrigatório e gratuito no Brasil, avalia algumas doenças desse grupo, como a Fenilcetonúria e a Deficiência de Biotinidase, causada por alterações no gene BTD que pode levar a distúrbios neurológicos e cutâneos.

As versões expandidas do Teste do Pezinho, disponíveis na rede privada e que analisam até 100 doenças, cobrem algumas dezenas de Erros Inatos do Metabolismo.

O Teste da Bochechinha, a triagem neonatal genética desenvolvida pela Mendelics, avalia mais de 120 doenças desse grupo dentre as mais de 320 doenças analisadas. Todas as doenças investigadas no teste são tratáveis e se desenvolvem na infância.

Caso já exista uma suspeita de doença causada Erros Inatos do Metabolismo, a Mendelics oferece o Painel de Doenças Tratáveis para confirmação do diagnóstico clínico. Esse exame exige um encaminhamento médico.

 

Quais os tratamentos?

Os Erros Inatos do Metabolismo afetam vias metabólicas causando acúmulos ou deficiências de substâncias no organismo. Os tratamentos para essas doenças consistem na regulação dos níveis metabólicos dessas substâncias. Muitas vezes tratamentos simples como restrição ou suplementação alimentar são suficientes para que o paciente tenha uma vida saudável.

A fenilcetonúria, por exemplo, pode ser manejada evitando alimentos ricos em fenilalanina, como carnes e laticínios, dentre outros. Já a deficiência de biotinidase é tratada com suplementação oral de biotina.

Os tratamentos para os erros inatos do metabolismo são muito eficientes, principalmente se a doença foi diagnosticada precocemente.

Consulte sempre o seu médico.


Referências:

National Human Genome Research Institute

Children’s Hospital of Pittsburgh

Nova pediatria

Você conhece a hemocromatose, a doença do Felipe Neto?

Você conhece a hemocromatose, a doença do Felipe Neto?

O que é Hemocromatose?

Recentemente (18/06), o Youtuber Felipe Neto publicou em suas redes sociais que havia sido diagnosticado com hemocromatose incompleta heterozigótica. Você conhece essa doença?

Hemocromatose se refere a doenças caracterizadas pelo acúmulo de ferro em vários órgãos como o fígado, coração e pâncreas. Os altos níveis de ferro danificam esses órgãos levando ao aparecimento de vários sintomas diferentes.

A forma mais comum de hemocromatose, também conhecida como hemocromatose clássica ou hemocromatose tipo I, afeta cerca de 1 a cada 100 pessoas mundialmente, em especial no norte da Europa.

 

Quais os sinais e sintomas de Hemocromatose?

O aumento dos níveis de ferro ocorre gradativamente por toda a vida, e os sintomas geralmente surgem entre os 40 e 60 anos de idade, sendo que as mulheres começam a ter sintomas, em média, dez anos mais tarde que os homens.

Pacientes com hemocromatose podem apresentar uma ampla gama de sintomas, pois o ferro se acumula e danifica diversos órgãos. Os sintomas mais comuns são:

  • Fadiga
  • Inflamação e dor nas juntas, principalmente nas mãos e joelhos
  • Dor abdominal
  • Perda de peso
  • Mudança da coloração da pele para tons “metálicos” (acinzentado ou cobre)

Se não tratada, a doença pode levar a sintomas mais graves como cirrose, diabetes e falência cardíaca.

 

Quais as causas da hemocromatose?

A hemocromatose clássica é causada por alterações no gene HFE, responsável por codificar a proteína que atua no controle dos níveis de ferro no organismo. Nos pacientes com hemocromatose, essa proteína não funciona corretamente e o corpo absorve mais ferro que o necessário.

As mutações mais comuns do gene HFE são conhecidas como C282Y e H63D. Cerca de 90% dos casos de hemocromatose são resultantes da mutação C282Y.

A hemocromatose tipo 2, também conhecida como hemocromatose juvenil, se manifesta por volta dos 20 anos de idade e é causada por alterações nos genes HJV e HAMP.

A hemocromatose tipo 3 geralmente se manifesta um pouco mais tarde que a do tipo 2, mais ainda antes dos 30 anos, na maioria dos casos. É causada por alterações no gene TFR2.

A hemocromatose tipo 4, também conhecida como doença da ferroportina, se manifesta como a forma clássica, após os 40 anos, e é causada por alterações no gene SLC40A1.

 

Como a hemocromatose é herdada?

A hemocromatose é uma doença de padrão autossômico recessivo, o que significa que é necessário herdar cópias alteradas do gene HFE de ambos os pais para desenvolver a doença.

