Admirável Mundo Novo e a Manipulação Genética

Admirável Mundo Novo e a Manipulação Genética

Admirável Mundo Novo: Utopia ou profecia?

Se você já leu Admirável Mundo Novo, o famoso romance de Aldous Huxley, sabe que o livro retrata uma realidade muito diferente da que conhecemos hoje, onde a manipulação genética em humanos é uma prática rotineira. Se você não leu o livro, talvez tenha assistido o filme Gattaca, um clássico da ficção científica dos anos 1990, e que também retrata uma realidade distópica semelhante.

Em Admirável Mundo Novo, a genética humana foi moldada para o desenvolvimento de uma sociedade completamente saudável, sem qualquer doença, onde cada indivíduo é criado para um fim predeterminado.

Nesse post vamos falar um pouco sobre o mundo distópico apresentado no livro e discutir o que é realidade e o que é pura ficção.

 

Admirável mundo novo

A história se passa em um futuro distópico onde as pessoas são geradas de maneira totalmente artificial. Enquanto em Gattaca os embriões eram selecionados e inseminados artificialmente para passarem por uma gestação tradicional, em Admirável Mundo Novo todos são gerados e criados em uma espécie de fábrica até atingirem a idade adulta (1).

Se Gattaca já estava muito além do seu tempo, Admirável Mundo Novo, escrito em 1932, está tão distante da realidade que pode parecer completamente impossível.

Os cientistas responsáveis pela produção de embriões nessas fábricas usam diversas técnicas para alavancar o desenvolvimento de pessoas mais fortes e inteligentes para ocupar as posições mais altas da sociedade, e comprometer o desenvolvimento daquelas que ocuparão as posições mais baixas (1).

Todo o processo de seleção e desenvolvimento dos embriões é feito de forma a condicionar (treinar) aquele futuro indivíduo a exercer a sua função. Por exemplo, aqueles que trabalharão em locais mais quentes, como países tropicais ou dentro de fábricas, são inseminados e gerados em temperaturas maiores para que se acostumem a climas quentes (1).

Admirável Mundo Novo leva a manipulação genética ao extremo, insinuando que, no futuro, será possível desenvolver pessoas sob medida, controlando cada aspecto da fisiologia e comportamento.

Apesar de muito do que foi proposto no livro não respeitar as limitações da manipulação genética, ele mostra como essas técnicas podem ser utilizadas para melhorar a qualidade de vida das pessoas, diminuindo a incidência de doenças. Mas, então, o que é real e o que é ficção em Admirável Mundo Novo?

Tabela indicando o que é ficção e o que é real em Admirável Mundo Novo

 

Genética e Comportamento

As “fábricas de pessoas” de Admirável Mundo Novo, além de criarem os embriões todos in vitro, simulam as gestações desses embriões de forma totalmente sintética. Durante a gestação, os embriões são submetidos a diferentes condições de temperatura, luminosidade, e diferentes dietas, a depender da função que esse indivíduo deve exercer no futuro (1).

Esse condicionamento é a característica mais fantástica do processo reprodutivo descrito no livro, e corresponde muito pouco com a realidade.

Sabemos que algumas características do nosso comportamento têm contribuição genética. Na verdade, epigenética (abaixo). Mas o efeito do ambiente (educação, cultura, meio ambiente, estilo de vida etc), das nossas experiências, é muito mais marcante na determinação do nosso comportamento (2).

Epigenética: é um conjunto de alterações químicas que as nossas células usam para determinar quais genes ficam “ligados” e quais ficam “desligados”.

Porém, a relação entre o quanto da nossa epigenética pode ser “moldada” pelo ambiente, como a exposição a diferentes temperaturas ou diferentes dietas, ainda é muito pouco compreendida.

Além disso, sabemos que a epigenética muda durante a vida. Mesmo gêmeos idênticos (univitelinos), que têm o mesmo ADN, podem se tornar muito diferentes ao longo da vida, com epigenéticas bastante distintas (2).

Por isso, mesmo que fosse possível modelar o comportamento durante o desenvolvimento de um embrião, não há como impedir que ele mude durante a vida.

