Atrofia Muscular Espinhal: o impacto da genômica em 130 anos de pesquisas

Atrofia Muscular Espinhal: o impacto da genômica em 130 anos de pesquisas

A AME – Atrofia Muscular Espinhal

A atrofia muscular espinhal (AME) é uma doença genética progressiva que afeta aproximadamente um em cada 10.000 nascidos vivos no mundo e é a principal causa genética de óbitos em bebês.

Em pessoas com AME, a falta de uma proteína importante, a SMN, leva à morte de neurônios que transmitem mensagens para os músculos. Como resultado, os sinais cerebrais não chegam à musculatura, que enfraquece e atrofia, resultando em problemas graves que afetam funções básicas do organismo como respirar, andar, falar e se alimentar. 

Os sintomas da AME geralmente se manifestam na infância e vão se agravando rapidamente com o tempo. Caso não haja tratamento, a maioria das crianças não atinge os dois anos de idade. Por isso o diagnóstico e, principalmente, tratamento precoces,  são essenciais para garantir uma melhor qualidade de vida para a criança.

Felizmente, as pesquisas científicas, intensificadas pelo estudo do genoma e as novas tecnologias de manipulação do DNA, permitiram o desenvolvimento e avanço de terapias que impactam o histórico natural da doença e qualidade de vida das pessoas com AME.

Conheça os marcos históricos dessa doença nesse post.

Se você desejar saber mais sobre a AME, incluindo suas diferentes classificações, causas e diagnóstico, leia esse artigo.

 

AME – 130 anos de pesquisas científicas

 

tabela com os prinicpais marcos históricos da doença AME

 

 

Anos 1890s –  A descoberta da AME

A AME foi descrita pela primeira vez por dois cientistas, Johann Hoffman e Guido Werdnig, que observaram vários casos de bebês que desenvolveram fraqueza muscular nos primeiros meses de vida. Eles perceberam que células do neurônio motor nesses bebês pareciam degenerar e também notaram que essa condição parecia ser familiar (hereditária).

Os estudos desses dois cientistas levaram à identificação da AME e por isso, até hoje, a AME infantil (tipo 0 e I) é conhecida como doença de Werdnig-Hoffman.

 

1956 – Descoberta da AME juvenil (no adulto)

Algumas décadas depois, dois outros cientistas, Erik Kugelberg e Lisa Welander, conseguiram diferenciar as formas de início tardio da AME de outras doenças semelhantes, como a distrofia muscular. Por isso, a AME tipo 3 também é chamada doença de Kugelberg-Welander.

 

1995 – Descoberta do gene SMN1

A sequência do gene 1 do neurônio motor de sobrevivência (SMN1) foi descrita pela Dra. Judith Melki e sua equipe, que também demonstraram que esse gene estava deletado ou alterado em pessoas com AME. Além disso, a equipe identificou o gene SMN2, associado às diferentes gravidades da AME. 

Fatos importantes

→ Em 1953, o modelo de dupla-hélice do DNA foi proposto pelos cientistas James D. Watson e Francis Crick. A descoberta rendeu aos pesquisadores o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, e permitiu um avanço no estudo do DNA e genes causadores de doenças, como o SMN1 e SMN2.

A descoberta do gene SMN1 foi fundamental para permitir o diagnóstico genético da AME. Antes disso, o diagnóstico era feito com base nos sinais e sintomas clínicos do paciente. 

→ A descoberta do SMN1 e SMN2 permitiu o estudo e desenvolvimento de tratamentos para AME.

 

2003 – início dos estudos para terapia gênica

Quatro anos após a identificação do SMN2, outro grupo de pesquisadores descreveram as alterações nesse gene que estão associadas a AME.  A partir disso, estudos visando a “correção” do gene se iniciaram.

Esses estudos levaram  a descoberta e o desenvolvimento do primeiro medicamento  que tem como alvo a causa genética subjacente da AME, o Spinraza (Nusinersen), que ajuda o organismo a produzir mais proteínas SMN a partir do SMN2

 

2016 – Aprovação do primeiro medicamento que trata a causa genética da AME

 A comunidade global da AME comemorou a aprovação do primeiro tratamento baseado em terapia gênica, o Nusinersen, pela Food & Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos. 

