The Bold Type e o Câncer de Mama

The Bold Type e o Câncer de Mama

A jornada de uma portadora de mutação nos genes BRCA1 e BRCA2

 

A série The Bold Type, disponível na Netflix, conta as histórias de três amigas, Jane, Sutton e Kat, que trabalham em uma grande e famosa revista de moda, a Scarlet.

Logo na primeira temporada, a série já começa a destrinchar a relação de Jane com o câncer de mama. A personagem, uma das redatoras da Scarlet, é incumbida de escrever um artigo sobre testes genéticos para detecção de mutações que aumentam o risco de desenvolver a doença.

Fica visível que Jane não se sente confortável com a tarefa. Esse desconforto se torna ainda mais aparente quando ela entrevista uma médica que incentiva mulheres com histórico familiar de câncer de mama a se testarem, mesmo que muito jovens, o que Jane parece achar um exagero.

Questionada sobre seu histórico familiar, Jane revela à médica que sua mãe era portadora de uma mutação nos genes BRCA (BReast CAncer gene) e morreu muito jovem, aos 32 anos de idade, lutando contra o câncer de mama. Nesse momento entendemos o motivo da relutância da personagem com o teste que poderia revelar se ela também possui a mutação.

Mulheres portadoras de mutações nos genes BRCA têm risco aumentado de desenvolver câncer de mama. Mutações no gene BRCA1 aumentam o risco para até 87%, enquanto mutações no gene BRCA2 aumentam o risco para até 88%. Essas mutações também aumentam o risco de desenvolver câncer de ovário.

Outubro Rosa - A descoberta do gene BRCA1

A ansiedade da personagem sobre o assunto aumenta quando ela vê a campanha da própria Scarlet para o Outubro Rosa. Assim como muitas outras empresas, a revista optou por falar de prevenção de forma leve, alegre até, sem considerar a dificuldade e angústia que acompanham o diagnóstico e tratamento do câncer, algo que Jane conhece bem.

Falar sobre a realidade de pacientes com câncer de mama é delicado, e deve ser feito com cuidado e respeito. Por isso, Jane resolve superar o seu medo e falar da sua história no artigo para a Scarlet. E o primeiro passo dela foi fazer o teste para câncer hereditário.

O resultado do teste foi positivo. Jane herdou a mutação da mãe.

A personagem precisa agora lidar com essa informação e com os próximos passos e decisões que precisa tomar. Felizmente, Jane possui uma boa rede de apoio que a ajudou a superar esse momento. Além de uma médica muito competente, que explicou muito bem o que o resultado significava e quais as medidas preventivas que ela poderia tomar.

Somado aos autoexames e exames preventivos periódicos, como mamografias e ultrassons, Jane eventualmente opta por uma dupla mastectomia: a retirada das duas mamas. Ela toma a decisão depois de encontrar um nódulo em uma das mamas. Apesar dos exames indicarem que não era maligno, a preocupação foi suficiente para que ela decidisse operar.

Apesar de ser pouco discutida, a mastectomia é uma das formas mais efetivas de prevenir o câncer de mama em pessoas com alto risco. O assunto ficou em evidência em 2013, quando a atriz americana Angelina Jolie anunciou que tinha passado pela cirurgia depois de testar positivo para uma mutação no BRCA1.

A dupla mastectomia reduz o risco de desenvolver câncer de mama em 95% em mulheres dentro do grupo de risco, como Jane e Angelina Jolie. E a salpingo-ooforectomia (remoção dos ovários e trompas) preventiva reduz o risco de câncer de mama em 50%, e de câncer de ovário em 90%.

Outubro Rosa - Efeito Angelina Jolie - eficácia das cirurgias profiláticas para redução do risco de câncer de mama

Histórias reais de pacientes, sobreviventes e portadores de alto risco são muito importantes para as campanhas de conscientização. Depois que a atriz Angelina Jolie se pronunciou, o número de exames e cirurgias preventivas aumentou muito. Esse aumento foi chamado de “Efeito Angelina Jolie” , e mostra que exemplos reais podem contribuir muito na conscientização e prevenção do câncer de mama.

Katie Stevens, que interpreta Jane na série The Bold Type, também compartilhou sua experiência. A atriz, assim como sua personagem, encontrou um nódulo em uma das mamas durante um autoexame. Felizmente, o tumor foi diagnosticado como benigno. Nas redes sociais, ela fala sobre a importância das mulheres fazerem o autoexame e exames preventivos regulares.