Quando alguém possui uma cópia saudável e uma cópia alterada de um gene, dizemos que essa pessoa é heterozigota para a alteração nesse gene. Esse é o caso do Felipe Neto.

O Youtuber foi diagnosticado com hemocromatose incompleta heterozigótica. Isso significa que ele tem uma cópia alterada.

Pessoas que herdam somente uma cópia alterada desse gene são consideradas portadoras e podem não desenvolver os sintomas da doença. Os portadores têm risco aumentado de ter filhos com a doença.

Figura representando graficamente como se dá a herança recessiva

Figura 1. Padrão de herança recessiva

 

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico inicial é feito pela dosagem de ferritina, um exame bioquímico que mede a concentração de ferro disponível no organismo. Caso sejam detectados níveis altos de ferritina, outros exames devem ser feitos para confirmar o diagnóstico.

O exame genético pode ser feito com esse propósito e traz informações mais compreensivas sobre o quadro do paciente, pois identifica quais as mutações que estão causando a doença. Essa informação é muito importante, pois mutações diferentes causam quadros com diferentes severidades.

Um diagnóstico precoce é sempre importante, pois permite que o tratamento seja iniciado o mais cedo possível e evita as consequências mais graves da doença. Isso vale para qualquer doença. 

 

Quais são os tratamentos?

Por ser uma doença genética, não é possível curar a hemocromatose hereditária, mas é possível controlar a doença para evitar os sintomas.

O tratamento vai depender da severidade de cada caso. O objetivo é baixar os níveis de ferro e controlar para que eles permaneçam dentro de intervalos saudáveis.

Para isso, várias medidas podem ser tomadas, desde uma dieta controlada, com pouca ingestão de alimentos ricos em ferro, como carnes e grãos, até o uso de medicamentos e sangria, que funciona como uma doação de sangue, mas esse sangue é descartado.

Pacientes com casos mais graves, que já desenvolveram outras complicações como diabetes e cirrose, precisam de tratamentos específicos para cuidar desses outros problemas.

Mantendo os níveis de ferro dentro de um intervalo saudável, sendo por dieta, terapias medicamentosas ou sangria, o paciente não desenvolve os sintomas e tem uma vida normal.

 

Diagnóstico genético e a Mendelics

É importante ressaltar que exames de diagnóstico só podem ser realizados mediante solicitação e acompanhamento médico. Por isso converse com o seu médico!

Na Mendelics possuímos o Painel de Hemocromatoses, que analisa o gene HFE, e as mutações C282Y e H63D, além de outros quatro genes (HAMP, HJV, SLC40A1, TFR2), que podem causar os outros tipos de hemocromatose.

Quer saber mais sobre testes genéticos para diagnóstico das hemocromatoses? Deixe sua pergunta nos comentários abaixo ou entre em contato com a nossa equipe pelo telefone (11) 5096-6001 ou através do nosso site.


Referências

https://twitter.com/felipeneto/status/1405955892655366146

https://rarediseases.org/rare-diseases/classic-hereditary-hemochromatosis/

https://medlineplus.gov/genetics/condition/hereditary-hemochromatosis/

https://www.niddk.nih.gov/health-information/liver-disease/hemochromatosis/symptoms-causes

https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-do-sangue/sobrecarga-de-ferro/hemocromatose

Você conhece a Fenilcetonúria?

Você conhece a Fenilcetonúria?

O que é Fenilcetonúria?

A fenilcetonúria (PKU) é uma doença genética metabólica hereditária, caracterizada pelo aumento nos níveis do aminoácido fenilalanina no sangue, cérebro e outras partes do organismo.

Esse aminoácido não é produzido naturalmente pelo nosso organismo e, por isso, precisa ser obtido através da alimentação. Após ser ingerida, a fenilalanina é processada pela enzima fenilalanina hidroxilase (PAH). Pessoas com PKU possuem falta ou deficiência dessa enzima, fazendo com que a fenilalanina se acumule no organismo.

No dia 28 de junho celebramos o Dia Mundial da Fenilcetonúria, que visa conscientizar a população sobre essa doença, que atinge cerca de 1 a cada 30.000 brasileiros.

 

Quais os sinais e sintomas da Fenilcetonúria?