→ Depois de 100 anos da descoberta da doença, este foi um marco histórico, possibilitado pelo empenho dos pesquisadores, investimentos e apoio da sociedade. Até então a expectativa de vida de pessoas com AME era muito baixa, até poucos meses de vida. Com o novo tratamento é possível observar saltos no desenvolvimento de muitos bebês em tratamento, como sentar e andar sem apoio e não necessitar de ventilação.

 

2017 – Tratamento para AME no Brasil

Pacientes brasileiros puderam comemorar a aprovação e Registro do Nusinersen pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

 

2019 – Tratamento no SUS

O Ministério da Saúde inseriu o Nusinersen para AME tipo I no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), disponibilizando o tratamento pelo SUS. 

Crianças com os tipos II e III podem obter o tratamento na modalidade compartilhamento de risco, onde o governo paga pelo medicamento somente se houver melhora da saúde do paciente.

 

2020 – Novas terapias no Brasil 

A ANVISA aprovou o registro de dois outros medicamentos com base em terapia gênica, que corrigem a falta do SMN1 e do SMN2. Ambos ainda não estão disponíveis no SUS.

 

2021 – Inclusão da AME no Teste do Pezinho e data comemorativa

O Governo Federal aprovou o Projeto de Lei (PL 5.043/2020) de ampliação do Teste do Pezinho do SUS. De seis doenças, agora a triagem será para 53 doenças, incluindo AME. 

A triagem neonatal da AME representa um enorme avanço para o tratamento da doença, que é progressiva e por isso necessita de um diagnóstico o mais cedo possível. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais cedo o tratamento pode ser iniciado, evitando o avanço e agravamento dos sintomas.

Além disso, o Governo Federal também sancionou  a Lei 14.062, que institui o 8 de agosto como Dia Nacional da Pessoa com Atrofia Muscular Espinhal

 

Triagem Neonatal Genética

Apesar da implementação da AME na triagem neonatal do SUS só acontecer a partir de 2022, a doença, já há algum tempo, faz parte do Teste da Bochechinha, o teste de triagem neonatal genética desenvolvido pela Mendelics que complementa o Teste do Pezinho.

Utilizando a tecnologia de Sequenciamento de Nova Geração (NGS), o Teste da Bochechinha analisa os genes associados a AME e a outras mais de 320 doenças genéticas graves e tratáveis.

Porém, por ser um teste de triagem, o Teste da Bochechinha só é indicado para crianças sem sintomas. Quando a criança (ou pessoa de qualquer idade) tem algum sintoma de AME, recomenda-se realizar um exame genético de diagnóstico para confirmar a suspeita médica. 

A Mendelics oferece exames genéticos para diagnóstico da AME, incluindo o MLPA, Painel de Doenças Tratáveis e o Exame de Sequenciamento dos genes SMN1 e SMN2.  

Se quiser saber mais sobre a AME e sobre os exames de diagnóstico genético deixe sua pergunta nos comentários abaixo ou entre em contato com a nossa equipe pelo telefone (11) 5096-6001 ou através do nosso site.

 


Referências

  1. Prior TW, Leach ME, Finanger E. Spinal Muscular Atrophy. 2000 Feb 24 [Updated 2019 Nov 14]. In: Adam MP, Ardinger HH, Pagon RA, et al., editors. GeneReviews® [Internet]. Seattle (WA): University of Washington, Seattle; 1993-2020. 
  2. Talbot K, Tizzano EF. The clinical landscape for SMA in a new therapeutic era. Gene Ther. 2017;24(9):529-533. doi:10.1038/gt.2017.52
  3. The discovery of SMA
  4. PCDT Atrofia-Muscular-Espinhal-5q-Tipo-I
  5. Ministério da Saúde Atrofia Muscular-Espinhal-AME
  6. INAME – Tratamentos da AME 
Você sabe o que são Erros Inatos do Metabolismo?

Você sabe o que são Erros Inatos do Metabolismo?

Conheça mais sobre os Erros Inatos do Metabolismo

Os Erros Inatos do Metabolismo são doenças genéticas, hereditárias, que causam o mau funcionamento de alguma via metabólica. Com isso, o paciente apresenta níveis alterados de algumas substâncias importantes para o bom funcionamento do organismo.

Um diagnóstico precoce é essencial para essas doenças, pois o tratamento precisa ser iniciado o mais cedo possível para evitar as consequências mais graves dessas doenças. Mas como existem centenas de erros inatos, o diagnóstico pode ser bastante desafiador. 

