A‌ ‌história‌ ‌da‌ ‌descoberta‌ ‌do‌ ‌gene‌ ‌BRCA1‌ ‌-‌  ‌Decoding‌ ‌Annie‌ ‌Parker‌ ‌

A‌ ‌história‌ ‌da‌ ‌descoberta‌ ‌do‌ ‌gene‌ ‌BRCA1‌ ‌-‌  ‌Decoding‌ ‌Annie‌ ‌Parker‌ ‌

Filme‌ ‌Unidas‌ ‌pela‌ ‌vida‌ ‌(Decoding‌ ‌Annie‌ ‌Parker)‌, o gene BRCA1 e o câncer de mama

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Baseado‌ ‌em‌‌ ‌fatos‌ ‌reais‌,‌ ‌o‌ ‌filme‌ ‌conta‌ ‌‌paralelamente‌ ‌‌a‌s ‌história‌s ‌‌de‌ ‌Annie‌ ‌Parker,‌ ‌uma‌ ‌mulher‌ ‌‌que‌ ‌enfrentou‌ ‌o‌ câncer‌ ‌de‌ ‌mama‌ ‌e‌ ‌tornou-se‌ ‌uma‌ ‌das‌ ‌maiores‌ ‌vozes‌ ‌conscientizadoras sobre a doença e‌ ‌da ‌Dra.‌ ‌Mary-Clarie‌ ‌King,‌ ‌a‌ cientista‌ ‌que‌  ‌identificou‌ ‌o‌ ‌gene‌ ‌‌BRCA1‌‌ ‌e‌ ‌que demostrou,‌ ‌pela‌ ‌primeira‌ ‌vez,‌ ‌que‌ existia uma forma hereditária da doença. 

Depois de perder a mãe e a irmã, muito jovens vítimas de câncer de mama, Annie (vivida por Samantha Morton) acreditava que ela também iria ter a doença algum dia, mesmo na época não existindo evidência científica/médica sobre câncer hereditário. Por crescer com essa preocupação, Annie realizava auto-exames diariamente e descobriu um caroço, em 1980, aos 29 anos. Infelizmente, um exame confirmou o diagnóstico de câncer de mama.

Após o diagnóstico, pela primeira vez, ela ouviu de seus médicos que “devido ao seu histórico familiar, seria melhor realizar uma dupla mastectomia” (cirurgia que remove as duas mamas). Mais tarde em 1987, foi diagnosticada com câncer de ovário e em 2006 com câncer no figado. Ela sobreviveu a todos os tumores.  

Paralelamente, o filme mostra a trajetória da Dra. Mary-Clarie King  (vivida por Helen Hunt), geneticista da Universidade da Califórnia que focava seus estudos na busca de uma possível causa hereditária para o câncer de mama. Naquele momento, não haviam evidências de que o câncer poderia ocorrer devido a uma alteração genética herdada. O filme demonstra isso, por exemplo, em uma cena em que um dos médicos que acompanhava a Annie Parker explica que os muitos casos de câncer na sua família deveria ser mero ‘azar’, demonstrando a falta de conhecimento sobre as causas do câncer da época.

Por esse motivo, o filme também mostra a importância dos estudos da Dra. Mary-Claire, que durante 17 anos se dedicou a estudar famílias com vários casos de câncer de mama e ovário para tentar identificar a possível causa genética que estaria sendo transmitida entre as famílias. Em 1990, enfim, seu grupo identificou o BRCA1 (Breast Cancer type 1), um gene que quando alterado aumenta o risco de câncer de mama, ovário e outros tipos de câncer. Sua descoberta revolucionou a ciência e a oncologia, mudou a forma como compreendemos o câncer e deu novas perspectivas para o diagnóstico, tratamento e prevenção da doença. 

Em 1994, Annie realizou o teste genético e identificou que realmente possui uma alteração no BRCA1. Ela escreveu um livro sobre sua história no qual o filme foi inspirado, faz palestras, tem uma fundação em seu nome que oferece suporte a pessoas com câncer de mama e lidera comunidades a favor da conscientização do câncer de mama.

A Dra. Mary-Claire continua liderando pesquisas e até hoje uma das pesquisadoras mais respeitadas nos Estados Unidos. 

 

Câncer de mama hereditário e o gene BRCA1 

O trabalho da Dra. Mary-Claire inspirou muitos pesquisadores a entender outras formas hereditárias de câncer. Hoje sabemos que cerca de 5-10% dos casos de câncer são hereditários, um tipo câncer causado por mutações herdadas dos pais em genes importantes para o crescimento celular. 