E, finalmente, alterar o processo natural de regulação epigenética utilizando essas técnicas de condicionamento pode causar alguns problemas. Erros nesse processo de regulação de genes ligados e desligados podem causar algumas síndromes, como:

    • Russel-Silver: alterações no braço curto do cromossomo 11 (em 11p15).
    • Angelman: alterações no braço longo do cromossomo 15 (em 15q11.2).
    • Prader-Willi: alterações no braço longo do cromossomo 15 (em 15q11.2). 
    • Beckwith-Wiedemann: alterações no braço curto do cromossomo 11 (em 11p15).

Apesar de não termos como controlar o surgimento dessas doenças, já é possível diagnosticá-las. A Mendelics disponibiliza exames de diagnóstico genético para essas quatro síndromes, além de muitas outras doenças de base genética.

 

Teste de Triagem de Portador – o que podemos fazer hoje?

Em Admirável Mundo Novo, as pessoas são “fabricadas” dentro de enormes laboratórios a partir de óvulos e espermatozoides selecionados (1). Como o livro foi escrito muito antes do surgimento das técnicas utilizadas para testes genéticos, não fica claro como essa seleção é feita.

Hoje temos testes específicos para verificar se os pais (e seus óvulos e espermatozóides) possuem alguma variante genética que pode ser passada para os filhos e causar doenças. São os testes de Triagem de Portador.

O Teste de Triagem de Portador da Mendelics testa mais de 160 genes associados ao desenvolvimento de mais de 150 doenças de base genética.

Assim, conhecendo os riscos de passarem variantes genéticas patogênicas (que causam doenças) para os filhos, os pais podem optar por fazer uma fertilização in vitro (FIV) e teste de diagnóstico genético pré-implantacional (PGD), para garantir que o bebê não receba essas variantes.

No entanto, o número de doenças que podemos analisar com esses testes ainda é limitado.

Conheça mais sobre Testes de Portador e Testes de Diagnóstico Genético Pré-Implantacional, além do nosso portfólio completo de exames genéticos no nosso site.

 


Referências:

  1. Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, 11ª ed. Rio de Janeiro: Hemus – Livraria Editora Ltda., 1969.
  2. D. S. Moore, “Behavioral epigenetics,” Wiley Interdisciplinary Reviews: Systems Biology and Medicine, vol. 9, no. 1, p. e1333, Dec. 2016, doi: 10.1002/wsbm.1333.
Manipulação genética: a base da narrativa de Gattaca

Manipulación genética: la base de la narrativa de Gattaca

¿Cuánto acertó la trama de Gattaca?

Los constantes avances en las áreas de tecnología, genética y salud nos permiten hoy estudiar variantes patógenicas (que causan enfermedades), para diagnosticar y tratar enfermedades genéticas. Con esto, aumentamos la calidad de vida de varias personas afectadas por enfermedades genéticas en todo el mundo.

Pero, ¿y si pudiéramos evitar que las personas presenten estas mutaciones? ¿Podríamos eliminar las enfermedades genéticas raras y disminuir la propensión a enfermedades comunes, como la diabetes y la presión arterial alta?

En este post analizaremos el mundo futurista presentado en la película Gattaca de 1997, donde la manipulación genética no es solo una posibilidad, es el estándar.

 

Gattaca

La película se desarrolla en “un futuro no muy lejano” donde las personas ya no se reproducen de la forma tradicional. En esta realidad, cuando una pareja quiere tener hijos, recurre a un laboratorio de inseminación artificial.

Los científicos usan espermatozoides y óvulos donados por la pareja para producir varios embriones, y luego se seleccionan e implantan los embriones más fuertes, con menos probabilidades de desarrollar la enfermedad. De esta forma, la sociedad representada en la película está llena de individuos súper sanos e inteligentes, ya que ninguno de ellos tiene variantes genéticas que comprometen el desarrollo físico o intelectual. (1)

La trama sigue la trayectoria de Vincent, uno de los pocos nacidos todavía de forma natural, y que sueña con ser astronauta. Sin embargo, en Gattaca, solo personas seleccionadas pueden ejercer esta profesión. Vincent, miope y propenso a sufrir problemas cardíacos, nunca sería admitido en el programa de formación. Por lo tanto, el personaje decide burlar el sistema.1

Fue allí donde encontró a Jerome, uno de los súper sanos, que perdió el movimiento de sus piernas y su carrera luego de un accidente automovilístico. Jerome, ahora considerado inválido por la sociedad, acepta vender su identidad a Vincent, quien luego logra ingresar al programa de entrenamiento espacial.1

La película muestra una realidad muy diferente, donde las personas son clasificadas y seleccionadas por su material genético.