Estima-se que cerca de 2 a cada 1.000 recém-nascidos são afetados por doenças causadas por esses erros.

 

Quais as causas dos Erros Inatos do Metabolismo?

Essas doenças são condições hereditárias causadas por alterações em um único gene, que leva ao mau funcionamento de alguma via metabólica do organismo. Cada via é responsável pelo processamento de nutrientes e produção de compostos específicos, e envolve diversas proteínas.

Essas proteínas são codificadas por seus respectivos genes. Por isso, existem diversos Erros Inatos do Metabolismo, causados por alterações em diversos genes que codificam alguma proteína envolvida nesses processos metabólicos.

A fenilcetonúria, por exemplo, é causada por alterações no gene PHEX, que codifica a proteína fenilalanina hidroxilase (PAH). Essa enzima é responsável por metabolizar o aminoácido fenilalanina, que se acumula no organismo dos pacientes com essa doença, podendo levar ao atraso de desenvolvimento neuropsicomotor e deficiência intelectual permanente.

Os Erros Inatos do Metabolismo podem ser classificados em grandes categorias dependendo do tipo de via metabólica afetada:

Quadro informativo listando os tipos de erros inatos do metabolismo e exemplos de doenças em cada grupo

 

Como essas doenças são herdadas?

Grande parte dos Erros Inatos têm padrão de herança autossômico recessivo. Isso significa que é preciso herdar cópias alteradas do gene causador da doença tanto da mãe quanto do pai.

Nesse tipo de herança, quando a pessoa possui somente uma cópia alterada (do pai ou da mãe), ela não desenvolve sintomas, mas é portadora, e tem um risco aumentado de ter filhos com doença.

 

Como é feito o diagnóstico?

Existem centenas de Erros Inatos do Metabolismo, e isso dificulta o diagnóstico.

Essas doenças se manifestam logo na infância e muitas vezes são diagnosticadas somente após meses ou anos do aparecimento dos sintomas. O que não é ideal.

Como elas afetam vias importantes no organismo, o diagnóstico precoce é essencial para que o tratamento possa ser iniciado o mais cedo possível, minimizando consequências mais graves da doença.

O Teste do Pezinho, um teste de triagem neonatal obrigatório e gratuito no Brasil, avalia algumas doenças desse grupo, como a Fenilcetonúria e a Deficiência de Biotinidase, causada por alterações no gene BTD que pode levar a distúrbios neurológicos e cutâneos.

As versões expandidas do Teste do Pezinho, disponíveis na rede privada e que analisam até 100 doenças, cobrem algumas dezenas de Erros Inatos do Metabolismo.

O Teste da Bochechinha, a triagem neonatal genética desenvolvida pela Mendelics, avalia mais de 120 doenças desse grupo dentre as mais de 320 doenças analisadas. Todas as doenças investigadas no teste são tratáveis e se desenvolvem na infância.

Caso já exista uma suspeita de doença causada Erros Inatos do Metabolismo, a Mendelics oferece o Painel de Doenças Tratáveis para confirmação do diagnóstico clínico. Esse exame exige um encaminhamento médico.

 

Quais os tratamentos?

Os Erros Inatos do Metabolismo afetam vias metabólicas causando acúmulos ou deficiências de substâncias no organismo. Os tratamentos para essas doenças consistem na regulação dos níveis metabólicos dessas substâncias. Muitas vezes tratamentos simples como restrição ou suplementação alimentar são suficientes para que o paciente tenha uma vida saudável.

A fenilcetonúria, por exemplo, pode ser manejada evitando alimentos ricos em fenilalanina, como carnes e laticínios, dentre outros. Já a deficiência de biotinidase é tratada com suplementação oral de biotina.

Os tratamentos para os erros inatos do metabolismo são muito eficientes, principalmente se a doença foi diagnosticada precocemente.

Consulte sempre o seu médico.


Referências:

National Human Genome Research Institute

Children’s Hospital of Pittsburgh

Nova pediatria

Você conhece a hemocromatose, a doença do Felipe Neto?

Você conhece a hemocromatose, a doença do Felipe Neto?

O que é Hemocromatose?

Recentemente (18/06), o Youtuber Felipe Neto publicou em suas redes sociais que havia sido diagnosticado com hemocromatose incompleta heterozigótica. Você conhece essa doença?

Hemocromatose se refere a doenças caracterizadas pelo acúmulo de ferro em vários órgãos como o fígado, coração e pâncreas. Os altos níveis de ferro danificam esses órgãos levando ao aparecimento de vários sintomas diferentes.