O gene BRCA1 (Breast Cancer type 1) é um dos principais genes associados ao câncer de mama e ovário hereditário. A sua importância na prevenção do câncer de mama se tornou popular também devido ao ‘Efeito Angelina’ que ocorreu após a atriz Angelina Jolie anunciar, em 2013, que fez uma cirurgia de retirada das mamas por ser portadora de mutações nesse gene. Uma história que contamos nesse post

Mas, o BRCA1 não é o único gene de risco, alterações no BRCA2, PTEN, TP53, entre outros também estão associados o aumento do risco a câncer de mama. 

Assista ao filme Decoding Annie Parker (Unidas pela vida em português), conheça a história dessas duas mulheres inspiradoras, e entenda a importância da detecção precoce do câncer de mama e como a ciência tem papel fundamental nas nossas vidas. 

 


Referências

  1.  Decoding Annie Parker, Unidas pela vida  (2013). Dirigido por Steven Bernstein, com Samantha Morton, Aaron Paul, Rashida Jones, Helen Hunt, Marley Shelton, Bradley Whitford, Maggie Grace, Kate Micucci.
  2. https://www.forbes.com/sites/elaineschattner/2015/03/29/chatting-with-annie-parker-a-patients-perspective-on-how-cancer-care-has-changed-since-the-1970s/#12b76e101b72
  3. https://www.nfcr.org/blog/pioneering-gene-work-dr-mary-claire-king/
Você conhece o “Efeito Angelina Jolie”?

Você conhece o “Efeito Angelina Jolie”?

Angelina Jolie e o seu impacto nos testes genéticos para câncer de mama

 

Em 2013, a atriz americana Angelina Jolie veio a público em um artigo na New York Times para comunicar que tinha sido submetida a uma dupla mastectomia como medida redutora de risco, após ter descoberto que era portadora de uma alteração no gene BRCA1 que aumenta o risco de câncer de mama e ovário (1).  

A atriz realizou o teste genético, pois tinha um forte histórico familiar: mãe, avó e tias maternas que tinham falecido de câncer de mama ou ovário.  

Na época, a exposição do caso contribuiu para a popularização dos testes genéticos para câncer de mama, um evento que ficou conhecido como “efeito Angelina Jolie”. Estudos mostram que nos meses após o anúncio, houve um grande aumento no número de testes na Europa e nos Estados Unidos (2,3).

Entenda nesse post o caso do Efeito Angelina Jolie.

 

Angelina Jolie herdou uma mutação que aumentava o seu risco de câncer

Toda mulher tem um risco de 12% de ter câncer de mama em algum momento da vida, mas existem fatores de risco que aumentam esse número.

Como discutimos nesse post, a Genética é um fator de risco muito importante.

Entre 5-10% dos casos de câncer são causados por uma alteração genética herdada de um dos pais. Esse tipo de tumor é chamado de câncer hereditário (4). 

A alteração genética que causa câncer hereditário está presente em todas as células do corpo da pessoa, incluindo óvulos e espermatozoides, e existe a chance de 50% da alteração ser transmitidas aos filho(s).  

A avó de Angelina transmitiu uma cópia alterada do BRCA1, um gene importante para o crescimento das células, para as duas filhas: a tia e a mãe de Angelina. E Angelina herdou da sua mãe a alteração.

Pessoas com alterações no BRCA1 têm risco de 46% a 87% de desenvolver câncer de mama em algum momento da vida (4).  

Alterações no BRCA1 também conferem risco para outros tipos de tumores, principalmente câncer de ovário. Por isso, em 2015, a atriz foi submetida a outro procedimento preventivo: cirurgia de remoção dos ovários e das trompas de Falópio (Salpingo-ooforectomia bilateral).

Além do BRCA1, outros genes como o BRCA2, CDH1, PALB2, PTEN e TP53 aumentam o risco de uma pessoa desenvolver o câncer de mama.

 

A escolha de Angelina

Por ter herdado uma cópia defeituosa do BRCA1, a atriz tinha um risco aumentado para câncer de mama e ovário, mas isso não significa que com certeza ela teria a doença ao longo da vida. 

A presença da predisposição genética permite a adoção de uma série de estratégias de prevenção e diminuição dos riscos de desenvolvimento de tumores. 

Angelina optou junto ao seu médico pelas cirurgias profiláticas, mas existem outras opções como exames de rastreamento em idades mais jovens ou realização de ressonância magnética periódica. 

 

Quem deve fazer o teste genético para câncer de mama hereditário?

Embora tenha contribuído para conscientização sobre os testes genéticos, o “efeito Angelina Jolie” também foi alvo de críticas na época, devido às muitas mulheres que se submeteram ao teste sem compreender suas limitações e benefícios. 