A série The Bold Type aborda o câncer de mama de um ângulo incomum. Jane retrata a história de muitas mulheres com histórico familiar da doença e que precisam lidar com decisões difíceis sobre saúde e prevenção, mesmo quando ainda muito jovens.

Mostra também o impacto que as campanhas de conscientização têm na população, e o cuidado que deve ser tomado ao construí-las.

 

Outubro Rosa na Mendelics

A Mendelics tem como missão tornar o diagnóstico genético rápido, preciso e acessível para todos que precisam. Acreditamos que para atingir esse objetivo precisamos, também, informar.

A campanha #AbraceSuaGenética traz conteúdos informativos sobre o câncer de mama: o que é e como se desenvolve, quais os fatores de risco e as medidas preventivas, principalmente focado em câncer de mama hereditário.

Confira todos os posts na nossa categoria Outubro Rosa.

O câncer de mama hereditário, retratado em The Bold Type, corresponde a cerca de 10% dos casos diagnosticados. Costuma se manifestar em vários membros da família, que compartilham alguma mutação genética que aumenta o risco da doença.

As mutações que aumentam o risco de desenvolver câncer de mama hereditário podem ser identificadas antes mesmo do aparecimento do tumor, analisando o DNA. A Mendelics possui diversos painéis para a investigação de cânceres hereditários, incluindo o Painel de Câncer de Mama e Ovário Hereditários, que analisa 37 genes associados a essas doenças.

Esse tipo de exame é importante pois traz a informação de qual mutação está presente no portador. Cada mutação aumenta o risco de uma forma diferente e pode ajudar a definir as medidas preventivas e o melhor tratamento, caso o portador desenvolva o câncer.

Além disso, o resultado pode beneficiar outros membros da família, que também podem ser portadores da mesma mutação.

É importante ressaltar que as mutações que aumentam o risco de câncer de mama, como nos genes BRCA1 e BRCA2, não afetam somente as mamas, mas também aumentam o risco de desenvolver câncer nos ovários e pâncreas. Além disso, as mutações também afetam homens, aumentando o risco de câncer de mama, pâncreas e próstata.

Quando falamos de câncer hereditário, as campanhas do Outubro Rosa e do Novembro Azul andam lado a lado. A prevenção é para toda a família.

Se você tem histórico familiar de câncer, consulte um médico e veja como se prevenir.

Abrace sua genética!

Conheça os exames genéticos para câncer de mama


Referências

  1. Engel and C. Fischer. Breast cancer risks and risk prediction models. Breast care, vol. 10, no. 1, pp. 7–12. 2015. Doi: 10.1159/000376600.
Epidermólise Bolhosa: conheça essa doença rara

Epidermólise Bolhosa: conheça essa doença rara

O que é a Epidermólise Bolhosa? 

A Epidermólise Bolhosa (EB) não é uma única doença, mas um grupo de doenças genéticas raras e hereditárias que se manifestam desde o nascimento e afetam tanto homens quanto mulheres, de todas as etnias e faixas etárias (1, 2).

Estima-se que a incidência da EB é de cerca de 20 casos por um milhão de nascidos vivos. No Brasil, não existem dados bem estabelecidos sobre a frequência da doença. Segundo o cadastro da Associação DEBRA, existem pouco mais de 1000 pessoas diagnosticadas com EB no país (3).  

Pacientes com EB têm a pele muito frágil, com formação de bolhas e feridas abertas devido a traumas mínimos, muitas vezes triviais, como após um abraço ou uma troca de fralda (1,2). 

No Brasil, as crianças com EB são chamadas “Crianças Borboletas”, porque a pele se assemelha às asas de uma borboleta devido à fragilidade provocada pela doença. 

Os efeitos que a EB tem na vida de uma criança variam consideravelmente: algumas crianças têm uma forma leve da doença, que requer apenas precauções para prevenir lesões; no outro extremo, a EB pode ser completamente incapacitante, necessitando de cuidados médicos contínuos e, em alguns casos, é fatal.  É comum que a EB provoque dor e afete a vida cotidiana das pessoas acometidas (1,2,3). 