A forma mais comum de hemocromatose, também conhecida como hemocromatose clássica ou hemocromatose tipo I, afeta cerca de 1 a cada 100 pessoas mundialmente, em especial no norte da Europa.

 

Quais os sinais e sintomas da Hemocromatose?

O aumento dos níveis de ferro ocorre gradativamente por toda a vida, e os sintomas geralmente surgem entre os 40 e 60 anos de idade, sendo que as mulheres começam a ter sintomas, em média, dez anos mais tarde que os homens.

Pacientes com hemocromatose podem apresentar uma ampla gama de sintomas, pois o ferro se acumula e danifica diversos órgãos. Os sintomas mais comuns são:

  • Fadiga
  • Inflamação e dor nas juntas, principalmente nas mãos e joelhos
  • Dor abdominal
  • Perda de peso
  • Mudança da coloração da pele para tons “metálicos” (acinzentado ou cobre)

Se não tratada, a doença pode levar a sintomas mais graves como cirrose, diabetes e falência cardíaca.

 

Quais as causas da hemocromatose?

A hemocromatose clássica é causada por alterações no gene HFE, responsável por codificar a proteína que atua no controle dos níveis de ferro no organismo. Nos pacientes com hemocromatose, essa proteína não funciona corretamente e o corpo absorve mais ferro que o necessário.

As mutações mais comuns do gene HFE são conhecidas como C282Y e H63D. Cerca de 90% dos casos de hemocromatose são resultantes da mutação C282Y.

A hemocromatose tipo 2, também conhecida como hemocromatose juvenil, se manifesta por volta dos 20 anos de idade e é causada por alterações nos genes HJV e HAMP.

A hemocromatose tipo 3 geralmente se manifesta um pouco mais tarde que a do tipo 2, mais ainda antes dos 30 anos, na maioria dos casos. É causada por alterações no gene TFR2.

A hemocromatose tipo 4, também conhecida como doença da ferroportina, se manifesta como a forma clássica, após os 40 anos, e é causada por alterações no gene SLC40A1.

 

Como a hemocromatose é herdada?

A hemocromatose é uma doença de padrão autossômico recessivo, o que significa que é necessário herdar cópias alteradas do gene HFE de ambos os pais para desenvolver a doença.

Quando alguém possui uma cópia saudável e uma cópia alterada de um gene, dizemos que essa pessoa é heterozigota para a alteração nesse gene. Esse é o caso do Felipe Neto.

O Youtuber foi diagnosticado com hemocromatose incompleta heterozigótica. Isso significa que ele tem uma cópia alterada.

Pessoas que herdam somente uma cópia alterada desse gene são consideradas portadoras e podem não desenvolver os sintomas da doença. Os portadores têm risco aumentado de ter filhos com a doença.

Figura representando graficamente como se dá a herança recessiva

Figura 1. Padrão de herança recessiva

 

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico inicial é feito pela dosagem de ferritina, um exame bioquímico que mede a concentração de ferro disponível no organismo. Caso sejam detectados níveis altos de ferritina, outros exames devem ser feitos para confirmar o diagnóstico.

O exame genético pode ser feito com esse propósito e traz informações mais compreensivas sobre o quadro do paciente, pois identifica quais as mutações que estão causando a doença. Essa informação é muito importante, pois mutações diferentes causam quadros com diferentes severidades.

Um diagnóstico precoce é sempre importante, pois permite que o tratamento seja iniciado o mais cedo possível e evita as consequências mais graves da doença. Isso vale para qualquer doença. 

 

Quais são os tratamentos?

Por ser uma doença genética, não é possível curar a hemocromatose hereditária, mas é possível controlar a doença para evitar os sintomas.

O tratamento vai depender da severidade de cada caso. O objetivo é baixar os níveis de ferro e controlar para que eles permaneçam dentro de intervalos saudáveis.

Para isso, várias medidas podem ser tomadas, desde uma dieta controlada, com pouca ingestão de alimentos ricos em ferro, como carnes e grãos, até o uso de medicamentos e sangria, que funciona como uma doação de sangue, mas esse sangue é descartado.

Pacientes com casos mais graves, que já desenvolveram outras complicações como diabetes e cirrose, precisam de tratamentos específicos para cuidar desses outros problemas.