Existem critérios clínicos e de histórico familiar que auxiliam o médico a compreender se o teste genético pode beneficiar mulheres com câncer de mama ou mulheres saudáveis que desejam se testar.

Quer conhecer os benefícios do teste genético para mulheres com suspeita câncer de mama? Leia esse post.

Se você tem forte histórico familiar, como a Angelina, ou tem um parente próximo com alteração em gene que aumenta o risco de câncer de mama, converse com seu médico! Ele irá avaliar o seu histórico clínico e familiar para determinar se o teste genético é indicado para você, como também os benefícios, limitações e os impactos do resultado do teste. 

 


Referências

  1. https://www.nytimes.com/2013/05/14/opinion/my-medical-choice.html
  2. Evans, D.G., Wisely, J., Clancy, T. et al. Longer term effects of the Angelina Jolie effect: increased risk-reducing mastectomy rates in BRCA carriers and other high-risk women. Breast Cancer Res 17, 143 (2015).
  3. https://www.genomicseducation.hee.nhs.uk/blog/genomics-and-the-angelina-jolie-effect/
  4. https://www.cancer.gov/about-cancer/understanding/what-is-cancer
  5. Petrucelli N et al. BRCA1- and BRCA2-Associated Hereditary Breast and Ovarian Cancer. Set/1998. GeneReviews® [Internet] (Ultima atualização Dez/2016). 
Testes genéticos para câncer de mama

Testes genéticos para câncer de mama

Câncer de mama hereditário

 

O câncer de mama é um tumor que se inicia nas mamas devido a mutações em genes importantes para o controle do crescimento celular (1, 2). 

Cerca de 5 a 10% dos casos são causados por uma mutação herdada dos pais, por isso são chamados de câncer hereditário (1, 2). 

Os testes genéticos servem para identificar mutações em genes que aumentam o risco de desenvolver a doença, como o BRCA1 e BRCA2. Com o avanço das inovações da Genética no Brasil e no mundo os testes genéticos para câncer de mama tem se tornado cada vez mais acessíveis. 

Entenda neste artigo como os testes genéticos se tornam um novo aliado para prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. 

Quais as principais causas do câncer de mama hereditário?

Mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 causam a síndrome de câncer de mama e ovário hereditário, a causa mais frequente de câncer de mama hereditário. Pessoas com mutações nesses genes têm risco de 46%-87% de ter a doença em algum momento da vida. 

Outras síndromes de câncer hereditário associadas a risco de câncer de mama são:  

  • Síndromes de Peutz-Jeghers (gene STK11
  • Síndrome de Li-Fraumeni (gene TP53)
  • Síndrome de Câncer Gástrico Difuso Hereditário (gene CDH1)
  • Síndrome de Cowden (gene PTEN). 

Mutações em outros genes como o CHEK2, ATM, PALB2  também podem elevar o risco para câncer de mama.

Quer conhecer os fatores de risco para o câncer de mama não hereditário? Leia esse artigo.

 

O que são testes genéticos para câncer hereditário?

Os testes genéticos analisam o DNA para identificar alterações genéticas que aumentam o risco para câncer de mama hereditário. 

Essas alterações podem ser identificadas em vários genes diferentes (BRCA1, BRCA2, STK11, TP53, CDH1, PTEN, PALB2, entre outros). Por isso, exames de Painéis de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) são hoje o tipo de teste genético mais usado para auxiliar pacientes com câncer de mama. 

Um Painel genético é um exame que, utilizando o NGS, analisa simultaneamente dois ou mais genes.  Um exemplo, e o Painel de Câncer de Mama e Ovários Hereditários da Mendelics que analisa 37 genes. 

Por outro lado, caso o médico suspeite de uma síndrome de câncer hereditário específica (Exemplo: Li-Fraumeni), ele pode solicitar o sequenciamento do único gene responsável pela síndrome. 

Exames de MLPA também podem ser solicitados para complementar o exame de NGS, principalmente quando esse último teve resultado negativo ou inconclusivo.  

Quem deve realizar o exame?

A recomendação de realização de teste genético para câncer de mama é baseada em critérios de histórico familiar (1º, 2º e 3º graus) e/ou critérios clínicos, baseados principalmente nas diretrizes do National Comprehensive Cancer Network (NCCN) (3).

Conheça alguns de vários indícios que podem sugerir a necessidade de uma avaliação com um médico geneticista e a realização de teste genético.