Existem quatro tipos principais de EB com vários subtipos e um grande espectro de gravidade dentro de cada um deles (1,2).

epidermólise bolhosa

 

Epidermólise Bolhosa: subtipos e sintomas

Epidermólise Bolhosa Simples (EBS)

Este é o tipo mais comum. Na forma mais branda as bolhas geralmente ocorrem apenas nas mãos e nos pés do recém-nascido e desaparecem com a idade. Nas formas graves, a formação de bolhas pode ser generalizada e ocorrer em qualquer parte da pele ou dentro da boca, e tende a ser mais séria ao nascimento, mas também diminui sua gravidade com a idade. À medida que as bolhas desaparecem, a pele costuma  cicatrizar sem deixar marcas.

 

Epidermólise Bolhosa Distrófica (EBD):

Segunda forma mais comum e a que deixa mais sequelas. As bolhas são profundas e se formam entre a derme e a epiderme, o que leva a cicatrizes maiores e muitas vezes à perda da função do membro. Em casos leves, a formação de bolhas pode afetar principalmente as mãos, pés, joelhos e cotovelos. Os casos graves geralmente envolvem bolhas generalizadas em várias partes do corpo que podem levar à perda de visão, perda de membros, desfiguração, entre outros problemas médicos graves. 

 

Epidermólise Bolhosa Juncional (EBJ):

A EBJ é separada em duas categorias: o tipo Herlitz, mais grave, com bolhas profundas que acometem a maior parte do corpo, podendo levar ao óbito antes do primeiro ano de vida; e o tipo Não-Herlitz, que inclui vários subtipos que causam bolhas leves a graves na pele, presentes desde o nascimento ou alguns dias, ou meses depois.

 

Síndrome de Kindler:

É o tipo mais raro. Causa bolhas na pele no início da infância e outros sintomas que podem incluir aumento da sensibilidade à luz, descoloração irregular da pele, a formação de pequenos grupos de vasos sanguíneos (poiquilodermia), espessamento e endurecimento da pele nas palmas das mãos e plantas dos pés (hiperceratose), e um risco aumentado de câncer de pele. A condição também pode afetar a mucosa da boca, olhos, esôfago, intestinos, órgãos genitais e sistema urinário.

Conheça o espetáculo “Cura” inspirado na história real de uma criança com Epidermólise Bolhosa. 

 

Qual é a causa da Epidermólise Bolhosa?

A EB pode ser causada por mutações em diferentes genes que desempenham vários papéis na estrutura, integridade e reparo da pele (1).

O padrão de herança da EB pode ser autossômica dominante ou autossômica recessiva, dependendo do tipo e subtipo de EB.

Genes da Epidermólise Bolhosa (EB)

Fonte: Bardhan et al., 2020 e Has et al., 2021.

Entenda mais sobre padrões de herança e como as doenças genéticas são herdadas.

Existe uma doença autoimune rara chamada epidermólise bolhosa adquirida. Esse post não se refere a esse tipo de epidermólise bolhosa. 

 

Qual é o tratamento da Epidermólise Bolhosa?

A EB não tem cura, mas possui tratamento, que deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar (3, 4, 5). 

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece curativos especiais para o tratamento das feridas provocadas pela doença e outros tipos de procedimentos realizados de acordo com o quadro clínico de cada paciente (5).  

Um diagnóstico precoce é sempre importante, pois permite que o tratamento seja iniciado o mais cedo possível e evita as consequências mais graves da doença. Com tratamento e acompanhamento adequados, é possível prever e até evitar complicações.

 

Como é feito o diagnóstico da Epidermólise Bolhosa?

O diagnóstico dos casos suspeitos é realizado através de biópsia de pele e teste genético (2, 3, 4, 5).

Através do teste genético é possível identificar quais mutações estão causando a doença, qual é o tipo de EB e, consequentemente, a forma que está sendo transmitida na família. Essa informação é muito importante, pois mutações diferentes causam quadros com diferentes graus de severidade (2, 4).

 

Diagnóstico genético da Epidermólise Bolhosa 

Para garantir o diagnóstico rápido, preciso e acessível da EB, a Mendelics oferece o Painel de Epidermólise Bolhosa, um exame de Painel de Sequenciamento de Nova Geração (Next Generation Sequencing, NGS) que inclui 25 genes relacionados aos diferentes subtipos de EB. 

Conheça o Painel de Epidermólise Bolhosa da Mendelics.

Além disso, para contribuir, ainda mais, com o diagnóstico precoce da EB, a Mendelics participou do projeto de sequenciamento genético gratuito para pacientes com EB do Brasil em parceria com a DEBRA Brasil e a Illumina, no qual foram realizados 400 exames de sequenciamento para as pessoas com suspeita de EB (6).  