Mantendo os níveis de ferro dentro de um intervalo saudável, sendo por dieta, terapias medicamentosas ou sangria, o paciente não desenvolve os sintomas e tem uma vida normal.

 

Diagnóstico genético e a Mendelics

É importante ressaltar que exames de diagnóstico só podem ser realizados mediante solicitação e acompanhamento médico. Por isso converse com o seu médico!

Na Mendelics possuímos o Painel de Hemocromatoses, que analisa o gene HFE, e as mutações C282Y e H63D, além de outros quatro genes (HAMP, HJV, SLC40A1, TFR2), que podem causar os outros tipos de hemocromatose.

Quer saber mais sobre testes genéticos para diagnóstico das hemocromatoses? Deixe sua pergunta nos comentários abaixo ou entre em contato com a nossa equipe pelo telefone (11) 5096-6001 ou através do nosso site.


Referências

https://twitter.com/felipeneto/status/1405955892655366146

https://rarediseases.org/rare-diseases/classic-hereditary-hemochromatosis/

https://medlineplus.gov/genetics/condition/hereditary-hemochromatosis/

https://www.niddk.nih.gov/health-information/liver-disease/hemochromatosis/symptoms-causes

https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-do-sangue/sobrecarga-de-ferro/hemocromatose

Admirável Mundo Novo e a Manipulação Genética

Admirável Mundo Novo e a Manipulação Genética

Admirável Mundo Novo: Utopia ou profecia?

Se você já leu Admirável Mundo Novo, o famoso romance de Aldous Huxley, sabe que o livro retrata uma realidade muito diferente da que conhecemos hoje, onde a manipulação genética em humanos é uma prática rotineira. Se você não leu o livro, talvez tenha assistido o filme Gattaca, um clássico da ficção científica dos anos 1990, e que também retrata uma realidade distópica semelhante.

Em Admirável Mundo Novo, a genética humana foi moldada para o desenvolvimento de uma sociedade completamente saudável, sem qualquer doença, onde cada indivíduo é criado para um fim predeterminado.

Nesse post vamos falar um pouco sobre o mundo distópico apresentado no livro e discutir o que é realidade e o que é pura ficção.

 

Admirável mundo novo

A história se passa em um futuro distópico onde as pessoas são geradas de maneira totalmente artificial. Enquanto em Gattaca os embriões eram selecionados e inseminados artificialmente para passarem por uma gestação tradicional, em Admirável Mundo Novo todos são gerados e criados em uma espécie de fábrica até atingirem a idade adulta (1).

Se Gattaca já estava muito além do seu tempo, Admirável Mundo Novo, escrito em 1932, está tão distante da realidade que pode parecer completamente impossível.

Os cientistas responsáveis pela produção de embriões nessas fábricas usam diversas técnicas para alavancar o desenvolvimento de pessoas mais fortes e inteligentes para ocupar as posições mais altas da sociedade, e comprometer o desenvolvimento daquelas que ocuparão as posições mais baixas (1).

Todo o processo de seleção e desenvolvimento dos embriões é feito de forma a condicionar (treinar) aquele futuro indivíduo a exercer a sua função. Por exemplo, aqueles que trabalharão em locais mais quentes, como países tropicais ou dentro de fábricas, são inseminados e gerados em temperaturas maiores para que se acostumem a climas quentes (1).

Admirável Mundo Novo leva a manipulação genética ao extremo, insinuando que, no futuro, será possível desenvolver pessoas sob medida, controlando cada aspecto da fisiologia e comportamento.

Apesar de muito do que foi proposto no livro não respeitar as limitações da manipulação genética, ele mostra como essas técnicas podem ser utilizadas para melhorar a qualidade de vida das pessoas, diminuindo a incidência de doenças. Mas, então, o que é real e o que é ficção em Admirável Mundo Novo?

Tabela indicando o que é ficção e o que é real em Admirável Mundo Novo

 

Genética e Comportamento

As “fábricas de pessoas” de Admirável Mundo Novo, além de criarem os embriões todos in vitro, simulam as gestações desses embriões de forma totalmente sintética. Durante a gestação, os embriões são submetidos a diferentes condições de temperatura, luminosidade, e diferentes dietas, a depender da função que esse indivíduo deve exercer no futuro (1).

Esse condicionamento é a característica mais fantástica do processo reprodutivo descrito no livro, e corresponde muito pouco com a realidade.