  • Idade do aparecimento do tumor (≤ 45 anos), 
  • Presença de tumor bilateral ou mais de um tumor primário na mama, 
  • Tumor de mama triplo negativo em mulheres de <60 anos (Receptores de estrogênio, progesterona e HER2 negativos), 
  • Forte histórico familiar de câncer de mama  (familiares de 1º, 2º e 3º graus diagnosticados)
  • Histórico familiar de outros tipos de tumores (Exemplo: câncer de ovário) na família, 
  • Familiar do sexo masculino com câncer de mama. 

Converse com seu médico para saber se você tem indicação para o exame. 

 

Para que servem os testes genéticos para câncer hereditário?

1) Diagnóstico

O resultado do exame pode indicar se a causa do câncer é hereditária. Quanto mais cedo o diagnóstico, maior a chance de cura. 

 

2) Procedimentos redutores de risco:

Pessoas diagnosticadas com câncer de mama e que possuem alterações clinicamente relevantes no BRCA1 e BRCA2 têm risco aumentado de desenvolver tumor de mama bilateral e de câncer de ovário (1, 2). 

Assim, pacientes portadores de alterações, podem ser submetidos, a critério médico, a mastectomia profilática bilateral (cirurgia de retirada de ambas as mamas) e a salpingo-ooforectomia redutora de risco (SORR, remoção do ovário e das trompas de Falópio). 

Além do BRCA1 e BRCA2, pacientes portadores de alterações em outros genes também podem ser beneficiados com procedimentos redutores de risco.

 

3) Tratamento personalizado

Recentemente, resultados de testes genéticos passaram a ser utilizados também na escolha do melhor tratamento. 

Portadoras de mutações no BRCA1 e BRCA2, que atendam determinados critérios clínicos, podem se beneficiar de uma nova classe de medicações: os inibidores de PARP.  Trata-se de medicações capazes de ‘atacar’ apenas as células do tumor (deficientes em BRCA1 ou BRCA2) e não as células saudáveis, por isso são considerados uma terapia alvo (7, 8, 9). 

O primeiro inibidor de PARP foi aprovado pela FDA em 2017 (7, 8). No Brasil, o medicamento olaparibe (Lynparza) está aprovado para uso pela ANVISA para o tratamento de câncer de mama metastático em portadoras de mutações no BRCA1/2 (9). 

 

4) Avaliação de risco em mulheres assintomáticas 

Pessoas saudáveis com forte histórico familiar da doença ou com um familiar que possui mutação que causa câncer de mama podem, nos testes genéticos, saber se herdaram a predisposição.

A presença da predisposição genética permite a adoção de uma série de estratégias de prevenção e diminuição dos riscos de desenvolvimento de tumores (4, 5) (Exemplo: exames de rastreamento em idades mais jovens, realização de ressonância magnética periódica, prevenção por quimioterapia com tamoxifeno e cirurgias profiláticas)

Mas é importante lembrar que ter a mutação não significa que a pessoa terá a doença, mas sim que ela tem risco aumentado em comparação a outras pessoas. Por isso, mulheres assintomáticas precisam conversar com seus médicos para compreender os impactos e benefícios do resultado do teste genético. 

5) A importância do aconselhamento Genético 

Na maioria dos tumores hereditários, a chance da alteração genética que predispõe ao câncer ser transmitida aos filhos é de 50%, por isso a importância do aconselhamento genético pré e pós exame para o paciente e seus familiares. 

Na consulta, o médico geneticista explica para o paciente também a respeito de outros possíveis riscos associados às mutações genéticas identificadas no exame, como, por exemplo, predisposição a outros tipos de tumores. 

 

Posso realizar um exame para câncer de mama hereditário pelo meu convênio?

A partir de 2014 a cobertura para exames genéticos para diagnóstico de doenças raras e cânceres hereditários passou a ser obrigatória. 

As diretrizes de cobertura para convênio para câncer de mama hereditário estão descritas no Rol De Procedimentos e Eventos Em Saúde 2018 da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) (4). 

Nesse #outubrorosa lembre-se que os exames genéticos são um novo aliado para prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. 

Dúvidas? Deixe sua pergunta nos comentários abaixo.  

Importante: Esse post tem caráter educativo. Recomendamos fortemente que o paciente seja acompanhado por um médico que orientará qual a melhor maneira de se proceder. 