Converse com um médico de sua confiança e, se houver a necessidade de um exame diagnóstico genético, entre em contato conosco!

 


Referências

  1. Epidermolysis bullosa | Genetic and Rare Diseases Information Center (GARD) – an NCATS Program. Nih.gov. Published 2018. Accessed October 15, 2021. https://rarediseases.info.nih.gov/diseases/6359/epidermolysis-bullosa\
  2. Bardhan A, Bruckner-Tuderman L, Chapple ILC, Fine JD, Harper N, Has C, Magin TM, Marinkovich MP, Marshall JF, McGrath JA, Mellerio JE, Polson R, Heagerty AH. Epidermolysis bullosa. Nat Rev Dis Primers. 2020 Sep 24;6(1):78. doi: 10.1038/s41572-020-0210-0. PMID: 32973163.
  3. Brasil D. O que é EB? – DEBRA Brasil. DEBRA Brasil. Published March 5, 2021. Accessed October 15, 2021. https://debrabrasil.com.br/o-que-e-eb/
  4. Epidermólise Bolhosa: o que é, características, tratamento e cuidados. Saude.gov.br. Published 2019. Accessed October 15, 2021. https://antigo.saude.gov.br/saude-de-a-z/epidermolise-bolhosa
  5. http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2021/20210920_DDT_EB_CP79.pdf
  6. Brasil D. Sequenciamento gratuito – DEBRA Brasil. DEBRA Brasil. Published June 2021. Accessed October 20, 2021. https://debrabrasil.com.br/sequenciamento-gratuito/
  7. Has C, Bauer JW, Bodemer C, et al. Consensus reclassification of inherited epidermolysis bullosa and other disorders with skin fragility. British Journal of Dermatology. 2020;183(4):614-627. doi:10.1111/bjd.18921
Sequenciamento Sanger: vantagens para a medicina contemporânea

Sequenciamento Sanger: vantagens para a medicina contemporânea

Entenda mais sobre a técnica de sequenciamento Sanger, que possibilitou o sequenciamento do primeiro genoma humano e como ela ainda é importante 20 anos depois.

 

História do Sequenciamento Sanger

A tecnologia de sequenciamento Sanger surgiu na década de 70 e foi o primeiro grande passo para o sequenciamento massivo de DNA, sendo conhecida hoje como sequenciamento de primeira geração. Essa foi a tecnologia que permitiu o lançamento do Projeto Genoma Humano em 1991, que prometia sequenciar o primeiro genoma humano nos 15 anos seguintes.

Em 2001, o Projeto Genoma Humano publicava o rascunho do primeiro genoma humano, 4 anos antes do previsto, graças ao Sanger e ao desenvolvimento de técnicas de sequenciamento massivo em paralelo, também conhecido como Sequenciamento de Nova Geração (NGS), que teve início na década de 1990.

 

Sequenciamento Sanger x Sequenciamento de Nova Geração

A tecnologia NGS é hoje a principal ferramenta utilizada para sequenciamento na área diagnóstica. Com ela é possível sequenciar várias regiões do DNA, e várias amostras, ao mesmo tempo, reduzindo muito o custo da análise por amostra. No entanto, esse tipo de ensaio tem suas limitações, que podem, em muitos casos, ser sanadas pela tecnologia Sanger.

Na imagem abaixo é possível ver que, com NGS, o DNA é quebrado em pequenos fragmentos, que são sequenciados e depois realinhados através de ferramentas de bioinformática, como um grande quebra-cabeças. Isso dificulta analisar regiões homólogas (semelhantes) e repetitivas do DNA por NGS, pois não sabemos onde encaixar esses fragmentos.

Ilustração comparando a análise de regiões homólogas (semelhantes) por sequenciamento de nova geração (NGS) e por sequenciamento Sanger

Figura 1. Comparação entre análises de regiões homólogas por Sequenciamento de Nova Geração (NGS) e por Sequenciamento Sanger.

Esse problema pode ser resolvido sequenciando fragmentos mais longos, que compreendam as regiões flanqueadoras (regiões que cercam esses trechos). Com peças maiores, é mais fácil resolver o quebra-cabeça.

Enquanto o NGS analisa fragmentos de até 300 pares de bases (pb), o sequenciamento Sanger permite analisar fragmentos que chegam a cerca de 800pb, sendo mais indicado para a análise de regiões complexas.