Sabemos que algumas características do nosso comportamento têm contribuição genética. Na verdade, epigenética (abaixo). Mas o efeito do ambiente (educação, cultura, meio ambiente, estilo de vida etc), das nossas experiências, é muito mais marcante na determinação do nosso comportamento (2).

Epigenética: é um conjunto de alterações químicas que as nossas células usam para determinar quais genes ficam “ligados” e quais ficam “desligados”.

Porém, a relação entre o quanto da nossa epigenética pode ser “moldada” pelo ambiente, como a exposição a diferentes temperaturas ou diferentes dietas, ainda é muito pouco compreendida.

Além disso, sabemos que a epigenética muda durante a vida. Mesmo gêmeos idênticos (univitelinos), que têm o mesmo DNA, podem se tornar muito diferentes ao longo da vida, com epigenéticas bastante distintas (2).

Por isso, mesmo que fosse possível modelar o comportamento durante o desenvolvimento de um embrião, não há como impedir que ele mude durante a vida.

E, finalmente, alterar o processo natural de regulação epigenética utilizando essas técnicas de condicionamento pode causar alguns problemas. Erros nesse processo de regulação de genes ligados e desligados podem causar algumas síndromes, como:

    • Russel-Silver: alterações no braço curto do cromossomo 11 (em 11p15).
    • Angelman: alterações no braço longo do cromossomo 15 (em 15q11.2).
    • Prader-Willi: alterações no braço longo do cromossomo 15 (em 15q11.2). 
    • Beckwith-Wiedemann: alterações no braço curto do cromossomo 11 (em 11p15).

Apesar de não termos como controlar o surgimento dessas doenças, já é possível diagnosticá-las. A Mendelics disponibiliza exames de diagnóstico genético para essas quatro síndromes, além de muitas outras doenças de base genética.

 

Teste de Triagem de Portador – o que podemos fazer hoje?

Em Admirável Mundo Novo, as pessoas são “fabricadas” dentro de enormes laboratórios a partir de óvulos e espermatozoides selecionados (1). Como o livro foi escrito muito antes do surgimento das técnicas utilizadas para testes genéticos, não fica claro como essa seleção é feita.

Hoje temos testes específicos para verificar se os pais (e seus óvulos e espermatozóides) possuem alguma variante genética que pode ser passada para os filhos e causar doenças. São os testes de Triagem de Portador.

O Teste de Triagem de Portador da Mendelics testa mais de 160 genes associados ao desenvolvimento de mais de 150 doenças de base genética.

Assim, conhecendo os riscos de passarem variantes genéticas patogênicas (que causam doenças) para os filhos, os pais podem optar por fazer uma fertilização in vitro (FIV) e teste de diagnóstico genético pré-implantacional (PGD), para garantir que o bebê não receba essas variantes.

No entanto, o número de doenças que podemos analisar com esses testes ainda é limitado.

Conheça mais sobre Testes de Portador e Testes de Diagnóstico Genético Pré-Implantacional, além do nosso portfólio completo de exames genéticos no nosso site.

 


Referências:

  1. Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, 11ª ed. Rio de Janeiro: Hemus – Livraria Editora Ltda., 1969.
  2. D. S. Moore, “Behavioral epigenetics,” Wiley Interdisciplinary Reviews: Systems Biology and Medicine, vol. 9, no. 1, p. e1333, Dec. 2016, doi: 10.1002/wsbm.1333.
Junho Lilás: o mês da triagem neonatal

Junho Lilás: o mês da triagem neonatal

Mês da Conscientização da Triagem Neonatal

Dia 06 de Junho é o Dia Nacional da Conscientização da Triagem Neonatal, também chamado de Dia Nacional do Teste do Pezinho, uma data muito importante para pais e futuros pais, profissionais de saúde e para todos aqueles envolvidos na conscientização da importância do diagnóstico e tratamento precoce de doenças raras, como nós, da Mendelics.

Em referência a essa importante data e causa, o Instituto Jô Clemente e a Unisert (União Nacional dos Serviços de Referência em Triagem Neonatal) criaram a campanha Junho Lilás. Durante todo o mês, são realizadas diversas ações em prol da conscientização do Teste do Pezinho.

 

Você sabe o que é triagem neonatal? 