A PKU se manifesta de três formas diferentes de acordo com a quantidade de atividade da enzima PAH:

  • PKU clássica: é a forma mais grave e ocorre quando a atividade da enzima fenilalanina hidroxilase é quase nula (inferior a 1%). Se não tratada, pode causar atraso de desenvolvimento neuropsicomotor, deficiência intelectual permanente, pele, olhos e cabelos muito claros, eczema, convulsões, distúrbios psiquiátricos, entre outros.
  • PKU leve: ocorre quando a atividade da enzima fenilalanina hidroxilase é de 1 a 3%. Esses casos possuem menor risco de desenvolver problemas neurológicos permanentes, mas ainda apresentam sintomas como ansiedade, irritabilidade, falta de concentração, entre outros quadros mais leves de sintomas clássicos.
  • PKU variante (ou Hiperfenilalaninemia transitória ou permanente): ocorre  quando a atividade enzimática é superior a 3%. É considerada uma condição benigna que não necessita de intervenção.

 

O que causa a Fenilcetonúria?

A PKU é um erro inato do metabolismo causado por alterações nas duas cópias (materna e paterna) do gene PAH, que fornece as instruções para produzir a enzima fenilalanina hidroxilase.  Esta enzima converte fenilalanina em outro aminoácido, a tirosina, que é usada para produzir melanina (pigmento que dá cor aos olhos, cabelos e pele).

As alterações genéticas no gene PAH reduzem a atividade da enzima fenilalanina hidroxilase, que não consegue processar a fenilalanina eficientemente, fazendo com que esse aminoácido possa atingir níveis tóxicos no sangue, cérebro e em outros tecidos do corpo. 

Os neurônios são particularmente sensíveis aos níveis aumentados de fenilalanina, por isso, grandes quantidades deste aminoácido podem causar danos no cérebro, levando aos sintomas neurológicos da PKU.

 

Como a fenilcetonúria é herdada?

A PKU é herdada de maneira autossômica recessiva. Portanto, somente pessoas que herdaram o gene alterado da mãe e do pai desenvolvem a doença.  

Quando a criança herda apenas uma cópia alterada (do pai ou da mãe), considera-se que ela é portadora da doença. Portadores não desenvolvem os sintomas da doença, porém podem transmitir o gene alterado para seus filhos. 

Muitas pessoas não sabem que são portadoras de alteração no gene PAH e só descobrem quando têm um filho com a doença.

 

Como é feito o diagnóstico da doença?

A PKU está inclusa no Programa Nacional de Triagem Neonatal do SUS, mais conhecido como Teste do Pezinho, onde é realizada a dosagem bioquímica da fenilalanina no sangue do recém-nascido.

Para fechar o diagnóstico, é necessário obter dosagens de fenilalanina superiores a 10 mg/dL em pelo menos duas amostras laboratoriais distintas (ou seja, em casos positivos é necessário repetir o teste).

Algumas mutações no gene PAH  permitem que a enzima retenha alguma atividade e resultam em versões mais leves da PKU, que podem ser mais difíceis de se detectar no teste bioquímico.

O diagnóstico molecular através do teste genético é capaz de identificar as mutações causadoras da PKU, independente da gravidade da doença.

A Mendelics oferece exames para o diagnóstico da fenilcetonúria, incluindo o Painel de Doenças Tratáveis e o Exame de Sequenciamento do Gene PAH

Além disso, a fenilcetonúria é uma das mais de 340 doenças triadas pelo Teste da Bochechinha, o primeiro teste de triagem neonatal genético do Brasil. Com esse teste, que pode ser realizado assim que a criança nasce, a doença pode ser identificada antes do início dos sintomas. 

 

Como é feito o tratamento da doença?

O tratamento, que deve ser mantido durante toda a vida, consiste em uma dieta controlada, hipoproteica e com baixo teor de fenilalanina, visando manter níveis adequados desse aminoácido no organismo da pessoa.

Alimentos ricos em proteína que devem ser evitados ou consumidos de forma controlada, segundo o ministério da saúde:

  • Todos os tipos de carne, peixes e ovos.
  • Laticínios (leite e derivados)
  • Grãos e cereais (arroz, aveia, trigo, feijão, lentilha, entre outros)
  • Noz e castanhas
  • Chocolate

Existem versões de alimentos comuns, como arroz e macarrão, que foram criadas especialmente para auxiliar a dieta de pessoas com PKU.

Apesar de ser uma doença grave, quando o diagnóstico é feito precocemente, ainda no período neonatal, o tratamento evita o desenvolvimento de deficiência intelectual e outras consequências graves.

Mães que têm PKU e não seguem mais uma dieta restrita à fenilalanina têm um risco aumentado de ter filhos com deficiência intelectual, pois o bebê pode ser exposto a níveis muito altos de fenilalanina durante a gestação. Por isso é muito importante que mulheres grávidas ou em planejamento familiar sigam a dieta restritiva.

Importante: o acompanhamento com nutricionista é essencial para que a dieta seja adaptada para cada paciente e suas necessidades específicas. Consulte sempre um médico.


Referências