O sequenciamento tipo Sanger utiliza alguns nucleotídeos modificados com fluoróforos (moléculas que emitem luminescência), e resulta em cópias com diferentes tamanhos da sequência do DNA de interesse, mas que se iniciam na mesma posição, como mostrado na figura abaixo.

Os fragmentos são separados por tamanho e as bases finais de cada cópia são identificadas pela fluorescência.

Ilustração de como é feito o sequenciamento sanger, onde os nucleotídeos alterados com fluoróforos identificam a inserção de cada base que compõe a sequência

Figura 2. Sequenciamento Sanger. Os fragmentos sequenciados são identificados por tamanho e pela fluorescência emitida pela última case adicionada. Dessa forma é possível determinar a sequência de nucleotídeos da região de interesse.

 

Dessa forma, o sequenciamento Sanger permite identificar variantes genéticas em sequências mais longas de DNA, sem a necessidade de uma etapa computacional de reconstrução dos trechos sequenciados.

 

Sanger no diagnóstico de doenças causadas por regiões complexas

Um bom exemplo do uso do sequenciamento Sanger na medicina atual é no diagnóstico da Hiperplasia Adrenal Congênita (CAH) resultante da deficiência da enzima 21-hidroxilase.

Essa doença leva à produção excessiva de hormônios andrógenos (masculinos), podendo causar o desenvolvimento de genitália ambígua em pessoas do sexo feminino, além de puberdade precoce em ambos os sexos.

Cerca de 75% dos casos também apresenta deficiência do hormônio aldosterona, que leva à dificuldade de reter água e sais, causando desidratação, baixo volume de sangue circulante (hipovolemia) e pressão baixa (hipotensão).

A CAH com deficiência de 21-hidrogenase é causada por alterações no gene CYP21A2, que possui um pseudogene homólogo, o CYP21A1P. Esse pseudogene é uma região do DNA muito semelhante ao gene CYP21A2, porém não é funcional, ou seja, a partir dele não é possível produzir a enzima 21-hidroxilase.

Durante a formação dos gametas ocorrem alguns eventos de recombinação do DNA, nos quais os pares de cromossomos se recombinam resultando em sequências híbridas daquelas que herdamos dos nossos pais. Durante esse processo, regiões homólogas (CYP21A2 e CYP21A1P, por exemplo) podem ser indevidamente pareadas e, consequentemente, trocadas durante a recombinação.

Como mostrado na figura abaixo, tanto a troca de regiões entre o gene CYP21A2 e o pseudogene CYP21A1P, quanto a união deles (resultado de uma deleção) podem comprometer a produção da 21-hidrogenase. Cerca de 95% das alterações genéticas que levam à CAH são resultantes de recombinações entre as regiões homólogas.

Ilustração dos eventos de recombinação e deleção na região do gene CYP21A2 e do pseudogene CYP21A1P que resultam em Hiperplasia Adrenal Congênita (CAH) com deficiência da enzima 21-hidroxilase.

Figura 3. Ilustração dos eventos de recombinação e deleção na região do gene CYP21A2 e do pseudogene CYP21A1P que resultam em Hiperplasia Adrenal Congênita (CAH) com deficiência da enzima 21-hidroxilase.

O sequenciamento de Sanger é capaz de identificar essas recombinações e atingir uma taxa diagnóstica mais alta que os painéis de NGS, que não conseguem sequenciar toda a região de interesse em uma única sequência. Por isso, Sanger é a metodologia mais indicada para o diagnóstico de CAH com deficiência de 21-hidrogenase.

Na Mendelics o diagnóstico da Hiperplasia Adrenal Congênita resultante da deficiência da enzima 21-hidroxilase é feito por Sanger e MLPA, para a identificação das variantes resultantes de recombinações e das deleções, respectivamente, atingindo uma alta taxa diagnóstica para a doença.

Conheça o exame

 

Consulte sempre seu médico e, se precisar de um exame diagnóstico, entre em contato com a nossa equipe.


Referências

Khan Academy – Sequenciamento de DNA

National Human Genome Research Institute (NHGRI) – DNA Sequencing Costs: Data

National Organization for Rare Disorders – Congenital Adrenal Hyperplasia

Nimkarn S, et al. 21-Hydroxylase-Deficient Congenital Adrenal Hyperplasia. 2002. In: Adam MP, et al., editors. GeneReviews® [Internet]. Seattle (WA): University of Washington, Seattle; 1993-2021.