A palavra triagem significa seleção

Em saúde pública, triagem significa identificar indivíduos com risco de desenvolver uma doença antes do aparecimento dos  sintomas, para que possam ser implementados condutas médicas e tratamentos adequados, preventivos, capazes de alterar a história natural da doença proporcionando melhor qualidade de vida. A triagem neonatal é essa seleção realizada ainda nos primeiros dias de vida, em recém-nascidos

No Brasil, a triagem neonatal é conhecida como Teste do Pezinho e foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) no ano de 1992 (Portaria GM/MS n.º 22, de 15 de Janeiro de 1992) com uma legislação que determinava a obrigatoriedade do teste em todos os recém-nascidos vivos e incluía a avaliação para duas doenças: Fenilcetonúria e Hipotireoidismo Congênito. 

Nove anos depois, em 2001, o Ministério da Saúde reavaliou e reestruturou a triagem neonatal do SUS através do Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN) (Portaria GM/MS n.º 822, de 6 de junho de 2001), aumentando o número de doenças triadas e estruturando ações que promovam a prevenção, o tratamento e o cuidado integral. 

Atualmente, o Teste do Pezinho disponível no SUS analisa seis doenças

  1. Fenilcetonúria
  2. Hipotireoidismo congênito 
  3. Anemia falciforme 
  4. Hiperplasia adrenal congênita
  5. Fibrose cística 
  6. Deficiência de biotinidase 

No entanto, existem muitas outras doenças graves com tratamento disponível que poderiam ser triadas ainda nos primeiros dias de vida.

Visando que o Ministério da Saúde aumente o número de doenças triadas no Teste do Pezinho do SUS, várias iniciativas surgiram. 

A campanha “Pezinho no Futuro” do Instituto Vidas Raras promove a conscientização da importância da ampliação do Teste do Pezinho no SUS e coleta assinaturas em uma petição on-line, documento que precisa de 1 milhão de assinaturas para ganhar força de reivindicação junto ao governo.  

No dia 26 de maio de 2021, o Projeto de Lei 5043/20 que amplia o número de doenças rastreadas pelo Teste do Pezinho foi sancionado pelo Governo Federal. O PL estabelece uma ampliação do teste de forma escalonada em cinco etapas e passará a englobar mais de 50 doenças: 

  • 1º etapa: hiperfenilalaninemias;
  • 2º etapa: galactosemias, aminoacidopatias, distúrbios do ciclo da uréia, distúrbios da beta oxidação dos ácidos graxos;
  • 3º etapa: doenças lisossômicas;
  • 4º etapa: imunodeficiências primárias;
  • 5º etapa: atrofia muscular espinhal.

A Lei entrará em vigor em 2022.

 

Desafios do Teste do Pezinho

Além das limitações políticas e governamentais, limitações técnicas inerentes à metodologia utilizada no Teste do Pezinho, impedem que um maior número de doenças seja analisado pelo teste. 

Além disso, a data da coleta (idade do recém-nascido), cuidados no momento da coleta, o armazenamento e transporte da amostra podem afetar a amostra, gerando resultados falso-negativos ou inconclusivos que necessitam ser confirmados por outro teste. 

Centenas de doenças genéticas com tratamento não podem ser triadas pelo Teste do Pezinho, mas são identificadas através da análise do DNA.

O DNA é estável, não é alterado por fatores externos como a idade da criança, medicamentos, entre outros. 

Para contornar esses desafios, complementar o Teste do Pezinho do SUS e ampliar o número de doenças triadas ao nascimento, a Mendelics desenvolveu um teste de triagem neonatal genética chamado Teste da Bochechinha.

A triagem genética é uma abordagem que analisa diretamente o DNA em busca de alterações genéticas que predispõem o recém-nascido a desenvolver doenças tratáveis que se manifestam ainda na infância. Quanto mais cedo a doença for detectada, mais cedo o tratamento adequado pode ser iniciado, garantindo um melhor futuro para a saúde da criança. Por isso, TRIAR PARA TRATAR.

 

Teste da Bochechinha – a revolução da triagem neonatal

Através da análise genética, ou seja, diretamente no DNA do bebê, o Teste da Bochechinha é capaz de identificar mais de 320 doenças raras, graves e silenciosas que já possuem tratamento disponível.

O exame é integralmente realizado no Brasil, em uma plataforma de sequenciamento de alta tecnologia (NovaSeq, Illumina Inc.). A análise é feita com o apoio do premiado Abracadabra, software inovador de inteligência artificial e de apoio à decisão desenvolvido pela Mendelics. 