 


Referências

  1. https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-mama
  2. https://www.breastcancer.org/risk/factors/family_history
  3. https://www.nccn.org/patients/guidelines/content/PDF/stage_0_breast-patient.pdf
  4. http://www.ans.gov.br/images/stories/Plano_de_saude_e_Operadoras/Area_do_consumidor/rol/b_rol_2018_110.pdf
  5. Kotsopoulos J. BRCA Mutations and Breast Cancer Prevention. Cancers (Basel). 2018; 10: 524.
  6. Garcia C et al. Risk management options elected by women after testing positive for a BRCA mutation. Gynecol Oncol.;132:428-33, 2014.)
  7. Pilié PG1, Gay CM2, Byers LA2, O’Connor MJ3, Yap TA4,5,6,7.PARP Inhibitors: Extending Benefit Beyond BRCA-Mutant Cancers. Clin Cancer Res. 2019 Jul 1;25(13):3759-3771. 
  8. https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2020/208558s014lbl.pdf
  9. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2018/aprovado-registro-de-lynparza-comprimidos

 

Outubro Rosa e câncer de mama

Outubro Rosa e câncer de mama

Outubro Rosa: conheça a sua história

Outubro Rosa é uma campanha realizada anualmente no mês de outubro onde diversas instituições compartilham informações sobre o câncer de mama com o objetivo de promover a conscientização sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento. Durante todo o mês de outubro, além das atividades educativas, diversos locais e monumentos públicos no mundo inteiro são iluminados pela cor rosa.

O Outubro Rosa teve início da década de 1990 nos Estados Unidos durante um evento chamado “For The Cure” (Corrida pela cura), que ocorreu em Nova Iorque, que tinha objetivo de arrecadar fundos para pesquisas da Fundação Susan G. Komen Breast Cancer Foundation. Na corrida, foram distribuídos laços cor de rosa para os participantes (1).

Nos Estados Unidos, várias outras instituições começaram a realizar eventos para conscientização da prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama anualmente, onde enfeitavam a cidade e locais públicos com laços rosa, e sempre no mês de outubro, o que levou a popularização do ‘Outubro Rosa’ posteriormente no mundo todo (1).

No Brasil, em 2002, ocorreu a primeira ação do movimento com a iluminação em rosa do monumento Mausoléu do Soldado Constitucionalista, situado em São Paulo-SP (1). Desde então, todos os anos, diversas ações ocorrem em todo o Brasil. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) participa do movimento desde 2010 promovendo eventos técnicos, debates e apresentações sobre o tema (2).

 

O Câncer de mama: por que é preciso conscientizar?

O câncer de mama é o câncer mais comum em mulheres (sem considerar os casos de câncer de pele não melanoma) no Brasil (3). 

Estima-se que 1 em cada 8 mulheres no mundo terão câncer de mama em algum momento de suas vidas.

Em 2018, 59.700 mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama (3) e estima-se 66.280 novos casos de câncer de mama em 2021, no Brasil (4).

Além disso, apesar de ser uma doença vista mais comumente em mulheres, 1% dos casos de câncer de mama ocorrem em homens (3).

A detecção do câncer nos estágios iniciais é fundamental para garantir um melhor resultado no tratamento. Quanto mais precocemente um tumor é detectado e o tratamento é iniciado, maior a probabilidade de cura (5). 

Por isso, é muito importante conhecer as causas e os riscos associados ao câncer de mama, estar atento (a) aos sinais e ter acompanhamento de um médico.

O câncer de mama não tem uma causa única. Diferentes fatores, genéticos e ambientais, contribuem para aumentar o risco de desenvolvê-lo. 

A idade é um importante fator de risco, mulheres a partir dos 50 anos estão mais propensas a desenvolver o câncer de mama. Outros fatores ambientais, relacionados a estilo de vida, como sedentarismo e consumo de álcool, também estão associados ao aumento do risco.

Contudo, a predisposição genética é um dos fatores de risco mais bem estabelecidos. Cerca de 5 a 10% dos casos de câncer de mama são causados por alterações genéticas que foram herdadas dos pais (5, 6). Mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 aumentam de 46% a 87% o risco de uma pessoa desenvolver a doença em algum momento da vida (5, 6).

Um caso famoso que ilustra a importância de conhecer os riscos e ter acompanhamento médico foi o da atriz Angelina Jolie, que tinha um forte histórico familiar (mãe, avó e tias maternas tiveram câncer de mama e ovário) e após um teste genético descobriu que era portadora de uma alteração genética no gene BRCA1 que aumenta o risco de câncer de mama e ovário. Desde então, iniciou-se o “Efeito Jolie” (7).

Hoje, o diagnóstico e as opções de tratamento estão sendo aprimoradas em função do conhecimento sobre a influência genética nos tumores. Caso seja indicado, exames genéticos podem ser aliados no diagnóstico precoce e na avaliação de predisposição genética em pessoas saudáveis com forte histórico familiar da doença.

Caso se interesse em saber mais sobre a genética do câncer, clique para ler o artigo.