Pignatelli D., et al. The complexities in genotyping of congenital adrenal hyperplasia: 21-Hydroxylase deficiency. 2019. Frontiers in Endocrinology, vol. 10.

Câncer: Mutação somática x germinativa 

Câncer: Mutação somática x germinativa 

Quais são as origens das mutações associadas ao câncer?

 

Câncer é um grupo de mais de 100 doenças causadas por variantes patogênicas (mutações) em genes que atuam na divisão e crescimento celular.

As mutações fazem com que esses genes não executem suas funções corretamente, o que permite que as células escapem dos controles normais de crescimento e se dividam incontrolavelmente, formando o tumor.

Entenda mais sobre as causas do câncer e a importância dos exames genéticos.  

Essas mutações podem ser divididas em duas grandes categorias com base no tecido onde se originam. A origem da mutação é importante para a classificação do câncer e, principalmente, para a escolha de exames investigatórios e tratamentos.

 

Mutação na linhagem germinativa e mutação somática: qual é a diferença?

 

Mutação Somática

Mutações somáticas, ou adquiridas, são a causa mais comum de câncer e resultam de danos acumulados no DNA ao longo da vida, nas células somáticas, que são todas as células do nosso corpo com exceção das que dão origem aos óvulos e espermatozoides (Figura 1).

Esses danos podem ocorrer devido a vários fatores internos do organismo (exemplo: erros de divisão da própria célula) ou fatores externos, agentes carcinógenos (exemplos: tabagismo, exposição a produtos químicos, infecções, e radiação solar).  

Essas variantes somáticas surgem pontualmente em algumas células do corpo e não são passadas de pais para filhos (Figura 1)

Por exemplo, o câncer de mama pode se desenvolver devido a mutações que ocorrem durante a vida e se acumulam nas células da mama. Essas células alteradas, a princípio, só afetam a mama e não estarão presentes em outros órgãos do corpo (com exceção dos casos onde ocorre uma metástase – a disseminação das células cancerosas através da corrente sanguínea ou dos vasos linfáticos para outras áreas do corpo).

Os cânceres que ocorrem por variantes somáticas são chamados cânceres esporádicos. Cerca de 90% dos cânceres ocorrem devido a variantes somáticas. 

O acúmulo de variantes genéticas somáticas durante a vida é comum em todas as células e não necessariamente causam câncer, pois a maioria delas são mutações neutras ou estão em partes não codificantes do genoma.

 

Mutação da linhagem germinativa

As mutações da linhagem germinativa são muito menos comuns, representando cerca de 5% a 10% de todos os cânceres

Uma variante da linhagem germinativa está presente nas células germinativas (gametas: espermatozoide e óvulo) e é passada diretamente de um pai/mãe para um filho no momento da concepção. À medida que o embrião se desenvolve no útero da mãe, a variante patogênica é copiada para todas as células do corpo, incluindo nas células germinativas do bebê. 

Os cânceres causados ​​por variantes patogênicas da linhagem germinativa são chamados de herdados ou hereditários. Mais de 50 diferentes síndromes de câncer hereditário já foram identificadas, como a síndrome de câncer de mama e ovário hereditários

 

 

origens do câncer hereditário e germinativo

Figura 1: Ilustração da origem das mutações associadas ao câncer somático (esquerda) e hereditário(direita).

 

Saiba mais sobre o câncer de mama hereditário.

É importante ressaltar que estar exposto aos fatores de risco ou ter herdado uma variante patogênica associada ao câncer hereditário aumenta o risco de desenvolver câncer (comparado a quem não está exposto aos fatores ou não possui variante patogênica), mas não significa que a pessoa definitivamente terá a doença ao longo da vida.

 

Exames genéticos para diagnóstico de câncer

Compreender as mutações associadas ao câncer pode ajudar os especialistas a determinar quais terapias podem ser mais eficazes. 

Exames genéticos são capazes de detectar quais mutações estão associadas ao tumor do paciente e sua origem, se herdada ou somática. Essas informações podem ser utilizadas na definição de um plano de tratamento personalizado para o paciente, e no alerta para sua família.

 

Câncer esporádico – exame genético para estudo de variantes somáticas

Os exames genéticos para câncer esporádico analisam uma amostra do tumor para identificar as mutações somáticas presentes nele. Esse exame é conhecido como perfil molecular de biomarcadores oncológicos ou perfil molecular do tumor e pode ser realizado através de uma biópsia do tumor ou biópsia líquida, realizada com amostra de sangue (Figura 2).