Além disso, contamos com a colaboração de mais de 15 médicos geneticistas com formação em Medicina Genômica, que estão envolvidos com a interpretação dos resultados do sequenciamento e com a elaboração dos laudos.

Para saber mais sobre a triagem neonatal, Teste do Pezinho e o Teste da Bochechinha e outros testes importantes para recém-nascidos, reunimos uma série de conteúdos e te convidamos a ler e compartilhar.

 

O que é Triagem Neonatal e qual sua importância?

A triagem neonatal é uma ação preventiva de grande importância para a avaliar o risco de desenvolvimento de doenças raras de manifestação precoce e tratáveis, em recém-nascidos assintomáticos (sem sintomas). O diagnóstico precoce e o tratamento destas doenças, pode ser iniciado antes do início dos sintomas, reduzindo, ou evitando, consequências graves e irreversíveis que impactam a vida da criança.

Entenda mais neste artigo.

 

Quais exames um bebê precisa fazer ao nascer?

Dentre os exames neonatais existentes no Brasil temos pelo menos quatro obrigatórios e disponíveis no SUS: os testes do Pezinho, do olhinho, da orelhinha e do coraçãozinho. 

Além destes exames que são oferecidos pelo sistema público, existem outros testes que podem ser realizados logo após o nascimento: as versões expandidas do Teste do Pezinho, o teste de SCID e AGAMA (análise de imunodeficiências congênitas) e o Teste da Bochechinha (triagem neonatal genética). 

Esses testes de triagem neonatal investigam doenças que, se identificadas precocemente e tratadas, podem não interferir no desenvolvimento da criança ou ter seu impacto reduzido, com uma melhora significativa na expectativa e qualidade de vida.

Entenda para que servem os testes de triagem neonatal e quando eles devem ser feitos neste artigo.

 

Teste do Pezinho: Para que serve e como é feito?

No Brasil a triagem neonatal é realizada por meio do PNTN. O teste básico oferecido pelo SUS, e conhecido popularmente como “Teste do Pezinho”, tria seis doenças (fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, anemia falciforme, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase) e é realizado através da coleta de uma gota de sangue do calcanhar do bebê.

Entenda mais neste artigo.

 

Testes do Pezinho ampliados e expandidos

Todos os bebês nascidos no Brasil têm o direito de realizar gratuitamente, pelo SUS, o Teste do Pezinho básico que rastreia seis doenças. Porém, existem várias outras versões desse teste que são oferecidas por laboratórios e hospitais da rede privada. Esses testes diferem entre si quanto às técnicas utilizadas, o número e grupo de doenças analisadas.

Entenda mais sobre esses testes nesse artigo.

 

O que é triagem neonatal genética?

Entenda o que é a triagem neonatal genética e quais são as diferenças em relação aos demais testes de triagem neonatal nesse artigo.

 

O que é o Teste da Bochechinha?

O Teste da Bochechinha é um teste de triagem neonatal genética que pode ser realizado a partir do primeiro dia de vida do bebê. Através da uma amostra coletada da mucosa bucal, analisamos o DNA de recém-nascidos para identificar mais de 320 doenças raras que podem se manifestar na infância, todas com tratamento já disponível no Brasil.

Conheça mais sobre o Teste da Bochechinha, um produto Mendelics, no nosso Blog.

 

Diagnóstico Genético e a Triagem Genética: Entenda a diferença

Com o aumento da acessibilidade dos testes genéticos, uma dúvida se tornou comum: qual a diferença entre diagnóstico genético e testes de triagem genética. 

Existem importantes diferenças entre esses dois tipos de exames. O momento ideal de se realizar cada um deles e para quem são mais indicados, são exemplos de questões a serem consideradas na escolha. 

Esclarecemos essas e outras dúvidas nesse artigo. Continue lendo.

 

Exemplo real: conheça a história do Benício e como o Teste da Bochechinha foi fundamental para seu diagnóstico

Maria de Lourdes e Bruno são pais dos gêmeos Bruno e Benício. Ao observarem diferenças no comportamento e no desenvolvimento do Benício, em comparação com seu irmão gêmeo, começaram uma jornada em busca de alguma explicação. 

Benício passou por vários especialistas e realizou diferentes exames até que ouviram falar do Teste da Bochechinha. 

Benício possui cistinose nefropática, e nessa entrevista, seus pais contam como o Teste foi decisivo e essencial para seu diagnóstico. Continue lendo.