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Referências
  1. INCA: Outubro rosa. http://www.inca.gov.br/assuntos/outubro-rosa
  2. Outubro Rosa. http://www.outubrorosa.org.br/historia.htm
  3. INCA: câncer de mama. http://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-mama
  4. INCA: estimativa de incidência do câncer de mama 2020. http://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//estimativa-2020-incidencia-de-cancer-no-brasil.pdf
  5. https://www.cancer.org/cancer/breast-cancer/understanding-a-breast-cancer-diagnosis/breast-cancer-survival-rates.html
  6. Hulka, B. S., & Moorman, P. G. (2008). Reprint of Breast cancer: hormones and other risk factors. Maturitas, 61(1-2), 203–213.
  7. Evans, D.G., Wisely, J., Clancy, T. et al. Longer term effects of the Angelina Jolie effect: increased risk-reducing mastectomy rates in BRCA carriers and other high-risk women. Breast Cancer Res 17, 143 (2015).
Triagem neonatal genética

Triagem neonatal genética

Triagem neonatal  

Qual a importância da triagem neonatal?

A triagem neonatal é uma ação preventiva para identificar doenças tratáveis e com manifestação ainda na infância. Quando identificadas precocemente e tratadas, essas doenças podem não interferir no desenvolvimento do recém-nascido ou ter seu impacto reduzido com uma melhora significativa na qualidade de vida da criança. 

Os tratamentos das doenças são muito variáveis e incluem desde dieta restritiva, evitar situações de risco e mudanças no estilo de vida até tratamentos mais complexos que envolvem acompanhamento multidisciplinar (médicos geneticistas e médicos de outras especialidades, psicoterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas e psicologistas) e uso de medicações específicas

Todos os recém-nascidos no Brasil tem o direito de realizar gratuitamente, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Teste do Pezinho básico que rastreia seis doenças tratáveis. Existem também versões expandidas ou ampliadas do teste (Tabela 1 – final do texto).

A grande maioria das doenças incluídas na triagem neonatal tem origem genética, exceto as  doenças infecciosas e algumas formas de hipotireoidismo congênito. 

Centenas de doenças genéticas com tratamento disponíveis não são incluídas em testes de triagem neonatal atualmente devido a limitações das técnicas usadas nos testes do Pezinho. Somente testes que analisam diretamente o DNA poderiam identificá-las. 

Por isso, nos últimos anos, o uso de testes genéticos na triagem neonatal tem aumentado, uma abordagem inovadora que permite expandir o número doenças triadas em recém-nascidos.

Nesse artigo, discutiremos os principais testes neonatais e suas diferenças, as inovações trazidas pela triagem genética e apresentaremos o Bochechinha, um teste genético que identifica mais de 310 doenças em recém-nascidos. 

 

Principais testes neonatais convencionais

Teste do Pezinho

O Teste do Pezinho básico investiga seis doenças: fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, anemia falciforme, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase). 

O Teste do Pezinho básico é obrigatório para todos os recém-nascidos, deve ser realizado entre o 3º e 5º dia de vida e é gratuito na rede pública de saúde. 

 Um resultado positivo no Teste do Pezinho para uma determinada doença não significa que a criança com certeza irá desenvolvê-la. Diante de um resultado positivo, o médico que acompanha o recém-nascido solicitará exames complementares para confirmar ou excluir a doença.

 

Teste do Pezinho ampliado

Existem várias outras versões do teste do Pezinho oferecidos por laboratórios e hospitais da rede privada, que são chamados de “ampliados” ou “expandidos” e diferem entre si quanto às técnicas utilizadas e entre o número e o grupo de doenças analisadas. 

Assim como o Teste do Pezinho básico, as versões expandidas ou ampliadas do teste rastreiam doenças graves que afetam crianças e que tem tratamento disponível. As versões expandidas podem analisar até 60 doenças incluindo erros inatos do metabolismo. Esse teste é realizado por meio de uma técnica chamada de espectrometria de massas em tandem (MS/MS). 

Resultados alterados precisam também ser confirmados por exames complementares, como, por exemplo, exames genéticos

As versões ampliadas também podem incluir testes de sorologia para detecção de doenças infecciosas, como toxoplasmose congênita, Citomegalovírus,  Sífilis congênita, Doença de Chagas e HIV.  

 

Teste SCID e AGAMA

O Teste do Pezinho não investiga as Imunodeficiências Congênitas (SCID) e Agamaglobulinemia (AGAMA), conhecidas popularmente como imunodeficiências congênitas, um grupo muito importante de doenças neonatais. 