O resultado do exame é importante para compreender o prognóstico do paciente e para a escolha de terapias específicas direcionadas ao perfil genético do tumor.

Hoje os principais testes genéticos para tratamento de câncer esporádico são de painéis de NGS.

 

Câncer hereditário – exame genético para estudo de variantes germinativas

Os exames genéticos para câncer hereditário analisam uma amostra do paciente, não do tumor, para identificar as mutações germinativas presentes nele (Figura 2). 

No câncer hereditário a mutação que causa a doença está presente em todas as células do corpo do paciente, por isso, exames para detecção desse tipo de câncer são realizados com amostra de DNA do sangue, mucosa bucal, saliva ou qualquer outro tecido.

Os principais exames genéticos para câncer hereditário são realizados por Sequenciamento de Nova Geração (NGS), como o Painel de Câncer de Mama e Ovário Hereditários, e exames de MLPA. Eles servem para diagnóstico (confirmar se a causa do câncer é hereditária) e para definir procedimentos e tratamentos preventivos, além de servir de alerta para a família do paciente, que deve seguir com medidas preventivas, como aconselhamento genético e acompanhamento médico regular.  

 

exames genéticos para câncer somático e hereditário

Figura 2: Ilustração dos diferentes tipos de amostras utilizadas nos exames genéticos para diagnóstico de câncer somático (esquerdo) e hereditário (direito).

 

Dependendo do tipo de câncer, os exames genéticos para câncer somático (análise molecular do tumor) e hereditário (pesquisa por variantes patogênicas germinativas) podem ser mutuamente indicados ​​para ajudar a selecionar as opções de tratamento.

Saiba mais sobre testes genéticos e seu impacto no tratamento para câncer de mama hereditário.

 

Outubro Rosa na Mendelics

Outubro Rosa é uma campanha realizada anualmente no mês de outubro com o objetivo de promover a conscientização sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento do câncer de mama. 

Sabemos que a predisposição genética é um dos fatores de risco mais bem estabelecidos para câncer de mama, com até 10% dos casos sendo causados por mutações herdadas. Por isso, queremos ressaltar a importância dos exames genéticos para famílias com múltiplos casos de câncer. 

Abrace Sua Genética!

O autocuidado vai além da mamografia. Nesse #OutubroRosa lembre-se de que os exames genéticos são aliados na prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. 

A Mendelics oferece vários exames genéticos para câncer hereditário. Converse com um médico de sua confiança e, se houver a necessidade de um exame de diagnóstico genético, entre em contato conosco!

Dúvidas? Deixe sua pergunta nos comentários abaixo.  

 

Conheça os exames genéticos para câncer de mama


Referências

  1. Anthony JF Griffiths, Miller JH, Suzuki DT, Lewontin RC, Gelbart WM. Somatic versus germinal mutation. Nih.gov. Published 2017. Accessed September 28, 2021. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK21894/
  2. NCI Dictionary of Cancer Terms. National Cancer Institute. Published 2021. Accessed September 28, 2021. https://www.cancer.gov/publications/dictionaries/cancer-terms/def/somatic-mutation
  3. NCI Dictionary of Cancer Terms. National Cancer Institute. Published 2021. Accessed September 28, 2021. https://www.cancer.gov/publications/dictionaries/cancer-terms/def/germline-variant
Filme Fundamentals of Caring e a Distrofia Muscular de Duchenne

Filme Fundamentals of Caring e a Distrofia Muscular de Duchenne

The Fundamentals of Caring – O filme 

Escrito e dirigido por Rob Burnett e baseado na obra literária The Revised Fundamentals of Caregiving, de Jonathan Evison, The Fundamentals of Caring, ou ‘Amizades Improváveis’ em português, é um filme americano de comédia-drama inspiracional que conta as histórias de Ben (Paul Rudd) e Trevor (Craig Roberts), ambos feridos e frustrados pela vida, cada um a sua maneira: Ben pela tristeza e Trevor pela deficiência que possui.

O enredo se inicia contando a realidade de Ben, um escritor aposentado desiludido pelo fim de seu casamento e assombrado pela perda de seu filho. Ben resolve se tornar um cuidador e é contratado para cuidar de Trevor, um jovem de 18 anos que possui Distrofia Muscular de Duchenne (DMD).