Al mismo tiempo, también demuestra cómo otros factores afectan la salud a lo largo de la vida, independientemente de la genética. Jerome era un nadador talentoso y, genéticamente hablando, lo tenía todo para triunfar en la vida, pero luego de perder una competencia, entró en un estado de profunda depresión que lo llevó al accidente.

Por otro lado, de Vincent no se esperaba mucho, dada su genética imperfecta, pero mantuvo una vida saludable y logró convertirse en astronauta, como siempre soñó. Además, Vincent tuvo un diagnóstico temprano de su afección cardíaca, ya en la infancia, lo que le permitió evitar que se desarrollara a lo largo de la vida.

Gattaca presenta una realidad donde la selección genética de embriones ha llevado a una sociedad casi libre de enfermedades, pero ¿cuánto de esta historia es realista y cuánto es ficción?

 

Manipulación genética y reproducción humana

Hoy en día ya existen técnicas bastante sofisticadas de manipulación genética, sin embargo, pocas se utilizan para ayudar en la reproducción. Actualmente, es posible realizar pruebas de diagnóstico (PGD) y tamizaje genético (PGS) en embriones antes de la implantación, en casos de reproducciones asistidas por fertilización in vitro (FIV). (2)

  • Diagnóstico genético preimplantacional (PGD - Preimplantation Genetic Diagnostic): evalúa si el embrión tiene enfermedades genéticas específicas. Esta prueba se recomienda en los casos en los que haya antecedentes de enfermedades genéticas en la familia. A partir del resultado de la prueba, se seleccionan embriones sanos para su implantación.
  • Examen genético previo al implante (PGS - Preimplantation genetic screening): comprueba si hay cambios cromosómicos en los embriones analizados. Se seleccionan embriones sanos, sin cambios, para su implantación.

Estas pruebas no verifican otras características del futuro bebé, como el color de ojos, la constitución física o la propensión a ser atleta o científico. Estas características son muy complejas y dependen de muchos factores además de la genética. Por lo tanto, es muy difícil e ilegal en muchos países, como Brasil, seleccionar embriones en función de estas características.

Es importante señalar que en ambos casos los embriones se seleccionan en función de la presencia o ausencia de cambios cromosómicos o genéticos que pueden provocar enfermedades graves. No se utiliza ninguna técnica de edición genética. Es decir, los embriones seleccionados se implantan sin ningún cambio en su material genético.

 

Diagnóstico precoz y calidad de vida

Hoy en día ya existen varias pruebas para el diagnóstico y tamizaje precoz de enfermedades genéticas. Estas pruebas permiten al paciente buscar tratamiento lo antes posible, evitando condiciones más graves o incluso previniendo el desarrollo de enfermedades.

Mendelics ofrece varios paneles de diagnóstico neonatal para varias enfermedades de base genética, como el Panel de enfermedades tratables, que debe realizarse siempre que se sospeche que el bebé tiene una enfermedad genética.

Ante la sospecha de enfermedad cardíaca, como en el caso de Jerome en Gattaca, también existen paneles específicos para el diagnóstico, como el Panel de Arritmias y el Panel de Miocardiopatías, entre otros.

Además de las pruebas de diagnóstico, también existe el Examen Primer Día, un panel de tamizaje genético neonatal, que evalúa la propensión del bebé a desarrollar más de 320 enfermedades de la primera infancia. Es una prueba que debe realizarse para complementar la prueba del talón.

 


Referencias

1. Gattaca. Sony Pictures Releasing, 1997.

2. S. A. Neal and M. D. Werner, “The impact of contemporary preimplantation genetic screening and diagnosis on the detection of aneuploidy and inherited genetic diseases,” Birth Defects Research, vol. 110, no. 8, pp. 644–647, May 2018, doi: 10.1002/bdr2.1220.