As imunodeficiências causam infecções graves, que se não tratadas, levam a morte no primeiro ano de vida. Por isso, é fundamental que a doença seja identificada o mais cedo possível. As imunodeficiências congênitas são triadas em recém-nascidos em um teste oferecido pela rede privada, geralmente chamado de “SCID e AGAMA”.  

Assim como nos testes do Pezinho, resultados alterados precisam também ser confirmados por exames complementares, como, por exemplo, exames genéticos

 

Triagem neonatal genética 

O que é uma triagem neonatal genética?

Os testes genéticos analisam o DNA, onde toda a informação genética é armazenada e transmitida para nossos descendentes. 

Os genes são a parte do DNA que contém a informação para a produção de proteínas. As proteínas são responsáveis pelas características e funcionalidades do nosso corpo. Logo, uma alteração em um gene pode prejudicar a correta produção ou o funcionamento de uma proteína e isso pode causar uma doença genética. 

A triagem genética e uma abordagem que analisa diretamente o DNA em busca de alterações genéticas que elevem o risco do recém-nascido de desenvolver doença(s) tratáveis no futuro.

A triagem genética expandiu o número de doenças que podem ser triadas na fase neonatal. 

Centenas de doenças genéticas consideradas “tratáveis” que não podem ser triadas pelo teste do Pezinho devido à limitações das técnicas usadas nesse tipo de teste, são identificadas por meio de análises genéticas. Esse é o caso, por exemplo, da epilepsia responsiva à piridoxina (epilepsia piridoxina-dependente), atrofia muscular espinhal (AME), distrofia muscular de Duchenne, Síndrome de Brown-Vialetto-Van Laere, intolerância hereditária a frutose, entre outras doenças. 

O resultado do exame genético também é importante para o planejamento familiar já que os pais do paciente e outros familiares podem ser portadores da mesma alteração genética que causou a doença, havendo assim risco de repetição da doença na família. É importante conversar um médico.

 

Sequenciamento de Nova Geração na triagem neonatal

O Sequenciamento de Nova Geração (NGS) é a técnica mais eficaz no diagnóstico de doenças genéticas e a que oferece o melhor custo-benefício (1).  Em um artigo publicado anteriormente, detalhamos a técnica de NGS, que foi a responsável pelos grandes avanços da Genética na Medicina nos últimos anos. 

O NGS pode sequenciar desde o genoma inteiro de um indivíduo, todos os 20.000 genes (chamado de sequenciamento do exoma completo) e, até mesmo, apenas um gene. Para a triagem neonatal, os painéis de NGS têm sido a melhor abordagem. Um Painel é um exame genético que, utilizando o NGS, avalia simultaneamente variações em dois ou mais genes.  

Os Painéis se tornaram populares dentro da rotina do diagnóstico genético, pois permitem que grupos de genes associados a uma ou mais doenças sejam analisados em conjunto.

Os Painéis de NGS para a triagem neonatal incluem genes reconhecidamente associados à doenças tratáveis de manifestação precoce.

Vários estudos científicos de 2012 a 2019 demonstraram a eficiência da aplicação do NGS na triagem de doenças neonatais (2-7). Os resultados dos estudos confirmaram os resultados de exames de triagem neonatal que utilizam outras técnicas, como os bioquímicos e de espectrometria de massas, e conseguiram esclarecer casos de “falsos positivos” e inconclusivos dos testes convencionais. 

 

Teste da Bochechinha

A Mendelics desenvolveu o primeiro teste de triagem neonatal genético no Brasil: o Teste da Bochechinha. O teste identifica se o recém-nascido tem risco de desenvolver mais de 310 doenças tratáveis de manifestação precoce, antes mesmo de qualquer sinal clínico. O teste analisa através da técnica de NGS 318 genes (Tabela 1 – final do texto). 

O Bochechinha identifica centenas de doenças que só podem ser investigadas por testes que analisam o DNA do recém-nascido, por isso, é o mais completo teste de triagem feito no Brasil. 

Outra grande vantagem é que o teste consegue identificar recém-nascidos com alto risco de desenvolver uma doença antes mesmo de qualquer sintoma. Assim é possível realizar precocemente procedimentos médicos de controle e tratamento. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais eficiente é o tratamento. 

As doenças e genes do teste foram escolhidos pela equipe médica da Mendelics com base em extensa revisão da literatura médica, de bancos de dados genéticos e de doenças genéticas e de casos clínicos do laboratório. 

Como é feita a análise dos resultados do Teste da Bochechinha?

Quando se realiza um sequenciamento de DNA por NGS, milhares de alterações genéticas são encontradas, porém, nem todas elas causam doenças. Por isso, é muito importante que a análise dos resultados alterados seja feita por médicos geneticistas experientes e com apoio de tecnologias inovadoras (Entenda sobre como os testes genéticos são realizados nesse artigo). 