Cadeirante devido à DMD, Trevor passava sua adolescência deprimido em uma rotina fixa e acomodada em casa, sem iniciativa e motivação para se permitir viver novas experiências.

A trama gira em torno da amizade que se iniciou entre os dois e culminou em uma viagem de carro pelos Estados Unidos até o poço mais profundo do mundo. Ao longo da viagem os dois amigos experimentam novos gostos, sensações e emoções e mudaram o curso de suas vidas para sempre.

Durante o percurso, duas mulheres se unem aos dois amigos na estrada: Dot (Selena Gomez), uma jovem rebelde que está fugindo da casa do pai, e Peaches (Megan Ferguson), uma mulher grávida que está com o carro quebrado e pede carona. Logo, a viagem se torna uma aventura à parte, que tira Trevor totalmente da sua zona de conforto ao conhecer e conviver com pessoas desconhecidas, com histórias tão diferentes, e, também, por se apaixonar pela primeira vez.

Diversão, amizade, tristeza, amadurecimento e superação de desafios, são só alguns dos sentimentos e mensagens que o filme traz. Ben, Trevor, Dot e Peaches conseguem chegar no poço mais profundo do mundo, e no caminho muitas surpresas acontecem. Em plano de fundo, Ben consegue mostrar para Trevor que a DMD não é desculpa para ele não se permitir viver, e que existe um mundo muito grande além do conforto e segurança de sua casa.

O filme traz grandes reflexões sobre aproveitar a vida e não se limitar, o valor da amizade e do cuidado ao próximo.  Além disso, é uma oportunidade para conscientização sobre a Distrofia Muscular de Duchenne, uma doença rara que faz parte de um grupo de cerca de 30 doenças neuromusculares que causam degeneração e fraqueza nos músculos do corpo.

O filme está disponível no streaming Netflix.

 

Sobre a Distrofia Muscular de Duchenne

A Distrofia Muscular de Duchenne ou DMD é uma doença genética rara, grave, crônica e progressiva que afeta 1 a cada 3.500 nascidos do sexo masculino. É causada por variantes patogênicas no gene DMD que codifica a distrofina, uma proteína importante para a sustentação e aderência dos músculos no esqueleto.

A DMD é uma doença com padrão de herança recessivo ligado ao cromossomo X, logo, afeta o sexo masculino e feminino de formas diferentes. Meninos, que possuem apenas uma cópia do cromossomo X, são os mais afetados pela doença, já casos da doença em meninas ocorrem, mas são incomuns.

A doença causa fraqueza e degeneração progressiva dos músculos esqueléticos (que controlam o movimento) e cardíacos (coração). Seus sintomas geralmente se tornam aparentes em torno dos 3 anos de idade afetando, inicialmente, os músculos do quadril e membros inferiores. 

Cerca de 84% dos pacientes com DMD passam a depender de cadeiras de rodas até os 15 anos de idade. O uso de aparelhos de ventilação assistida é necessário para pelo menos 80% dos casos até os 20 anos de idade.

Para saber mais sobre sinais e sintomas, e a genética da DMD, leia esse artigo. 

A DMD não tem cura, mas possui tratamento. Por ser uma doença progressiva, quanto mais cedo ela for identificada, mais cedo o tratamento pode ser iniciado, garantindo mais qualidade de vida ao paciente. 

Por ser uma doença rara e desconhecida, o diagnóstico da DMD pode ser muito desafiador, podendo levar até 9 anos para ser obtido, após diversos exames que podem incluir biópsias dos tecidos musculares para dosagem de distrofina.

O diagnóstico molecular feito através de um exame genético é capaz de identificar mais de 95% dos casos de Distrofia Muscular de Duchenne. É um exame simples, não invasivo, rápido e preciso que, além de diagnosticar a doença, identifica qual a alteração genética é responsável por ela. Isso contribui para um acompanhamento e tratamento mais personalizados. Além de permitir o aconselhamento genético do paciente e outros membros da sua família.

Saiba mais sobre exames de diagnóstico genético nesse artigo.

 

Programa DNAmplo 

Para dar suporte ao diagnóstico da DMD e de outras doenças neuromusculares, a Mendelics junto a PTC Therapeutics desenvolveu o Programa DNAmplo, um programa de suporte ao diagnóstico que oferece de forma gratuita um exame de painel de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) que inclui 222 genes relacionados a doenças neuromusculares com início na primeira infância, incluindo a DMD.

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Referências