Após a etapa de sequenciamento, os médicos geneticistas da Mendelics analisam os resultados alterados para buscar se há alterações no DNA do recém-nascido que aumentam o risco de desenvolver uma doença.

Os nossos médicos contam também com a ajuda do Abracadabra®, uma plataforma de análise genética, que usa inteligência artificial para tornar as análises genéticas mais precisas e eficientes. 

Após a etapa de análise, os médicos geneticistas elaboram os laudos dos testes, que são disponibilizados através do sistema online do laboratório. 

 

Quando o teste pode ser realizado?

O Teste da Bochechinha pode ser feito assim que o recém-nascido nasce ou em qualquer outro momento da vida da criança. Porém, por ser um teste de triagem neonatal, é recomendado que seja feito logo após o nascimento ou nos primeiros meses de vida. 

 

Quais são as doenças analisadas?

O Teste da Bochechinha identifica as doenças dos testes do Pezinho básico e ampliado/expandido e as imunodeficiências congênitas, e centenas de outras doenças que não são investigadas nos testes de triagem neonatal convencional. 

Entre os grupos de doenças analisadas estão incluídas: 

  • Doenças Endócrinas
  • Deficiências do Metabolismo de Vitaminas e Minerais
  • Doenças Hematológicas
  • Doenças Hepáticas e Gastrointestinais
  • Doenças Imunológicas
  • Doenças Neurológicas
  • Doenças Pulmonares
  • Doenças Renais
  • Erros Inatos do Metabolismo
  • Neoplasias
  • Surdez

A lista completa de doenças pode ser acessada aqui

 

O Teste da Bochechinha precisa de pedido médico?

Não é necessário pedido médico, pois trata-se de uma triagem. Porém, recomendamos que o resultado seja acompanhado por um pediatra ou um médico de outra especialidade que, diante do resultado de alto risco clínico, decidirá qual o melhor procedimento a ser seguido. 

 

Como é realizada a coleta ?

A coleta do Bochechinha também é diferente dos outros testes de triagem neonatal. Ao invés do furo no calcanhar do recém-nascido que caracteriza a coleta do Teste do Pezinho, a coleta do nosso teste é feita com um auxílio de um cotonete (swab) que é passado na parte interna da bochecha do recém-nascido. 

A coleta é rápida e indolor e pode ser feita por um profissional da saúde ou pelos próprios pais assim que o bebê nasce.

 

O Teste da Bochechinha substitui o Teste do Pezinho básico?

O Teste da Bochechinha não substitui, mas complementa o teste do Pezinho básico. 

O Teste da Bochechinha é uma triagem neonatal de doenças genéticas, portanto, doenças infecciosas e algumas formas de hipotireoidismo congênito, não são identificadas. O Teste do Pezinho básico é um dos exames obrigatórios que todos os recém-nascidos devem realizar logo após o nascimento. Recomendamos que ambos os testes sejam realizados. 

Quer saber mais sobre a Mendelics? Conheça a história do laboratório que revolucionou a forma como fazemos diagnóstico genético no Brasil nesse artigo.

Confira as principais diferenças entre os testes do Pezinho básico e ampliado/expandido e o Teste da Bochechinha:

Tabela 1: principais diferenças entre os testes do Pezinho básico, ampliado/expandido e o Teste da Bochechinha.

 


Referências

1. Koboldt DC et al. The next-generation sequencing revolution and its impact on genomics. Cell. 2013;155: 27–38

2. Bhattacharjee, Arindam et al. 2015. “Development of DNA Confirmatory and High-Risk Diagnostic Testing for Newborns Using Targeted next-Generation DNA Sequencing.” Genetics in Medicine: Official Journal of the American College of Medical Genetics 17 (5): 337–47.

3. Bodian, Dale Let al. 2016. “Utility of Whole-Genome Sequencing for Detection of Newborn Screening Disorders in a Population Cohort of 1,696 Neonates.” Genetics in Medicine: Official Journal of the American College of Medical Genetics 18 (3): 221–30.

4. Navarrete, Rosa et al. 2019. “Value of Genetic Analysis for Confirming Inborn Errors of Metabolism Detected through the Spanish Neonatal Screening Program.” European Journal of Human Genetics: EJHG 27 (4): 556–62.

5. Yang, Yuqi et al. 2019.  “Application of Next-Generation Sequencing Following Tandem Mass Spectrometry to Expand Newborn Screening for Inborn Errors of Metabolism: A Multicenter Study.” Frontiers in Genetics 10 (February): 86.

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